Melhores de 2019, o ano mutante, segundo a coluna 'Na BR-3'
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Melhores de 2019, o ano mutante, segundo a coluna 'Na BR-3'

As duas últimas colunas do ano serão dedicadas a listas de melhores, primeiro do ano de 2019 e depois da década de 2010. Minha ideia inicial era sugerir uma lista de álbuns que marcaram o ano, mas me vi diante do fato inescapável de que o álbum não é mais o veículo preferencial para o relacionamento do artista com seu público. Então usei os álbuns como marcos de um ano bastante produtivo e bastante confuso.

A lista abaixo, é sempre bom lembrar, é um olhar do colunista para o ano que passou, a partir dos valores que são importantes para essa coluna (variedade, entre eles). Em geral, o ano de 2019 para o pop-rock brasileiro foi uma trincheira entre o protesto e a indignação política e a retomada de fôlego para quem quer se comunicar em um país que tem se revelado muito, muito diferente daquele que imaginávamos. De uma forma ou de outra, o tom de 2019 foi “renovação” quando não “revisão”, mais do que “transformação”. Foi um ano mutante – e o exercício da mutação é sempre bem-vindo.

Baiana System teve um 2019 histórico/ Foto: Divulgação
Baiana System teve um 2019 histórico/ Foto: Divulgação

1. Banda do ano (ou o ano da banda): BaianaSystem

Russo Passapusso e sua turma continuam construindo uma biografia impressionante em passos largos. O álbum “O Futuro não demora”, lançado em fevereiro, talvez seja seu melhor até agora, o single/clipe “Saci” liquefazendo os power-chords do rock, o pancadão, Tropikillaz, África e Brasil, e, fechando o ano, a nova “Cabeça de papel” (que, na elegância, dá o toque preciso sobre a militarização do pensamento burguês) nos ofereceram aquela deliciosa sensação de estarmos vendo a história diante de nós, de uma banda da qual falaremos ainda por muito tempo.

2. Retorno do ano: Ave Sangria, ‘Vendavais’

Por essa ninguém esperava: Uma das grandes bandas da psicodelia pernambucana do início dos anos 70 retomou a carreira com belíssimos shows pelo Brasil e entregando um álbum impressionante do início ao fim. “Vendavais” consegue ser fiel ao espírito original do grupo como assimilar tudo o que soasse interessante nos 40 anos seguintes e formar um belíssimo e coerente par com o único LP da fase inicial do grupo, “Ave Sangria”, de 1974.

3. Melhor conjunto de canções: Teago Oliveira em 'Boa Sorte'

Se para você um álbum é uma coleção de boas canções, então seu álbum é “Boa Sorte”, de Teago Oliveira. O líder do Maglore sempre foi um compositor de mão cheia, você sabe, mas com dez anos de banda no currículo, entrou em estúdio para sua primeira aventura solo desarmado e seguro o suficiente para um disco sem grandes truques de conceito ou forma, apenas um conteúdo que se sustentaria no palco, no disco ou mesmo em uma roda de violão como mostra o vídeo abaixo:

4. Álbum do ano: Emicida com 'AmarElo'

Aqui não se trata de um conjunto de boas canções. Elas estão lá (“Cananeia, Iguape e Ilha Comprida”, “Pequenas Alegrias da Vida Adulta”, “Princípio” a frente), mas as ambições de Emicida, de promover pontes e desarmar as mais perigosas bombas emocionais do ano, fez de 'AmarElo' um álbum com o sentido que a ele começou a se atribuir em 1966, uma obra de arte como um livro ou um filme, com motivo estético e senso ético. Com a diferença de que, no mundo em que vivemos, ele se expande para a estratégia de marketing que envolveu uma plataforma de streaming, anúncio no intervalo do Jornal Nacional e show de lançamento no Teatro Municipal de São Paulo. Saca o vídeo de “Silêncio” – se você não entender nem se emocionar é porque passou o ano de 2019 dormindo.

5. Outro álbum do ano: Fresno com ‘Sua alegria foi cancelada’

O oitavo álbum do Fresno é fruto de três anos de experiências diversas da banda e de uma necessidade de atualizar as pretensões – temáticas, atitudinais e sonoras – do grupo que começou há duas décadas como um trend do público emo adolescente. Mas acabou sendo um atestado do domínio completo da banda sobre seu próprio espaço (o que incluiu sua relação com a internet e as mídias sociais e como elas se entrelaçam com o próprio processo de composição) e de que o melhor que você pode fazer é deixar o preconceito de lado e prestar muita atenção no que esses jovens senhores estão fazendo.

6. Mais um álbum do ano, vai: Do Amor, com ‘Zona Morta’

Disperso em três cidades de dois continentes diferentes, o grupo carioca Do Amor justifica sua existência em “Zona Morta” – em diversos sentidos. O álbum foi construído à distância, gravado em meros dois dias e lançado despretensiosamente em agosto. Apesar disso – talvez por isso mesmo – seja um álbum musculoso, básico, dominado por guitarras pesadas e mais apegado ao power-pop do que à guitarrada (ou ao lado mais solar e tropicalista de boa parte de seu repertório clássico). Mas, ao mesmo tempo, é o Do Amor de sempre, por outro lado, com refrãos grudentos, melodias grudentas e letras desconcertantes. Vá sem medo.

7. Lenda-viva do ano: Jards Macalé com ‘Besta-fera’

Depois de 50 anos desnorteando seu público, Macalé contou com o auxílio luxuoso de diversos nomes do século 21 (como Tim Bernardes, Kiko Dinucci e Ava Rocha) para aquele que talvez seja seu álbum mais íntegro e arquetípico. O que não quer dizer que Macalé não saiba dizer sobre o Brasil que o envolve, como já anunciava no primeiro single, “Trevas”.

8. Exercício do ano: Scalene com ‘Respiro’

A História nos sugere que o pré-requisito para o risco é a segurança. No caso da música, um álbum “ousado” veio sempre depois de um adiantamento polpudo de uma grande gravadora. Com um mercado musical ultrafragmentado num país com pouco dinheiro em circulação, o razoável seria que o Scalene jogasse no seguro e talvez andasse alguns passos para trás, em direção ao rock cerebral, stoner, asfixiante e onírico que cativou seu público fiel. Em vez disso, se arriscou em direção a uma certa MPB e às texturas acústicas que combinassem com seu dialeto, montando um novo móbile com peças novas e antigas. “Respiro” é mais irregular que se antecessor “Magnetite”, mas a beleza do exercício fala mais alto.

9. Exercício para veteranos do ano: Erasmo Carlos com ‘Quem foi que disse que eu não faço samba…’

Em seu novo álbum, lançado no apagar das luzes de 2019, Erasmo toma pra si o que é seu por direito: o samba-rock. Foi ele que, em 1966, levantou a discussão a respeito de um tal “samba jovem” como opção ao rock simplório da jovem guarda. Foi ele que dialogou com o tropicalismo enquanto dividia a (famosa) casa no Brooklin paulistano com Jorge Ben. Seu novo álbum mistura novas e antigas composições, com ênfase a músicas gravadas anteriormente por outros artistas. É um delicioso disco de festa, com muita crítica social escondida nas letras, como na parceria com Max de Castro em “A História da Morena Nua Que Abalou as Estruturas do Esplendor do Carnaval”.

10. Atenção, muita atenção: Ana Frango Elétrico com ‘Little Electric Chicken Heart’

Embora o segundo álbum da carioca Ana Frango Elétrico esteja arrancando elogios entusiasmados da parte mais antenada dos formadores de opinião, o que o trabalho mostra, de verdade, é que Ana, de 22 anos, ainda tem muito espaço artístico a ocupar. Recomenda-se prudência combinada com o entusiasmo. Por hora, o que fica claro é o domínio de Ana como compositora, arranjadora e criadora, além de uma esperta associação de signos com o tropicalismo pela via da estranheza e da contestação, e não pela submissão ao status-quo (que é o caminho preferencial de 9 entre 10 novos artistas brasileiros). Vai, Ana!

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