Músico italiano resgata composições feitas por prisioneiros em campos de concentração na Segunda Guerra
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Músico italiano resgata composições feitas por prisioneiros em campos de concentração na Segunda Guerra

A placa acima dos portões de aço de Auschwitz diz "Arbeit macht frei" — "o trabalho liberta", em tradução livre. Era, é claro, uma uma farsa do mal. Mas havia uma fonte de fuga temporária surpreendente dentro dos portões: a música. Compositores, cantores e músicos, profissionais e amadores, estavam entre os presos e, o que ainda pouco se sabe é que, nas mais sombrias condições imagináveis, eles tocaram e escreveram música.

Graças ao extraordinário trabalho do italiano Francesco Lotoro, boa parte dessa música vinda dos campos de concentração vem sendo recuperada. São três décadas de trabalho em que o compositor e pianista descobriu, tocou e — em alguns casos — finalizou obras compostas em cativeiro. Quase 75 anos após a libertação dos campos, Lotoro abraçou essa missão de resgate notável. "O milagre é que tudo isso poderia ter sido destruído, perdido. Mas a música é um fenômeno que vence", comemora Loreto, em entrevista ao programa "60 Minutes", da CBS.

O italiano Francesco Loroto quer construir um centro de referância para reunir todo o material coletado há mais de 30 anos. Divulgação
O italiano Francesco Loroto quer construir um centro de referância para reunir todo o material coletado há mais de 30 anos. Divulgação

Parece improvável, e até impossível, que qualquer tipo de música possa ter sido tocada e composta em um lugar onde aconteceu o assassinato em massa mais terrível da história da humanidade. Em Auschwitz-Birkenau, complexo de campos de concentração nazistas no sul da Polônia, foram mortos mais de um milhão de homens, mulheres e crianças. Os sons do campo incluíam o estrondo dos freios do trem, os gritos assustadores das famílias separadas e as ordens dos guardas da SS (sigla para "Schutzstaffel", organização paramilitar do partido nazista). Mas também havia o som da música. Uma peça intitulada "Fantasia" para oboé e cordas foi composta por um prisioneiro em 1942.

Em Auschwitz e outros campos, havia orquestras reclusas, montadas para diversão dos nazistas. Havia também música não oficial elaborada em segredo, uma maneira de preservar um resquício de dignidade. Durante o Holocausto, toda uma geração de músicos, compositores e virtuosos talentosos pereceu. "Em alguns casos, estamos diante de obras-primas que poderiam ter mudado o caminho da linguagem musical na Europa se elas tivessem sido escritas em um mundo livre", lamenta Francesco, que já teve seu trabalho registrado no documentário "O Maestro, em Busca da Última Música", de 2016.

O trabalho de Lotoro é à moda antiga, batendo nas portas e fazendo reuniões com os sobreviventes e seus parentes. "Há crianças que herdaram arquivos em papel dos pais e os armazenaram em sótãos. Quando encontrei, estavam infestados de traças. Então tem também esse trabalho de limpeza e desinfestação", exemplifica.

A sua casa em Barletta, no sul da Itália, está cheia de fitas, cassetes de áudio, diários e microfilmes. Ajudado pela mulher Grazia, Lotoro coletou e catalogou mais de oito mil peças de música, incluindo sinfonias, óperas, canções folclóricas e músicas ciganas rabiscadas em tudo, desde embalagens de alimentos a telegramas até sacos de batata. Um dos prisioneiros escreveu uma sinfonia inteira usando o carvão dado a ele como remédio para disenteria e papel higiênico.

Loreto vai de porta em porta de sobreviventes e parentes em busca de originais feitos nos campos de concentração. Divulgação
Loreto vai de porta em porta de sobreviventes e parentes em busca de originais feitos nos campos de concentração. Divulgação

O italiano, que foi criado como católico, se converteu ao judaísmo ainda jovem. "Havia um rabino que me explicou que, quando uma pessoa se converte ao judaísmo, na realidade ela não se converte. Ele volta a ser judeu. Fazer essa pesquisa é possivelmente a coisa mais judaica que eu conheço", conta Loroto, que começou a pesquisa em 1988, quando soube da música criada por prisioneiros no campo de Theresienstadt. Os nazistas haviam montado o campo para encenar que eles estariam tratando os judeus humanamente, por isso era permitido aos presos criar e fazer apresentações, algumas das quais estão em filmes de propaganda nazista. Lotoro ficou impressionado com o nível musical e se perguntou o que mais poderia haver por aí.

Uma das últimas sobreviventes da orquestra feminina de Auschwitz, Anita Lasker-Wallfisch havia perdido os pais e tinha apenas 18 anos quando chegou ao campo. "Uma prisioneira me perguntou o que eu fazia antes da guerra e eu respondi que costumava tocar violoncelo. Ela disse: 'Isso é fantástico, você será salva'. Eu não tinha ideia do que ela estava falando", conta Anita, 94 anos.

Anita Lasker-Wallfisch tocou na orquestra feminina em Auschwitz, . Crédito: Getty Images
Anita Lasker-Wallfisch tocou na orquestra feminina em Auschwitz, . Crédito: Getty Images

Anita acabou entrando para a orquestra liderada por Alma Rosé, sobrinha do compositor vienense Gustav Mahler. Anita diz que a maestrina, também uma prisioneira, tinha uma disciplina de ferro, um recurso para desviar a atenção da profunda desgraça do campo. "Lembro que tínhamos até medo dela. Mas seu comportamento era justificável: sabia bem que, se não conseguisse fazer uma orquestra razoável lá, não sobreviveríamos", analisa ela.

Ana ficava com os outros integrantes no Bloco 12 de Birkenau, conhecido como Bloco de Música. "Era muito perto dos crematórios e podíamos ver tudo o que estava acontecendo", diz ela da situação onde às vezes a fumaça era tão espessa que os músicos nem conseguiam ver as notas na frente deles. "O ponto de conexão da vida e da morte é a música. A vida desapareceu. Nós temos apenas música. Para mim, a música é a vida que permaneceu", diz Loreto.

A principal função das orquestras do campo era tocar marchas todos os dias no portão principal, uma forma de definir o ritmo do trabalho e contar os presos. As orquestras também tocavam quando os recém-chegados desembarcavam dos trens para dar uma sensação de normalidade, além de fazer concertos aos domingos para prisioneiros e oficiais da SS.

Em seu trabalho de detetive e arqueólogo, Loreto chegou a Nuremberg, na Alemanha, e conheceu Waldemar Kropinski, filho de Jozef Kropinski, talvez o compositor mais prolífico e versátil dos campos. "Eu pensei que era algo que não interessava a ninguém porque meu pai já estava morto e nenhuma obra dele havia sido executada", conta. Jozef tinha 26 anos quando foi enviado para Auschwitz, onde se tornou o primeiro violinista da orquestra masculina e começou a compor secretamente, chegando a centenas de tangos, valsas, canções de amor e até uma ópera durante quatro anos de prisão. Ele compôs à noite, à luz de velas, em uma pequena sala que os nazistas chamavam de laboratório de patologia, onde durante o dia os corpos eram desmembrados.

Em abril de 1945, quando o campo foi evacuado e os presos foram forçados a marchar, Kropinski conseguiu contrabandear seu violino e centenas de músicas, algumas escondidas no estojo e outras em um bolso secreto do casaco, mas apenas 117 sobreviveram hoje. Na marcha, ele tocou fogo no resto dos papéis para poder aquecer os companheiros.

Os prisioneiros escreviam escondidos e tocavam para os companheiros e oficiais da SS. Divulgação
Os prisioneiros escreviam escondidos e tocavam para os companheiros e oficiais da SS. Divulgação

Cracóvia, uma das cidades mais antigas do sul da Polônia, Loroto encontrou Christoph Kulisiewicz, filho de Aleksander Kulisiewicz, preso pela Gestapo e deportado para o campo de Sachsenhausen em 1939. nos mais de cinco anos de prisão, ele se tornou uma espécie de "trovador do campo", ajudando os internos a lidar com a fome e o desespero. Mas compôs, cantou e memorizou centenas de músicas de outros prisioneiros, que ele ditou a uma enfermeira após a guerra, para que pudessem ser gravadas. "Ele sempre dizia: 'Estou vivendo por aqueles que morreram. Eles não podem cantar, não podem falar, mas eu posso'", conta o filho.

Até o momento, Lotoro organizou e gravou 400 obras compostas nos campos e e vem apresentando algumas em concertos comemorativos do 75º aniversário da libertação dos campos, como os que fez em Toronto, Jerusalém e São Paulo em novembro. "O que aconteceu nos campos é mais do que um fenômeno artístico. Temos que pensar nessa música como um último testamento", define ele, que está construindo em sua cidade a “Cittadella Della Musica Concentracionalle”, que vai abrigar abrigar uma biblioteca, um museu, um teatro e um museu com mais de 10 mil itens coletados.

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