Músicas favoritas para o leito de morte e os funerais: palestra em museu londrino discute o tema
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Músicas favoritas para o leito de morte e os funerais: palestra em museu londrino discute o tema

A música está presente por toda a vida de uma pessoa. Tem mãe que faz playlist para tocar na hora de dar à luz, tem o repertório das festas de aniversário e as canções que marcam tantos momentos importantes. Mas quando se morre, o que se quer ouvir? Por que ninguém tem coragem de escolher as próprias canções funerárias?

Na quarta-feira (29/1), dentro do evento "Medicine Lates" no Science Museum, em Londres, uma palestra chamada "What's Your #MyLastSong?" vai tentar responder essas perguntas desconcertantes. Organizada pela Marie Curie, instituição que apoia doentes terminais e seus familiares, a palestra dará oportunidade para que os participantes escolham suas últimas músicas finais online através da hashtag #MyLastSong. Elas serão tocadas em uma jukebox vintage no palco enquanto o consultor em medicina paliativa Mark Taubert e o DJ Gideon Coe debatem o assunto.

O DJ Gideon Coe participa da palestra "What's Your #MyLastSong?" . Foto: Getty Images
O DJ Gideon Coe participa da palestra "What's Your #MyLastSong?" . Foto: Getty Images

"Falar sobre morrer é o último tabu, mas falar sobre música é diferente", diz Taubert. Ele sabe do que fala, pois além de trabalhar em hospitais e centros de tratamento de câncer em Cardiff, ele escreveu para David Bowie em janeiro de 2016 sobre uma conversa que teve com um paciente terminal. O texto viralizou, sendo retuitado pelo filho de Bowie, Duncan Jones, lido por Jarvis Cocker e Benedict Cumberbatch na celebração literária "Letters Live" e se transformou em uma composição clássica pelas mãos de John Uren. A carta falava de como o último álbum de Bowie, "Blackstar", ajudou médico e paciente "a se comunicar abertamente sobre a morte, algo muito difícil para médicos e enfermeiros incluirem numa conversa".

A música tocada em um hospital ou hospício ou em casa também pode ser um grande conforto, diz ele, pois a audição é frequentemente preservada à medida que outras faculdades se deterioram. "Os olhos dos pacientes costumam estar fechados, então sentidos como a audição significam muito mais. A música ainda altera as neurotransmissões no cérebro e atua nos níveis de dopamina e serotonina, como medicamentos antipsicóticos ou antidepressivos podem com muitos pacientes”, afirma Taubert.

Música e memória também estão intimamente ligadas à atividade cerebral, e é por isso que músicas da infância ou da adolescência são frequentemente escolhidas. "Também há uma ideia de que as salas das pessoas moram precisam ser solenes e silenciosas e os sons dos hospitais são geralmente ligados a bipes, rodas de macas e alarmes. A música pode nos tirar disso, nos levar para outro lugar”, diz o médico.

Coe também sabe o poder que a música pode ter. Ele se envolveu no projeto #MyLast? porque seu irmão trabalha na Marie Curie. Uma experiência com um parente ano passado também trouxe o assunto para casa. "Ele estava gravemente doente, e lemos livros para ele, conversamos, mas em nenhum momento pensamos: 'Vamos tocar algumas músicas'. E é claro que deveríamos ter feito isso. Felizmente, ele se recuperou, então agora podemos perguntar o que ele quer, em vez de evitar essa conversa", conta o DJ.

A hesitação em abordar a morte com parentes é comum. No entanto, a pesquisa Marie Curie mostrou que 82% das pessoas se sentiriam à vontade para falar sobre seus próprios desejos no fim de vida. Apenas 36% dos pesquisados tiveram conversas e apenas 25% fizeram planos. A campanha "Talkabout" da instituição espera ajudar a resolver essa disparidade.

A música funerária também será explorada no evento. Coe tem se divertido ao pesquisar opções de cremações, como "Disco Inferno" dos Trammps e "Highway to Hell" do AC/DC. Essa semana, "Good Grief", do Bastille, e "When the Party's Over", de Billie Eilish, ficaram entre as cinco primeiros na lista de escolhas dos millennials pelo site de seguros de vida Reassured, enquanto "Wind Beneath My Wings", de Bette Midler, e "Angels", de Robbie Williams, apareceram como preferidas numa pesquisa da Co-op Funeralcare, maior grupo funerário do Reino Unido.

Coe implica com algumas das músicas que as pessoas escolhem. “Sofro por ser superanalítico. Ouça 'My Way' (nº 1 da Funeralcare no último verão): ela não fala de você! É uma música sobre Frank Sinatra por Paul Anka. Mas uma escolha feita por ego em um funeral provavelmente é justificada”, brinca o DJ, que disse que talvez escolha algo instrumental para tocar em seu funeral. "'Closing Time', de Tom Waits, talvez. Ou algum dub pesado para combinar com a acústica do edifício”, diz.

As últimas músicas de Taubert também são surpreendentes. Ele pensou no álbum "Light Is Leaving Us All", do Current 93, em "momentos mais tristes do Joy Division e "Soul Kitchen" do Doors, que amava quando adolescente. "Também é importante não pensar em uma única música para tocar mas em várias porque, afinal, prever o momento exato da morte é muito difícil", diz ele. "O mais importante é lembrar que nossas respostas à música não mudam muito. Ela ainda chega até nós em nossos últimos momentos, o que nos lembra que somos humanos", diz o médico.

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