Na BR-3: boa safra de álbuns novos e... como Nelson Gonçalves atrasou a febre do rock no Brasil
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Na BR-3: boa safra de álbuns novos e... como Nelson Gonçalves atrasou a febre do rock no Brasil

Cristiano Bastos, sobre quem você leu aqui na semana passada (é dele o documentário Nas Paredes da Pedra Encantada, disponível na íntegra no post), está prestes a lançar "Nelson Gonçalves: O Rei da Boemia" (320 páginas, Plus Editora), dez anos de pesquisa para celebrar os cem anos de nascimento do cantor. Por mais dilatado que seja o entendimento deste espaço sobre as definições de “rock”, seria preciso muito malabarismo para encaixar Nelson Gonçalves dentro dele.

De fato, há um pouco de contato explícito na discografia do rei da voz: em 1997, época em que toda a indústria do disco brasileira parecia unida na missão de destruir qualquer dignidade no ofício da música, inventaram que seria uma boa ideia que Nelson gravasse um disco de boleros dó-de-peito apenas com o repertório das bandas de rock dos anos 1980. O disco se chama "Ainda é Cedo" e acabou sendo o último lançamento do cantor, que morreu sete meses depois. Você pode ouvir a faixa-título clicando abaixo por sua conta e risco:

Um trecho do livro gentilmente enviado à coluna pelo autor, entretanto, conta de outro entroncamento entre a vida de Nelson Gonçalves e o rock’n’roll logo em 1956. O subcapítulo se chama “Metralha Derruba o Rock” e o título faz referência ao apelido de Nelson, “Metralha” e ao fato de o cantor ter sido lutador de boxe profissional. “Metralha”, por sua vez, era uma referência à famosa gagueira do artista, que sumia assim que ele começava a cantar. Cristiano diz que “outra façanha, típica de Nelson Gonçalves, que poucos sabem, foi ter sido o responsável por atrasar a chegada fonográfica do rock ao Brasil”.

"O rock consolidava-se no mercado discográfico mundial no enlouquecido ritmo da juventude. No Brasil, porém, ainda teve de esperar um pouquinho mais. O motivo foi a explosão do compacto de “A Volta Do Boêmio”, que começou a vender sem parar. A gravadora RCA julgava o samba-canção em baixa, mas a música de Adelino Moreira, além de tudo, acabou tornando-se também recorde de vendas de discos, até então, no Brasil, com suas mais de 1 milhão de cópias. Algo nunca visto. O resultado foi que a música ajudou a retardar no país, em alguns meses, a invasão das guitarras pelas ondas radiofônicas, embora Elvis Presley também fosse artista do cast da RCA.

O inesperado “hit” de Nelson roubou a cena. Como solução, a filial da RCA brasileira, que, a exemplo das outras gravadoras, havia se paramentado para investir no novo ritmo – a “coqueluche do momento” – precisou mandar parar as prensas a fim de conseguir atender aos pedidos de lojistas do Brasil inteiro. E, engrossando mais o caldo para o lado dos roqueiros, Nelson, ainda engata na sequência o LP "O Tango na Voz de Nelson Gonçalves", um de seus maiores êxitos em disco."

Ou seja: em plena febre causada pelos filmes de rock’n’roll como "Sementes da Violência" e "Ao Balanço das Horas", o adolescente brasileiro teve de retardar alguns meses até poder comprar um exemplar nacional dos discos do maior ícone do rock inicial, Elvis Presley. Tudo por causa de Nelson Gonçalves.

O livro está na gráfica e deve chegar às livrarias ainda em novembro. Mais informações na página da editora. https://www.facebook.com/Plus-Editora-1146357845512919/

Quatro álbuns


BRUNO SOUTO – VALSA

Para comemorar os 15 anos de carreira, Bruno Souto gravou um álbum retrospectivo. Com seis músicas de seus tempos de Volver, duas regravações de cada um de seus álbuns solo e duas inéditas. O disco reafirma Bruno como um dos maiores melodistas do atual rock brasileiro, mas desvia a rota sugerida no álbum anterior, Forte, para ancorar as músicas em arranjos mais simples e básicos, num álbum recomendado tanto para fãs de power-pop como para quem gosta do Roberto Carlos da virada dos anos 60 para os 1970.

TEAGO OLIVEIRA – BOA SORTE

Com seu Maglore estabelecido para além do circuito indie e firmado como compositor tendo sido gravado por Gal Costa e Erasmo Carlos, seria de supor que Teago Oliveira, em seu primeiro trabalho solo, fosse abraçar a MPB-molinha ou o cabecismo. Mas Teago se mostra mais esperto, publicando um álbum cujo coração é ambíguo em relação às brasilidades de free-shop (“Longe da Bahia” ou “Azul, Amarelo”), que vai do samba-rock ao pop barroco com tanta leveza que parece querer flutuar a qualquer momento.

JAIR NAVES – RENTE

Embora publicado há cinco meses, Rente vem desenhando uma carreira interessante, em parte porque Naves está morando em Los Angeles e as oportunidades de divulgação no Brasil têm sido episódicas e cercadas de interesse. De certa forma, Rente oferece as tramas de guitarras, os climas catárticos e as harmonias sufocantes que se esperam dele. Mas as letras existencialistas, dessa vez, têm um subtexto político e social aflorado pela impotência de quem olha o Brasil de fora (não muito maior do que a dos que olhamos o Brasil de dentro).

UM GRITO QUE SE ESPALHA: TRIBUTO A WALTER FRANCO

Se você não conhece a obra e a importância de Walter Franco, falecido em 24 de outubro, pare tudo o que está fazendo para ouvir os clássicos "Ou Não" (1973), "Revolver" (1975) e "Vela Aberta" (1978). Depois confira o tributo virtual que o jornalista Leonardo Vinhas organizou em 2018, com bandas como Seamus, Gianoukas Papoulas e La Carne. Leo fez um memorial sobre Walter Franco neste link e você pode ouvir e baixar o tributo nesta outra página.

Ouça agora: Na BR-3 (Playlist de novembro)

A playlist do mês reúne 30 músicas sobre o muito que conversamos neste espaço nas últimas semanas e algumas pistas do que há de pintar em breve. Confira no link:

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