Mark Linkous, do Sparklehorse: dez anos sem o cultuado bardo indie de lindas e tristes canções
Entretenimento

Mark Linkous, do Sparklehorse: dez anos sem o cultuado bardo indie de lindas e tristes canções

“Imagine um disco como uma galáxia e todas as músicas como pequenos planetas. E alguns deles bagunçados e girando fora do eixo.” Era assim que Mark Linkous costumava definir sua música. Há exatamente 10 anos, o cantor e compositor, vocalista da Sparklehorse, deu um tiro no coração.

Com uma vida marcada pela dependência química e tragédias, Mark é lembrado por sua bela obra melancólica e perturbadora, deixando uma marca indelével no folk alternativo e no indie rock de meados dos anos 90. Álbuns como "Vivadixiesubmarinetransmissionplot", de 1995, "Good Morning Spider", de 1998, e "It's a Wonderful Life", de 2001, são exuberantes e comoventes.

Mark Linkous deixou uma marca indelével folk alternativo e no indie rock. Foto: Getty Images
Mark Linkous deixou uma marca indelével folk alternativo e no indie rock. Foto: Getty Images

“Um perfeccionista autodidata com propensão à excentricidade, com gravações de estúdio não-ortodoxas e letras de outro mundo. Seus murmúrios distorcidos ordenavam aos ouvintes que prestassem atenção à beleza das trevas”, escreveu Max Blau sobre Mark no "Pitchfork" em 2015. O colaborador disse que o músico encontrava consolo em coisas simples da vida, talvez como forma de combater seus próprios fantasmas. "Ele se sentia em casa percorrendo as estradas da Virgínia com amigos em motos antigas. Ele era um artesão melancólico com um senso de humor bobo; um bibliófilo apaixonado por junk food; um compositor magistral com pedigree musical informal", descreveu.

Mark começou a carreira nos anos 1980 na banda indie The Dancing Hoods. Saíram da Virgínia para Nova York e, mais tarde, para Los Angeles, em busca de melhores oportunidades. Chegaram a gravar dois discos, mas sem conseguir um bom contrato, acabaram se separando em 1988.

O vocalista retornou a Richmond, na Virgínia, onde compôs e participou de alguns projetos de curta duração, como a banda Salt Chunk Mary, que até lançou demos, mas nenhum álbum oficial. Em 1995 lançou o projeto solo Sparklehorse, mesmo ano em que foi lançado o primeiro álbum intitulado "Vivadixiesubmarinetransmissionplot".

A única música a tocar nas rádios americanas, "Someday I Will Treat You Good", fez sua breve apresentação nas paradas alternativas em 1996, época em que a banda estava abrindo para o Radiohead no Reino Unido. Mas então Mark tomou uma quantidade absurda de Valium no quarto do hotel, que o deixou sem batimentos cardíacos por dois minutos. Depois de vários dias desacordado, acabou descobrindo que havia ficado com sequelas nas pernas, o que o manteve em cadeira de rodas por meses.

A situação o levou a repensar tudo o que já havia sido feito para o próximo álbum da banda, "Good Morning Spider", de 1998. A faixa "Saint Mary", por exemplo, é o nome do hospital em que Mark ficou em Londres e fala claramente da experiência traumática. A faixa de 33 segundos “Box of Stars (Part One)” é assustadora, e "Chaos of the Galaxy/Happy Man" reúne trechos alegres a estática de rádio e uma peça funerária de órgão. "Happy Man", aliás, foi separada depois para ser lançada como um single.

Em 2001, o Sparklehorse lançou "It's a Wonderful Life", produzido por Dave Fridmann e com participações de Tom Waits, PJ Harvey, John Parish, Nina Persson, Vic Chesnutt e Dave Fridmann.

Ao ouvir que Tom Waits gostava da banda, Mark criou coragem para entrar em contato com o ídolo. Os dois passaram a se corresponder frequentemente, levando a uma troca de fitas de quatro faixas pelo correio e, depois, à gravação de "Dog Door". "É como abrir os olhos debaixo d'água no fundo de um riacho. Você vai, 'Jesus, veja o que está aqui embaixo'", disse Tom uma vez, descrevendo o fascínio sombrio da música de Mark.

"Dreamt for Light Years in the Belly of a Mountain", que surgiu em meio à depressão e preocupações financeiras, foi produzido por Danger Mouse e lançado em 2006 trazendo algumas faixas cativantes que havia sido esquecidas como B-sides do álbum anterior. "Já estava passando da hora de lançar um disco novo. Então eu resgatei todas essas pequenas canções pop", disse Mark à "Pitchfork" na época.

Mark, que sempre foi mais respeitado por seus colegas do que reconhecido pelo público, iniciou outra colaboração frutífera com Danger Mouse, dessa vez ao lado de David Lynch. Só que "Dark Night of the Soul" teve problemas no lançamento, como vazamento de faixas e o CD-R que acompanhava o livro do projeto, que foi distribuído sem nenhum conteúdo.

Danger Mouse, Mark e David Lynch em um evento em 2009. Foto: Getty Images
Danger Mouse, Mark e David Lynch em um evento em 2009. Foto: Getty Images

O trabalho, em sua maior parte gravado em seu próprio estúdio Static King, ampliou a impressionante lista de colaboradores de Mark, como Iggy Pop, Wayne Coyne, Julian Casablancas, Suzanne Vega e Black Francis. Uma das músicas mais tocantes do álbum é "Grim Augury", com Vic Chesnutt, o cantor e compositor da Geórgia com quem Mark já havia trabalhado no disco anterior.

Eles ficaram próximos na época em que Mark estava sem poder andar. Vic, por sua vez, usava também cadeira de rodas — um acidente de carro em 1983 o deixou parcialmente paralisado e com dificuldades de movimentos com as mãos. No Natal de 2009, entre o período do vazamento de "Dark Night of the Soul" e o lançamento oficial, Vic se suicidou. Mark ficou extremamente abalado com a morte do amigo. O sofrimento, aliado a um complicado divórcio, certamente agravaram sua depressão. Três meses depois, ele se matou sem ver o lançamento do novo trabalho, que só saiu em julho de 2010.

Dez anos após sua morte, seu espólio continua bloqueando vários projetos de tributo, incluindo um álbum de covers e um documentário. As faixas inacabadas gravadas para o quinto álbum do Sparklehorse talvez nunca sejam lançadas, mas outras músicas inéditas surgiram nesse período. Em 2011, a dupla Azure Ray lançou duas músicas que fizeram com Mark e em novembro do ano passado, Danger Mouse lançou "Ninjarous", uma parceria entre Sparklehorse e o rapper underground MF Doom.

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest