Na BR-3: Como um gaúcho obcecado por sintetizadores transformou Hieronymus Bosch em música eletrônica
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Na BR-3: Como um gaúcho obcecado por sintetizadores transformou Hieronymus Bosch em música eletrônica

Fabricio Carvalho, mais conhecido por seu codinome de “Astronauta Pinguim”, vem costurando a cena alternativa brasileira desde os anos 1990. Produzindo, compondo, tocando em sua carreira solo ou nas bandas de gente como Júpiter Maçã ou Bárbara Eugênia, Pinguim sempre foi visto, ao mesmo tempo, como um excêntrico apaixonado por sintetizadores antigos, capaz da deliciosa infâmia de reunir “clássicos” do rock gaúcho em um álbum chamado “Petiscos Sabor Churrasco” numa capa que parodia o clássico “álbum da banana” do Velvet Underground, substituindo a fruta por um abacaxi.

Adentrando nos anos 2010, entretanto, Pinguim foi se “des-tropicalizando” e mergulhando com sobriedade cada vez maior nos timbres e no universo dos teclados. Primeiro com seu blog de entrevistas com pioneiros da música eletrônica, depois visitando suas influências literárias e musicais. Agora, como que concluindo esse ciclo, Pinguim lança o álbum “Bosch”, inspirado na obra do pintor brabantino Hieronymus Bosch. O álbum tem acabamento gráfico luxuoso e mostra o gaúcho navegando com segurança por diversos departamentos da música sintetizada. Confira a entrevista abaixo com o músico:

O tríptico 'As Tentações de Santo Antão', de Bosch / Foto: Reprodução
O tríptico 'As Tentações de Santo Antão', de Bosch / Foto: Reprodução

Hieronymus Bosch é um nome bastante associado ao rock (como esquecer a capa do disco do Deep Purple de 1969?). Você se lembra qual foi o seu primeiro contato com a obra dele?
Astronauta Pinguim:
Pois então, muito provavelmente foi justo com este disco do Deep Purple. Sempre achei a primeira fase do Purple, os primeiros quatro álbuns, a mais legal. Neste disco de 1969 tem uma música chamada “April”, com uma parte orquestral muito bacana, antecipando o LP seguinte, “Concerto For Group and Orchestra”— provavelmente também meu primeiro ou um dos primeiros contatos com a possibilidade de comunhão entre uma banda de rock com orquestra… Enfim, a capa é uma reprodução de um pedaço da aba conhecida como “Inferno” (parte da obra “Jardim das Delícias Terrenas”) só que em preto e branco. Na ficha técnica, incluíram que tratava-se de uma pintura do Bosch, então acho que deve ter sido mesmo o primeiro contato de várias pessoas rock que gostam de com obras do Bosch… Depois disso fui procurar o “Inferno” inteiro, daí fiquei sabendo que se tratava de uma parte de um quadro maior, o “Jardim das Delícias Terrenas”, e que o Bosch tinha muita coisa tão legal quanto dentro da sua obra. Acabou virando meu pintor favorito.

Você conta que a ideia de um álbum e de um show (“Visões de Bosch”) surgiu em uma visita ao Jheronimus Bosch Art Center da Holanda em 2015. Como essa ideia ganhou forma?
AP:
Em setembro de 2015 eu me apresentei no Haus der Kulturen der Welt, em Berlim, dentro de um festival dedicado a Hans-Joachim Roedelius e com artistas escolhidos por ele para o evento. Quando o convite foi feito, seis meses antes, eu já passei a planejar algumas coisas específicas: que eu iria acompanhado do baterista Ramiro Pissetti, e que ele seria responsável pelas projeções nos shows; que faríamos uma apresentação utilizando retroprojetores e outras técnicas antigas na nossa apresentação; e, terceiro, que tiraríamos uns dias, aproveitando a ida para a Alemanha, para darmos um pulo na Holanda, para visitarmos o Henk Bol — um amigo querido e único convidado no meu álbum “Bosch” —; e também visitaríamos ‘s-Hertogenbosch, cidade onde o Bosch viveu e morreu, entre 1450 e 1516. Acontece que, antes mesmo dessa viagem, ainda em maio de 2015, houve um convite para me apresentar em alguns shows em bibliotecas públicas da cidade de São Paulo. Nesses shows, eu me baseei na obra do (poeta inglês) William Blake, e aproveitei para aprimorar as projeções que usaríamos na Alemanha. Este, na biblioteca, foi a primeira de uma série de concertos que eu faço e pretendo continuar fazendo, contextualizando e homenageando alguns artistas que eu admiro. De volta da turnê, e de volta do Jheronimus Bosch Art Center, comecei a planejar um concerto em homenagem ao Bosch, que teoricamente ocorreria em 2016, ano que marcou os 500 anos de sua morte. Acabou não rolando. Mas, como a ideia era boa e a intenção melhor ainda, eu e o Ramiro acabamos inscrevendo o projeto do concerto e de um CD numa lei de incentivo paulista chamada Proac. O projeto foi selecionado e eu gravei no meu estúdio, o City Lab ao longo de 2018. Esse é um estúdio que só existe quando eu estou trabalhando em algum projeto meu. Fora disso, é apenas um ajuntamento de equipamentos, sintetizadores e afins, originais das décadas de 1960, 1970 e 1980, moogs, ARPs, vocoders, pianos e órgãos elétricos, baterias eletrônicas etc.

E como foi o processo de transformar pinturas em músicas?
AP:
Cada composição começava comigo observando, admirando uma das obras de Bosch. Essa fase às vezes durava minutos, às vezes semanas, até que surgisse alguma ideia musical que estivesse ligada à obra em questão — talvez uma ligação que exista apenas na minha cabeça, enfim. As exceções são “The Garden of Earthly Delights”, que eu já havia composto, gravado e lançado no meu CD “Zeitgeist/Propaganda”, de 2011, e “A Trip To ‘s-Hertogenbosch”, que eu havia começado a gravar em 2013. Essa música conta justamente com a participação do Henk Bol de que falei há pouco. Ele participou de várias bandas legais na Holanda nos anos 1960/1970, e hoje em dia tem a banda de rock progressivo Philhelmon. E, aproveitando algumas viagens que fiz ainda em 2018 para os Estados Unidos, gravei algumas coisas nas ruas de Eugene, no Oregon, Seattle e San Francisco. Completando o disco, quando chegou na hora de masterizar, enviei para um estúdio na cidade de Woodstock, para o técnico (e agora amigo) Tod Levine realizar o serviço. Na minha cabeça e, também, talvez somente na minha cabeça, masterizar o disco em Woodstock justo no ano que se completam 50 anos do festival, seria algo significativo.

A arte de Bosch é sempre associada à fantasia, à religião, ao sonho e ao universo rural. Mas a música sintetizada é sempre associada ao rigor, ao método, à assepsia e a paisagens urbanas. Em tese, são movimentos opostos. Como foi transportar o universo de Bosch para a música eletrônica?
AP:
O tipo de música que eu faço, há alguns anos, utiliza a eletrônica e os sintetizadores como instrumentos básicos, apesar de eu utilizar também guitarra, baixo e vozes em algumas faixas. Para mim foi mais natural transportar o Bosch para dentro do meu universo do que seria, teoricamente, eu me transportar para dentro do universo dele: talvez eu tivesse que me amparar em instrumentos de cordas, sopro e percussão muito distantes do meu mundo, já que estamos falando em um universo em que ele estava inserido. Agora, observando elementos isolados das pinturas dele, como aquelas figuras meio humanas, meio bestiais, ou meio meio instrumento musical (figuras que aparecem em obras e que parecem estar “fazendo música” com o próprio bico ou focinho), entramos em algo que não temos como definir como seria o som. Neste sentido, a liberdade de criação em termos de matizes sonoras proporcionadas pelos sintetizadores, onde vários parâmetros do som são manipuláveis, podem chegar mais perto de uma sonoridade “fantástica” do que instrumentos convencionais, inclusive instrumentos convencionais da época que o Bosch (como pessoa) esteve neste planeta. Em outras palavras, a fantasia, o sonho — e inclusive as visões futuristas de algumas das obras do Bosch — foram os elementos estéticos que mais me apoiei para fazer o disco.

O que você chama de “gravações de campo” que fez nos Estados Unidos?
AP:
Eu aproveitei uma viagem que fiz aos Estados Unidos durante o processo de gravação e mixagem do CD, para gravar algumas “cenas sonoras” aleatórias. Todas tinham alguma relação com água: em Seattle, gravei o som de alguns barcos estacionados nas docas, com as ondas batendo nos cascos, também gravei algumas pessoas num parque no Waterfront (as vozes que são ouvidas no final, não faço ideia de quem sejam as pessoas). Em Eugene, gravei passos e vozes de pessoas na chuva. Em San Francisco eu gravei o som de uma “cachoeira” formada após um dia de tempestade, com uma pressão d’água tão forte que soa parecido com um gerador de ruído branco, bastante utilizado na música eletrônica. Os sons foram parar quase por acaso na faixa “The Extraction Of The Stone Of Madness” que, originalmente, seria somente a frase que eu gravei usando o vocoder, recitando justamente a frase escrita no quadro de mesmo nome do Bosch. Joguei as gravações que fiz aleatoriamente no programa de computador, daí fui descartando o que eu achava que não acrescentava em nada.

Não há muitas certezas a respeito da biografia de Bosch, nem ao menos se ele pintou seus quadros como advertência contra o pecado ou como um enfrentamento da moral religiosa. Qual o seu palpite a respeito da mensagem que Bosch quis transmitir com seus quadros?
AP:
Meu palpite é uma advertência ao pecado, como fizeram vários outros artistas ao longo da história, principalmente naquele período. Das poucas coisas que se sabe sobre ele, uma delas é que ele era membro de entidades religiosas importantes. E admirado por reis, tanto na época que pintou seus quadros quanto nos anos seguintes, numa época que reis e religião significavam, se não a mesma coisa, coisas que andavam sempre muito próximas. Então enfrentamento à moral religiosa, não acho que haja, não pelo menos como elemento principal. Apesar de em obras como o “Inferno”, parte do “Jardim das Delícias Terrenas”, e as “Tentações de Santo Antônio”, terem uma série de figuras demoníacas (na verdade o mais legal da obra dele), estão ali por uma espécie de punição ou punindo “pecadores”, o que corrobora com a parte que diz respeito à advertência contra o pecado. E, corroborando com o não enfrentamento à moral religiosa, vários outros quadros de Bosch retratam santos diversos, o Cristo crucificado, cenas que, apesar de contarem com as figuras grotescas características do Bosch (algumas mais outras menos), ainda assim são cenas bastante ligadas à vida religiosa. Dito isso, o que eu acho talvez acima de tudo, é que na cabeça do Bosch nasceram algumas das criaturas mais fantásticas já pensadas pelo ser humano. Era um visionário, talvez literalmente falando. E, principal, colocou em tela estas visões tendo como fonte de luz apenas o sol, em poucas horas do dia, ou luz de velas, levando em conta que pela riqueza de detalhes nos quadros eu imagino que ele tenha trabalhado dia e noite por um bom período de tempo.

‘O Jardim das Delícias Terrenas’, obra de Bosch, está no Museu do Prado, em Madri / Foto: Reprodução
‘O Jardim das Delícias Terrenas’, obra de Bosch, está no Museu do Prado, em Madri / Foto: Reprodução

Você é professor na rede pública de uma cidade do interior de São Paulo e é um pesquisador da história dos equipamentos sintetizados. Sua abordagem é mais como fã ou mais como acadêmico?
AP:
Sempre brinquei dizendo que minha profissão era o hobby de outras pessoas (ser músico) e meu hobby era a profissão de outras pessoas (pesquisa). Isso em parte mudou quando resolvi assumir o cargo de professor de língua inglesa na rede municipal de Jundiaí, função que exerço desde abril de 2019. Ter esta segunda profissão, uma mais “normal”, digamos assim, e uma que não seja o hobby de ninguém, imagino, me proporcionou não exigir mais tanto da música como profissão, no sentido que posso ser mais seletivo na música ou, mais precisamente, nos projetos musicais que eu me envolvo. Já meu trabalho como pesquisador de música eletrônica, principalmente dos seus primórdios, iniciou há mais de uma década, quando percebi que alguns dos meus artistas mais queridos eram justamente pessoas na faixa dos seus 70 anos de idade, que tinham “inventado” uma nova forma de arte, a música eletrônica, e que alguns deles não tinham o devido destaque como pioneiros de algo realmente impactante para a humanidade (aqui me refiro, especificamente, ao Halim El-Dabh, ao Hans-Joachim Roedelius, ao Ramon Sender, ao Herb Deutsch, entre outros). Cheguei neles por acaso e o que eu pude dar em troca, apesar de ninguém ter me pedido nada, foi criar um blog e publicar, ao longo de quase quatro anos, entrevistas com várias destas figuras. Em alguns casos a amizade foi além e virou parceria, como o Simeon Coxe III (dos Silver Apples), que me deu a hora de participar de uma gravação minha, que lancei em compacto sete polegadas em 2013, ou o Roedelius, que assim como o Simeon e vários outros (Fred Frith, Annette Peacock, The Space Lady) eu consegui trazer ao país para concertos. Mas, direto ao ponto, minha abordagem como pesquisador é muito mais dar crédito ao trabalho (acadêmico e artístico) desses pioneiros do que uma intenção acadêmica minha. Academicamente, minha área de estudos é a língua inglesa, principalmente literatura norte-americana, e a pesquisa com música eletrônica segue como “hobby”, com a intenção de dar um pouco de holofote aos grandes mestres da música eletrônica mundial, alguns dos quais eu tenho a honra chamar de amigos!

Extra! Extra! Gabriel Thomaz convida para o Garage Xmas 2019!

Quase no apagar das luzes de 2019, o autorama Gabriel Thomaz manda avisar que haverá nova edição do festival Garage Xmas em São Paulo, “só com o melhor da garageira, surf, psicodelia, fuzz, reverb, demência, vinil e adjacências”. São três noites, começando nesta sexta (20) com uma “Welcome Party” no Bar Mandíbula (na Galeria Metrópole — Praça Dom José Gaspar, 106, Piso 2, cj 40, entrada franca), com o Mongobeat e o próprio Gabriel discotecam apenas singles sete polegadas . No sábado, começam os shows, na Associação Cecília (Rua Vitorino Cármilo, 449, R$ 20): Autoramas, The Mullet Monster Mafia, Time Bomb Girls. No domingo, tem Os Haxixins, Momento 68 (com participação de Fábio Golfetti) e Os Pontas.

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