Miss Suéter: banda formada à distância durante a quarentena grava e lança EP mesmo sem dois integrantes se conhecerem
Inspiração

Miss Suéter: banda formada à distância durante a quarentena grava e lança EP mesmo sem dois integrantes se conhecerem

“Fascínio tenho eu/ Por falsas louras/ (aí, a negra lingerie)/ Com sardas/ Sobrancelha feita a lápis/ E perfume da Coty.” Os versos cheios de ironia de Aldir Blanc (1946-2020) na parceria com João Bosco inspiraram três jovens amigos do interior de São Paulo a formar uma banda durante a quarentena. Rafael Durão (25) foi quem teve a ideia de chamar o grupo de Miss Suéter. Mateus Albuquerque (20) e Aline Coelho (21) gostaram do tom de deboche da música e os três deram início ao grupo idealizado durante o isolamento social, que gravou, produziu e lançou seu primeiro EP, “Modos de Viver Sustentáveis”, totalmente à distância. E mais: sem dois de seus integrantes se conhecerem.

Rafael e Aline nunca se viram pessoalmente, algo que pretendem mudar logo tão logo seja prudente. Ela, que estuda Terapia Ocupacional na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Mateus são amigos de escola. Ele, professor de música, e Mateus se conheceram durante o curso de Licenciatura em Música da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp). Desde a adolescência, Mateus e Aline tinham um projeto de gravar e publicar covers nas redes sociais, o We Want Pizza. O nome inusitado era uma brincadeira com a disposição sempre presente em Mateus quando o assunto é comida.

Mateus, Rafael e Aline: produção e gravação do EP aconteceu à distância / Foto: Divulgação
Mateus, Rafael e Aline: produção e gravação do EP aconteceu à distância / Foto: Divulgação

“Depois que a gente saiu da escola, era sempre muito difícil para a gente fazer as coisas juntos. A gente até tentou ressuscitar o projeto, mas não conseguimos. Mas durante a quarentena ela me mandou uma música, a “Notas de Quarentena”, e eu falei que a gente precisava produzir porque era muito boa. Gravamos e editamos tudo. Eu mostrei para o Rafa para pedir ajuda e ele adorou”, conta Mateus, que mora com os pais, em Osasco (SP). Foi quando ele e Aline decidiram formar um trio.

“No começo foi muito difícil para mim porque eu estudo em uma faculdade em regime integral, então eu nunca ficava de fato em casa, parada. Quando parou, foi um choque muito grande. O meu namorado é de Campinas também e eu já estava há um tempo sem vê-lo. Juntei tudo e eu achei que precisava escrever algo para colocar para fora sobre como eu estava me sentindo”, conta Aline, que tem passado o isolamento na casa da mãe, em Mairinque, no interior de São Paulo.

Modos Sustentáveis de Viver” foi gravado pelo celular e com a ajuda das famílias dos integrantes. As vozes de Rafa, Mateus e Aline aparecem no EP, que tem três faixas. Mateus se encarrega dos sintetizadores e do violino, instrumento que toca profissionalmente. Thiago, seu irmão, empresta um pouco do talento que tem no violoncelo. A capa do disco também conta com o apoio familiar: Isabela Durão, designer e irmã de Rafa, é que assina a arte. As linhas de baixo e bateria foram gravadas pelo mais velho entre os integrantes.

O EP veio da vontade de manifestar acolhimento e expor sentimentos aflorados por conta do isolamento. Aline explica que o começo da quarentena a fez sentir como se houvesse um peso muito grande sobre os ombros das pessoas. “A gente queria trazer alguma coisa que ajudasse as pessoas a terem uma forma melhor de viver para conseguir lidar com toda essa questão emocional e externa.” À distância, eles gravaram as imagens do clipe de “Seu Moletom”.

O som da Miss Suéter é classificado por eles como EMOPB: uma mistura do emo com MPB. A junção vem de gostos bastante ecléticos do grupo: Rafa é fã de Milton Nascimento, Bon Iver e Panic! At The Disco; Mateus tem formação em música erudita, mas é apaixonado pelos Beatles, Gal Costa, Novos Baianos e pelo “pop clichê” de Lady Gaga, mesma linha de Aline, que teve em Taylor Swift seu primeiro ídolo, mas é fascinada no rock de O Terno, Selvagens À Procura de Lei e Vanguart, sem falar da banda favorita, a indie Of Monsters And Men.

“A gente opinava nas letras, nas músicas de maneiras diferentes. Quando eu mandava uma (música) guia, já rolava uma conversa de como cada um imaginava a música”, explica Rafael, compositor de duas faixas que se inspira muito em Sérgio Sampaio (1947-1994) quando compõe. Ele tem passado a quarentena com a namorada na casa dos pais, em Itatiba (SP). “Lembro que quando eu mandei a guia de ‘Saudades De Umas Coisas Nada A Ver’, o Mateus já de cara falou que via um piano anos 1980. Então a gente acaba se complementando com ideias. Cada um pensa na música de uma maneira diferente e a gente tenta chegar no meio termo”, diz.

Os sentimentos explorados no EP despertaram identificação entre pessoas próximas e desconhecidos. Muitos deles manifestaram saudade de amores e até de pequenas liberdades do cotidiano normal que não são possíveis de serem tidas agora. Rafa sente saudade de tomar uma cerveja no boteco. Mateus lamenta não ter conhecido o filho de uma amiga, nascido durante a quarentena, assim como Aline, que ainda sente falta de andar de bicicleta e até das aulas de anatomia da faculdade. “Eu nunca pensei que diria isso”, ri. “Mas a gente sabe que estamos em uma posição de privilégio porque podemos ficar em quarentena. A realidade é muito complexa e diferente para cada um”, conclui Rafa.

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