Melyra: a banda de metal formada por mulheres com duas profissões
Especial

Melyra: a banda de metal formada por mulheres com duas profissões

Roberta é dona de um mercado em Mesquita, na Baixada Fluminense. A família comprou a loja quando ela tinha 20 anos como uma forma de dar a ela e ao irmão uma oportunidade de tocar um negócio. Drika é estudante de Farmácia, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Acorda todos os dias à 4h30 para trabalhar no laboratório farmacêutico para o qual presta serviços. Fernanda é formada em Ciências da Computação, mas, ela diz, nunca foi feliz na profissão. Hoje, dá aulas de apoio de Matemática e ensina idosos a usarem redes sociais. Nena — apelido para Helena — está com a faculdade de Direito trancada, mas pretende voltar no próximo período. Enquanto isso, ela dá aulas de reforço em Geografia, História, Sociologia e "tudo o que aparecer de humanas" para alunos do Ensino Médio e novos universitários.

Se em um primeiro momento Roberta, Drika, Fernanda e Nena não parecem se encaixar em nada, basta uma conversa sobre música para entregar que as quatro são partes diferentes de um quebra cabeça de cinco peças chamado Melyra, banda de metal do Rio de Janeiro formada em 2012. De todas as integrantes, apenas a vocalista Verônica Voxx não têm outra profissão não artística (ela é locutora de rádio e professora de canto). Com o fim do ano, a banda se prepara para entrar em turnê de divulgação de seu álbum de estreia, "Saving You From Reality".

"A Melyra começou comigo, na internet. Da formação original só restou Helena e eu. Nós duas tínhamos o mesmo sonho de viver na música", conta Fernanda. Há dez anos, ela se formou em Ciências da Computação na Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio, mas procurou alternativas que a fizessem feliz. De dois anos para cá, ela começou a dar aulas de informática para pessoas mais velhas. "Comecei com isso porque os amigos dos meus pais sempre reclamava que os filhos não tinham paciência para ensinar e eu pensei que eu poderia fazer isso porque sou muito paciente", conta uma das guitarristas da banda. Se de um lado seus alunos têm entre 60 e 80 anos, de outro, são alunos de Ensino Fundamental: ela também dá aulas de reforço de matemática.

A veia docente aflorou para as duas membros originais da Melyra. Aos 31 anos, Nena é filha de guitarrista. Seu pai tocou com a Blitz e com Lobão na década de 1980. Desde criança, ela convivia com a rotina de ensaios do pai. "Pegar um instrumento foi quase que um processo natural. Em algum momento da vida eu achei que pudesse tocar violino, mas na hora de me inscrever na escola de música eu falei, do nada: 'moça, você não tem uma vaga de baixo para mim, não? E ela tinha'", conta a responsável pelos pesados guturais da Melyra. "Eu tenho uma rotina de trabalho alternada, mas dou aulas à tarde. Nós somos a única banda do Rio de Janeiro que ensaia dia de semana de manhã", ri.

Há pouco tempo a rotina de ensaios no período matutino teve que ser levemente alterada. Com a entrada de Drika Martins para o grupo, os horários foram modificados. A baterista tem 24 anos e estuda Farmácia. Pela manhã, chega às 5h no laboratório onde trabalha para arrumar suas coisas. Às 6h parte para as visitas domiciliares que faz na região da Barra. "Eu faço coleta de sangue, teste do pezinho, coleta de secreções em geral. Pego o material biológico e levo para o laboratório analisar", explica Drika. Às 12h, quando termina o expediente, ela segue para a faculdade. Os dias de ensaio são colocados justamente nas duas janelas que Drika montou em sua grade curricular. "Sempre monto meus horários na faculdade para ter dois dias livres. O laboratório é na Tijuca e o local do ensaio também, o que facilita", diz.

Por conta do trabalho, Drika ganhou o apelido de “vampirinha” por parte das colegas de banda. Para ela, a profissão de farmacêutica serve como uma segunda opção. "A minha prioridade deveria ser a faculdade, mas eu dou para a música porque é o que sustenta meu espírito. Se um dia eu conseguir chegar em um nível que não vou precisar da minha segunda opção, ela vai ficar guardada. Música é o que me sustenta".

Roberta, a outra guitarrista da Melyra, divide com o irmão os afazeres do mercado que têm na Baixada Fluminense. Na época em que a unidade foi comprada, ela teve que dar um tempo com a banda para poder organizar tudo no empreendimento. "Eu casei com meu gerente e ele me apoia e me incentiva. Sempre fica aqui. No álbum da Melyra eu agradeço a ele e a minha fiscal de caixa porque sem eles, não dava (para conciliar as duas profissões)", diz Roberta, que ainda cursa Psicologia pela manhã. No mercado, ela trabalha na parte da tarde e noite, até ás 22h.

"Quando a gente começar a fazer shows, minha vida vai ser mais maratona ainda. Eu conto com o meu marido e deixo o trabalho adiantado. Quando a gente é dona, a gente faz tudo, não tem acúmulo de função: fico no caixa, cubro almoço, pego lanche, faço pagamentos... Tenho um violão aqui no escritório então quando sobre um tempo, ainda tiro umas músicas", conta sobre sua vida multi-tarefa.

Um dos principais motivos de briga no mercado de Roberta não é sobre troca de horários ou discordâncias de gestão. "É porque eu quero colocar rock, mas a galera coloca pagode. Eu perdi a briga, sou voto vencido. Aqui é bem democrático: se maioria decidiu, fazer o quê? Ultimamente a gente está tão no desespero que só estamos ouvindo gospel".

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest