'Miseducation of Lauryn Hill': os 20 anos do álbum que mudou o hip-hop
Inspiração

'Miseducation of Lauryn Hill': os 20 anos do álbum que mudou o hip-hop

Dois acordes se revezam no piano quando a voz de Lauryn Hill começa a versar sem batida em "Doo Wop (That Thing)". O rap se encaixa na harmonia das backing vocals antes da entrada dos metais e dos beats. O single de estreia da carreira solo de Ms. Hill, como costuma ser chamada, foi também a faixa principal de um álbum que completou, essa semana, 20 anos. Duas décadas após o lançamento de "The Miseducation of Lauryn Hill", ele ainda é lembrado como um marco no hip-hop e no R&B americano, principalmente pela forma como abriu portas para as mulheres em um meio historicamente machista e sem espaço para MCs femininas.

"Miseducation" foi o filho quase único de uma mãe que cuidou de cada passo da sua produção. Depois dele, Lauryn gravaria apenas mais um álbum, um acústico para MTV. Em seu primeiro projeto solo depois do Fugees — trio que a alavancou para o sucesso depois do filme “Mudança de Hábito 2” — Lauryn compôs e produziu sozinha todas as faixas. Apesar de meses após o lançamento a cantora ter enfrentado o banco dos réus em um processo movido pelo coletivo New Ark, formado por quatro artistas que afirmaram ter sido peças fundamentais na elaboração do álbum, nada tira de “Miseducation” sua importância na música americana.

A capa do emblemático 'The Miseducation of Lauryn Hill' / Reprodução
A capa do emblemático 'The Miseducation of Lauryn Hill' / Reprodução

“Havia a ideia de que uma mulher só teria sucesso no hip-hop se estivesse em um grupo também composto por homens. Lauryn excedeu todos esses limites e fez o álbum da forma que ela quis, não como a mulher do Fugees, mas como Lauryn Hill. Artisticamente, a ‘permissão’ que ela deu para as artistas que vieram depois dela é muito significativa. (Quando ela lançou o ‘Miseducation’) o que se viu foi uma mulher firme em seus preceitos, que construiu um trabalho que mostrava exatamente do que ela era capaz enquanto MC”, reflete Joan Morgan, jornalista e autora do recém lançado “She Begat This: 20 Years of the Miseducation of Lauryn Hill”, sem previsão de chegar ao Brasil, em entrevista ao Reverb.

Não foi tanto um álbum de empoderamento como foi um momento de intensa empatia. Era como se as pessoas sentissem que alguém finalmente estava cantando a música delas.

Outro ponto de destaque do projeto de Lauryn é a versatilidade que a então jovem de 23 anos trouxe para o universo do hip-hop. Ao formular sua “deseducação”, ela passeia pela musicalidade de suas raízes ancestrais, desde o soul, passando pelo hip-hop, com projeções da estética do reggae. “Quando eu escrevo sobre ela no livro, eu digo que ela foi uma intervenção visual e cultural tanto quanto foi musical”, observa Joan.

Ao unir referências para criar sua música em “Miseducation”, Lauryn assume uma persona de cidadã global. Há em seu trabalho inspirações estéticas e sonoras que remetem a paisagens da diáspora negra e por diferentes décadas da música. “Eu acho que nós não vimos ninguém fazer algo do tipo”, diz Joan. A jornalista destaca que a versão dos Fugees para “Killing Me Softly with His Song”, com Lauryn nos vocais, já era um sinal da ousadia da cantora na produção de sua arte. “É algo muito arriscado tentar cantar Roberta Flack. Se você faz isso de uma forma errada isso pode acabar com a sua carreira. Mas ela fez isso e foi bem sucedida e trouxe Roberta Flack para toda uma nova geração”, fala Joan, se referindo à versão mais famosa da música.

Ms. Lauryn Hill passou uma década sem conversar muito com a imprensa. Entretanto, na última terça-feira, a cantora escreveu um longo texto no Medium para rebater acusações feitas pelo músico Robert Glasper de que ela teria roubado material para o álbum de 1998. O pianista também acusou Lauryn de maltratar os músicos de sua banda de apoio. Na carta aberta, Lauryn rebateu as acusações de Robert e deixou bem claro que entende o lugar que “Miseducation” ocupa na música.

“Me mostre um artista trabalhando agora que não tenha sido diretamente influenciado pelo que eu fiz, e eu vou te mostrar um artista que foi influenciado por um artista que foi diretamente influenciado pelo trabalho que eu fiz. Eu era e continuo a ser alguém que abre portas, mesmo que os cegos não o vejam, e os orgulhosos sejam orgulhosos demais para admitir isso. Eu vivi isso, você assistiu e ouviu falar sobre isso”, escreveu.

Em 1999, “Miseducation” foi contemplado com o prêmio de Álbum do Ano no Grammy. Além da categoria principal, ele recebeu outras nove indicações, vencendo mais quatro. O feito fez Lauryn entrar para a história da música como a primeira mulher a vencer cinco prêmios em uma noite do prêmio. Ele é considerado até hoje como um dos melhores do hip-hop. Nomes como Beyoncé e Janelle Monáe costumam citar L. Boogie como inspiração na vida artística.

Um vídeo de 2016 mostrando o encontro de Nicki Minaj com Lauryn nos bastidores de um evento mostra a admiração da rapper de Trinidad & Tobago ao conhecer Hill. Embora Joan não enxergue no disco um bastião de empoderamento, ela observa que Lauryn deixou em seu trabalho solo de estreia a marca da representatividade das mulheres negras.

“Não foi tanto um álbum de empoderamento como foi um momento de intensa empatia. Era como se as pessoas sentissem que alguém finalmente estava cantando a música delas, alguém estava finalmente falando as verdades de quem tem um coração partido, alguém finalmente estava falando o que eu não conseguia falar e essa pessoa se parecia com a gente e soava como a gente. Eu acho que aquilo foi empoderador, mas não é um álbum sobre a força feminina”, reflete.

Canais de Marcas

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest