Mulheres no pagode: aos 24 anos, Andressa Hayalla abre espaço para cantoras no gênero
Entretenimento

Mulheres no pagode: aos 24 anos, Andressa Hayalla abre espaço para cantoras no gênero

0

Publicidade

Não fosse pelo quintal da casa de Tia Ciata na Praça Onze, bairro conhecido no final do século XIX como Pequena África, o samba não teria nascido no Brasil. Reduto de grandes compositores, o espaço que reunia música, fé e resistência, foi palco para a composição que é considerada a primeira do gênero — “Pelo Telefone”, assinada por Donga. Mais de cem anos depois, Clementina de Jesus se tornou referência ao sintetizar a cultura negra no samba. Dois exemplos que revolucionaram a música brasileira e abriram espaço para tantas outras, a exemplo de Clara Nunes, Dona Ivone Lara e Teresa Cristina. Mais recentemente, as mulheres fizeram seus nomes em outros tantos nichos musicais, como o pop, o funk e até mesmo a febre do sertanejo. Mas e o pagode? Segue dominado pelos homens?

PAGODE: Thiaguinho indica Atitude 67

LEIA TAMBÉM: Samba Que Elas Querem: roda formada só por mulheres conquista público no Rio

Participante que se destacou na edição de 2018 do programa The Voice Brasil, Andressa Hayalla quer provar que não. E está conseguindo. Depois de ter seu talento reconhecido por produtores e grandes artistas, a jovem natural de Belford Roxo decidiu investir na carreira independente e acaba de lançar sua primeira música de trabalho. Com uma pegada soul e marcada pelo clima de empoderamento feminino, “Eu Também Sei Fazer” reúne os ingredientes essenciais para todo bom pagode: uma boa história de amor que é marcada por aquela dose certeira de sofrimento: “Não tô na vibe de perder tempo com besteiras / Então depende só de você”, ela deixa claro, logo no começo da canção.

A minha tia sempre foi minha maior influência e quem me ensinou que isso poderia ser mesmo uma profissão

O pagode sempre fez parte da vida de Andressa, que desde criança ouvia artistas como Rodriguinho, Fundo de Quintal e Péricles na companhia da mãe, a cabeleireira Andrea Teresa, filha de um ex-mestre-sala da Mangueira. O rádio em casa alternava entre canções gospel (o citado avô hoje é um pastor) e o que é convencionalmente chamado de música secular — aquelas sem nenhum cunho religioso. Inclusive, foi a partir dos cantos dos cultos evangélicos que Andressa descobriu a sua vocação. Aos 12 anos, começou a cantar com a tia Jura Voz, uma grande intérprete no meio. “Venho de uma família muito ligada ao meio musical e fui apresentada desde cedo a grandes nomes, mas a minha tia sempre foi minha maior influência e quem me ensinou que isso poderia ser mesmo uma profissão”, lembra saudosa.

Não à toa, quando Jura Voz sofreu um infarto e morreu de forma repentina no início do ano passado, a jovem questionou se esse realmente seria seu caminho. Na época, Andressa havia se mudado para Brasília, onde cursou Gestão Empresarial e se formou na área de Recursos Humanos. Foi gerente de uma academia de ginásticas e trabalhou em uma casa de festas, onde foi descoberta como cantora durante um evento e passou a integrar também a equipe de uma empresa de cerimonial. Por incentivo de pessoas ao seu redor, chegou a se inscrever três vezes no reality show — a segunda, em 2016, na companhia da tia em todas as etapas.

Andressa Hayalla mostra que o pagode não precisa ser um gênero musical dominado por homens. / Foto: Divulgação
Andressa Hayalla mostra que o pagode não precisa ser um gênero musical dominado por homens. / Foto: Divulgação

Quando o resultado da última inscrição, enviada para a Rede Globo em dezembro de 2017, retornou positivo cerca de três meses após o triste episódio familiar, a jovem cogitou encerrar a carreira antes mesmo de começar. “Depois de sua morte, fiquei revoltada com a música e decidida a nunca mais cantar. Quando li o e-mail de aprovação do programa, eu me questionei mil vezes; era muito difícil aceitar ir para o programa, ainda mais sozinha”, desabafa. Com o apoio da família, optou por não deixar passar a oportunidade, porém sem grandes pretensões: “Pensei: não tenho mais nada a perder”.

Inversamente proporcional às suas expectativas, foi a resposta dos jurados da sétima temporada do programa. Na etapa de audições às cegas, todas as quatro cadeiras viraram para ver de quem era aquela voz potente que interpretava “Paciência”, sucesso do cantor Ferrugem. Uma curiosidade: o casaco escolhido pela figurinista para ser usado naquela noite era idêntico a um que pertenceu anos ao guarda-roupa de Jura. Sentido-se abençoada pela tia, Andressa integrou o time de Ivete Sangalo e logo foi “roubada” por Michel Teló. Ainda que não tenha sido uma das finalistas, sua participação rendeu muitos elogios e belos frutos. Em vídeo gravado no Instagram, a própria Ivete rasgou-se em elogios após apresentarem juntas “Quando a Chuva Passar” no festival Canta Niterói, ano passado: “Andressa teve uma interpretação muito particular, para uma música que é muito difícil. Ela tem uma voz magnífica e merece muito sucesso”, disse. 

Foi pela TV que o compositor Edgar do Cavaco, que já trabalhou com nomes como Belo, Dilsinho e Pixote, também conheceu Andressa e decidiu propor uma parceria para a cantora. “Estamos sempre acompanhando o que há de novo na música e quando vimos uma menina cantando pagode, achamos incrível e pensamos que era uma pena não existirem muitas mulheres fazendo esse som. Foi quando decidimos investir nisso”, conta Edgar. Junto com o produtor Douglas Lacerda, ele celebra as boas críticas à canção de estreia e prepara o lançamento de “Papel de Carta” para o segundo semestre e um álbum para 2020.

Ainda que seja uma das poucas representantes femininas no pagode hoje, Andressa conta que vem tendo uma boa receptividade no meio. Ferrugem também convidou a cantora para dividir o palco e, logo antes da apresentação, gritou para a plateia: “É uma paz saber que temos uma representante do gênero tão competente para seguir carreira e, sem dúvida alguma, o Brasil já está esperando por essa voz maravilhosa”. Para Andressa, que decidiu traçar esse caminho mesmo com a possibilidade de adversidades, este é mais um passo para as mulheres seguirem conquistando seus próprios espaços. “Temos os mesmos direitos e podemos fazer as mesmas coisas que os homens. Não podemos deixar o medo de não sermos aceitas nos paralisar. A vida é feita de desafios e estamos aqui para passar por cima de todos eles”, conclui. Um exemplo digno do Tia Ciata e Clementina de Jesus a ser seguido por outras meninas. 

Publicidade

Background

Relacionados

Canais Especiais