Michael Hutchence e INXS: depois do doc 'Mistify', reabilitação do prestígio segue com reedição de show clássico turbinado
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Michael Hutchence e INXS: depois do doc 'Mistify', reabilitação do prestígio segue com reedição de show clássico turbinado

O auge do INXS foi sintetizado na Summer XS Tour 1991 e, em particular, na apresentação em Londres, no Wembley Stadium lotado. É esse registro, chamado "Live Baby Live", que será lançado em junho numa versão remasterizada. O vocalista Michael Hutchence, inspirado, infelizmente sofreria um acidente no ano seguinte que mudaria totalmente sua vida — esta, ao menos, é a tese defendida pelo doc "Mystify", do diretor Richard Lowenstein, que está disponível na Netflix. Segundo o filme, um sério problema de saúde, acusações de estrelismo, pressão por novos hits, disputa judicial pela filha e até mesmo uma piada de mau gosto de Noel Gallagher, do Oasis, durante uma premiação, acabaram o guiando a um desfecho trágico: o suicídio, aos 37 anos, em 1997.

"Live Baby Live", registro do concerto da banda australiana INXS em 1991 no Wembley Stadium, em Londres, foi lançada numa cópia remasterizada pela primeira vez nos cinemas da Inglaterra em 2019. A cópia agora passou por uma remixagem e restauração e vai ganhar agora reedição no dia 26 de junho.

O concerto, que registrou uma apresentação para um estádio lotado, foi lançado na época com um álbum ao vivo que trazia performances de outros shows da Summer XS Tour. A banda divulgou recentemente o vídeo de "Suicide Blonde", que também dá uma ideia do trabalho de restauração do material, que durou um ano, partindo dos dos negativos originais de 35mm.

O trabalho ainda ganhou um "extra": “Lately”, trecho do show que muitos pensavam estar perdido ou não ter sido registrado, foi descoberto e devidamente adicionado. O áudio passou por uma atualização no Abbey Road Studios. O material será lançado digitalmente, em Blu-ray 4K de alta definição, Blu-ray e DVD — os discos físicos virão com um livreto com fotos e novos textos.

Se "Live Baby Live" mostra o glamour da banda, vale a pena assistir o doc "Mystify" na Netflix. A produção é rica em imagens caseiras do vocalista Michael Hutchence, seus companheiros de banda, namoradas e amigos, mostrando com detalhes a trajetória dele na banda formada em 1977 em Sidney.

Um dos principais méritos do filme é dar indícios de que o suicídio de Michael foi um final triste para uma avalanche de situações que se tornaram insuportáveis para ele. A começar, pela agressão que sofreu em 1992, que o fez bater com a cabeça na rua e danificou uma parte do cérebro. O cantor não tinha mais olfato nem paladar e pediu sigilo absoluto da situação para a namorada, a modelo dinamarquesa Helena Christensen, que estava com ele no momento.

Michael e Helena em Paris, em julo de 1992. Foto: Getty Images
Michael e Helena em Paris, em julo de 1992. Foto: Getty Images

O diretor, que havia trabalhado com o INXS nos videoclipes de "Never Tear Us Apart" e "New Sensation", explicou em uma entrevista ano passado à "NME" porque fez o filme 20 anos após a morte de Michael. "Eu só queria retratá-lo como o tinha visto. Estava fazendo 20 anos que ele morreu e ainda havia uma série de rumores nos tabloides sobre como ele se foi e como ele era quando estava vivo. Como amigo pessoal, eu sabia que, se não o mostrasse como o vi, ninguém o faria”, contou ele, que levou cinco anos para finalizar o filme.

Entre os vários depoimentos, estão os de suas namoradas, como Helena e Kylie Minogue. "Eu acho que o filme não teria sido o que foi se não fosse por ela e por sua fé. Ela estava disposta a contar a todos os lados, as drogas, o sexo e a dolorosa separação. Tínhamos um acordo para mostrar a sua parte no filme caso ela quisesse tirar algo, mas ela apenas disse: 'Você fez isso lindamente'”, disse o diretor.

Sobre a lesão cerebral, que Helena manteve em segredo mesmo após a morte de Michael, Richard conta que foi um depoimento doloroso e revelador. "Ela nunca falou sobre isso porque Michael tinha pedido segredo, afinal, quem garante que os outros membros da banda, sabendo que voce tem um dano cerebral, iriam pedir para escrever uma música? Eles diriam: 'Você fica lá cantando e nós escrevemos os hits'", disse.

Richard contou que sabia que as fofocas em torno da morte de Michael eram mentira e que acreditava estar ligada à sua perda de paladar e olfato, que o levou a se tornar maníaco-depressivo. Depois da conversa com Helena ele percebeu que havia muito mais e, inclusive, teve acesso a relatórios de médicos legistas que revelavam que o cantor tinha um dano no lobo frontal. "Eu mostrei a um professor de neurociência que me ligou perguntando se eu sabia sabia que ele estava com um grave dano no cérebro", contou.

Inx em uma apresentação na Bélgica, em 1991. Foto: Getty Images
Inx em uma apresentação na Bélgica, em 1991. Foto: Getty Images

O filme mostra como a personalidade de Michael mudou drasticamente, fazendo coisas arrogantes e egoístas que, no fundo não tinha nada a ver com a fama que tinha alcançado há cinco, seis anos antes. "Muitas pessoas já trataram de classificar suas atitudes como clichês do comportamento das estrelas do rock. Isso num momento em que ele precisava de atenção médica e terapia". lembrou.

Pois o que aconteceu foi bem o contrário. A banda pressionava para nos escrever outro hit porque estavam á cinco anos sem constar nas paradas da Billboard e, àquela altura, ninguém achava mais o rock do vocalista bonito relevante. Para piorar e muito a situação, Michael foi convidado a entregar um prêmio de melhor vídeo no Brit Awards de 1996. Ao chamar o vencedor Oasis, ele não ouviu um discurso de agradecimento e sim o comentário maldoso e cruel de Noel Gallagher: "Os que já eram não deveriam entregar premiações a nós, que somos o futuro". "Foi uma humilhação para ele. Na época, ele ignorou, mas temos imagens da festa mais tarde naquela noite e ele estava arrasado, como é mencionado no filme. Estava tentando desesperadamente fazer a banda evoluir com esses novos sons que estavam saindo. Então, acontece esse golpe na cabeça e ele não consegue mais pensar com clareza”, lamentou o diretor.

Michael, Paula e a pequena Heavenly em setembro de 1996. Foto: Getty Images
Michael, Paula e a pequena Heavenly em setembro de 1996. Foto: Getty Images

Na vida pessoal, Michael enfrentava uma conturbada situação com a mulher Paula Yates, que incluia uma batalha judicial que envolvia sua filha Heavenly. Paula havia sido acusada de porte de ópio e estava prestes a perder a guarda da bebe e das três filhas que teve com seu casamento anterior com Bob Geldof. O filme relata as ligações que ele fez no dia em que cometeu suicídio — para Bob, implorando que ele liberasse uma viagem das meninas à Austrália, e para a namorada Michèle Bennett, chorando e pedindo para vê-la. Ele foi encontrado morto no quarto do hotel em que estava em Double Bay, em Sydney, no dia 22 de novembro de 1997. Três anos depois, Paula morreu em casa de overdose de heroína.

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