Mike Patton, como dono de gravadora, mostra que música experimental dá lucro
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Mike Patton, como dono de gravadora, mostra que música experimental dá lucro

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"Faça o que você quiser. É isso que eu sempre quis ouvir de uma gravadora para poder assinar um contrato". Mike Patton não esperou para realizar seu sonho de liberdade. Na verdade, ele fundou a Ipecac Records dez anos depois do estouro de "The Real Thing”, primeiro disco que ele gravou como vocalista da banda Faith No More. 

Lançado em junho de 1989, o álbum recebeu disco de platina e uma indicação de melhor performance de metal no Grammy para a música "Epic", que até hoje frequenta o dial de rádios rock e era campeã de audiência nos canais MTV e VH1.  


Mike e seus jovens companheiros ficaram por mais dois anos em turnê. Foi um sucesso estrondoso e mesmo assustador para quem sequer havia pisado num estúdio até entrar para a banda californiana. "Você tem que aprender ali na hora, perceber se a gravadora está ou não de seu lado. É preciso desenvolver um faro, saber quando se pode baixar a guarda e quando é preciso se defender", conta Patton sobre sua experiência. 

Aos 51 anos, ele segue, ao lado do sócio Greg Werckman, com sua Ipecac Recordings desde 1999. A empresa foi criada um ano depois da separação da banda, época em que Patton não parou de trabalhar. O vocalista e compositor começou a trilhar caminhos mais experimentais e esotéricos em sua sonoridade e, como sabia que as gravadoras tradicionais não apostariam nesse tipo de trabalho, abriu a Ipecac com seu empresário.  "A ideia nem era fundar uma gravadora, mas ter um canal para Mike fazer seus lançamentos", conta. "Na época eu tinha três ou quatro discos que eu sabia que seriam rejeitados para lançamentos tradicionais. Criar a Ipecac foi como falar 'espere um segundo, nós podemos ter nosso próprio universo e dar um lar para esses trabalhos!'", percebeu Patton.

O primeiro lançamento da gravadora - nome inspirado num remédio que induz o vômito e que Patton brinca no slogan "Ipecac Records...adoecendo pessoas desde 1999" - foi o Fantomas. O grupo era formado por Patton, pelo guitarrista Buzz Osborne, do Melvins, pelo baterista  Dave Lombardo, do Slayer, e o baixista Trevor Dunn, do Mr. Bungle.


Fantomas: primeiro lançamendo da Ipecac Records
Fantomas: primeiro lançamendo da Ipecac Records

A Ipecac, que tem sede em Berkeley, norte da Califórnia,  cresceu atraindo artistas dedicados a projetos experimentais e hoje soma mais de 200 álbuns lançados. Um dos mais recentes foi "Corpse Flower” , do próprio Patton ao lado do compositor francês Jean-Claude Vannier. "Nós vamos lançar música country, discos de comédia, trilhas sonoras, poesia...", avisa Patton. 


A Ipecac é uma iniciativa que contraria a indústria musical, pois a dupla mantêm um modelo de negócios enxuto e simples. "Não investimos milhares de dólares para ter um vídeo campeão de visualizações no Youtube. Realmente sabemos que nossos fãs também não concordam com isso e estamos muito confortáveis com nosso trabalho", afirma Werckman, que que toma conta das minúncias dos negócios. Patton é o responsável por caçar novos talentos e há apenas outros dois funcionários: um em Los Angeles, centro nervoso da indústria musical, e outro em Nova York, onde fica a distribuidora da gravadora. 

Outra atitude da Ipecac que vai contra a maré é a aposta em lançamentos físicos - inclusive vinis -, enquanto que a indústria se torna cada vez mais digital. "Sim, nós somos velha guarda, verdadeiros dinossauros!", brinca Werckman. Patton lembra que o selo foi fundado nos moldes da Napster, como uma plataforma digital. "Mas os fãs ainda querem algo físico, é como um fetiche", compara o cantor. 

Na hora das vendas, a empresa prioriza as vendas on line e nos shows de seus artistas. "Como The Melvins vive em turnê, eles são nossos campeões de vendas!", comemora o empresário. Outra diferença é o contrato com os músicos, que paga royalties mais altos no lugar de adiantamentos e opta por acordos de licenciamento em vez de contratos de longo prazo.

The Melvins vendem os discos nos próprios shows. Crédito: Getty Images
The Melvins vendem os discos nos próprios shows. Crédito: Getty Images

Qualquer artista pode sair levando suas gravações. "Por outro lado, também podemos parar de vender os discos a qualquer momento", destaca Patton. Weckman ressalta que o número de "baixas" não chega a ser significativo, estimando que envia pagamentos de royalties para 80% do cast a cada seis meses. Na Ipecac, se uma banda vender mil cópias, já consegue algum retorno.

Uma exceção no número de vendas aconteceu com o retorno do Faith No More em 2015. "Sol Invictus" permaneceu quatro semanas na Billboard 200. Patton diz que se sentiu numa posição delicada ao ser membro e dono de gravadora ao mesmo tempo. Mas o conflito de interesses foi resolvido da melhor forma possível, com um processo eficiente onde cada companheiro pode opinar sobre cada detalhe. Resultado totalmente coerente com a essência que moveu Patton e Werckman a fundar a Ipecac há duas décadas. 


Faith No More na época do lançamento de "The real thing". Crédito: Getty Images
Faith No More na época do lançamento de "The real thing". Crédito: Getty Images

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