Na BR-3: CURTAS #1: Rock in Rio em cima do palco, o Diablo no corpo da fita cassete e Playlist Oficial
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Na BR-3: CURTAS #1: Rock in Rio em cima do palco, o Diablo no corpo da fita cassete e Playlist Oficial

Por Ricardo Alexandre

Virada do mês e a coluna Na BR-3 faz uma edição com notas mais curtas, embora duas delas tratem do mesmo e inescapável assunto: Rock in Rio. Eu bati um papo com uma artista que subiu ao Palco Sunset no primeiro final de semana do festival e com outro que sobe no palco Supernova no dia 06. E, lá no final, a primeira edição da playlist oficial da coluna.

Erika Martins e Branco Mello/ Divulgação/Rock in Rio/Ariel Martini
Erika Martins e Branco Mello/ Divulgação/Rock in Rio/Ariel Martini

'Cada festival tem algo que o torna inesquecível'

Erika Martins já tocou no Rock in Rio tanto com sua antiga banda, Penélope, quanto com seu atual grupo, os Autoramas (ao lado do esposo Gabriel Thomaz) e como artista solo. Mas sua participação no primeiro fim de semana do festival 2019 foi especial, como convidada dos Titãs no Palco Sunset na noite de sábado, 21. O grupo paulista fez um show retrospectivo com espaço para homenagens a diversas gerações do rock nacional, com participação de Erika, Ana Cañas e do rapper Edi Rock. Naquela mesma semana, Erika estava lançando seu novo single solo, “A verdade liberta”, composto pelo titã Sergio Britto e gravado inteiramente em Jundiaí, cidade do interior paulista onde Erika e Gabriel vivem há três anos.

Os Autoramas já cruzaram o mundo tocando em festivais de todos os tamanhos e estilos. Você concorda que o Rock in Rio é diferente da maior parte deles? Você sabe explicar por que?

A verdade é que cada um desses festivais tem algo especial. Por exemplo, eu fiquei completamente apaixonada por um festival onde os Autoramas tocaram em abril, numa ilha, no mar ao norte da Alemanha. O acesso é superdifícil, não roda carro ali, é a Fernando de Noronha dos alemães (risos). Foi maravilhoso. Desde o barco que te leva pra lá – já tem uma banda tocando no próprio barco – até o show em si, na areia da praia, o som rolando, as pessoas dançando e as focas tentando tomar um solzinho naquele frio absurdo (risos). Foi muito especial, e rodando pelo mundo eu vejo como cada festival tem algo que o torna inesquecível. Já o Rock in Rio tem uma coisa muito especial para todos que somos brasileiros: ele mexe com nossa memória afetiva. A nossa geração cresceu com essa referência, de ter um dos maiores, talvez o maior festival do mundo, acontecendo no próprio país. É um festival que formou o estilo de muita gente. Eu me lembro de estar em casa, criança, maravilhada com as mulheres do B-52’s na tela da televisão e pensando “Um dia eu quero ser igual a essas mulheres!”. Aí de repente eu tô lá e é tudo o que eu pensava. O tratamento com o artista é especialíssimo, mesmas condições que os artistas gringos. Você sai de alma lavada.

Assistindo ao show dos Titãs com a sua participação, uma coisa que me ocorreu é que, dos três convidados, você era a que tinha uma carreira mais integrada a uma certa linha evolutiva do pop-rock brasileiro da qual os Titãs fazem parte. Como você enxerga essa tradição no Brasil, de tentar fazer música de guitarras para um público sem cultura de rock?

O palco onde eu cantei dessa vez, com os Titãs, foi o Sunset, e ele é orquestrado de forma brilhante pelo curador, o Zé Ricardo, com a ideia é juntar artistas – muitas vezes artistas que nunca se cruzaram antes, que não tenham nada obviamente em comum, que sejam de estilos diferentes. E ele consegue fazer isso brilhantemente. No show dos Titãs eram três convidados de linhas diferentes – o Edi Rock do rap, a Ana Cañas mais ligada a MPB e eu. No meu caso, realmente, acho que era o nome que mais se aproximava do que os Titãs são, porque eu tenho vinte anos de carreira e desde minha primeira música eu faço rock. Eu discordo dessa ideia de que o rock tenha morrido no Brasil. Acho que tudo é cíclico. A história mostra diversos momentos na história da música brasileira em que o rock foi o máximo, em que o rock esteve entre os primeiros lugares, desde os anos 1950. Houve a Jovem Guarda, houve o rock dos anos 80 em que o rock estava nos rádios e nas TVs. Não tem essa obrigatoriedade de estar o tempo inteiro na mídia, nem para o rock nem para nenhum outro estilo. Eu comecei na Bahia, no início dos anos 1990 e só tocava axé e lambada nas rádios, mas isso não impediu o surgimento de uma cena de rock. Sempre vai existir, em cada cidadezinha, em cada lugar. Estar ou não na mídia não impede o principal, que é a música.

Seu single mais recente, “A verdade liberta”, foi escrito pelo Sergio Britto, dos Titãs, o que me pareceu muito simbólico dessa linha evolutiva que falávamos. Mais do que isso, tem uma intenção provocadora muito atual, porque é clara a citação ao versículo bíblico do qual o presidente Bolsonaro tenta se apropriar, e musicalmente tem muita citação ao grunge com muita melodia e muita distorção. Eram essas as mensagens que você queria transmitir ou tem mais coisas que eu não percebi?

O Britto me convidou, há pouco mais de um mês, para gravar no próximo disco solo dele. Uma música maravilhosa, inédita, parceria dele com a Rita Lee. Fui, gravei e durante as despedidas contei que eu estava trabalhando num novo álbum solo, compondo e recolhendo canções. Faz cinco anos desde meu último disco solo, o Modinhas. Alguns dias depois ele me mandou “A verdade liberta”. Bateu na hora, a música é sensacional. Eu nunca quis ser panfletária, sabe? Levantar bandeiras. Sempre achei que a atitude bastaria, de forma natural. Eu sou mulher, estou convivendo numa situação igualitária com todos os homens, ganhando o mesmo. Estar lá fazendo o que eu faço sem nenhuma apelação, sem nenhuma objetificação já era o importante, até como uma referência para outras mulheres. Infelizmente, pelo momento em que a gente está vivendo agora, em que estamos sob risco de termos nossa liberdade tolhida, de perdermos acesso a cultura, a educação, a saúde, a igualdade de gêneros e orientação sexual, acho que necessário sublinhar um pouco mais. E “A verdade liberta” veio muito a calhar, por dizer o que eu estava precisando dizer: seja o que você é, siga a sua verdade e não se deixe conduzir por esse pensamento retrógrado.

Selvagens À Procura de Lei/ Divulgação/ Igor de Melo
Selvagens À Procura de Lei/ Divulgação/ Igor de Melo

'Há muita gente escolhendo o que quer ouvir e não apenas o que escolhiam por nós'

Representante da geração 2000 do rock nacional, os Selvagens à Procura de Lei conseguiram furar o bloqueio das FMs (com a música “Brasileiro”, involuntariamente associada às manifestações de 2013, ou “Tarde livre”) e chegar a uma década de atividade com um saldo pra lá de positivo. Mas faltava um Rock in Rio no currículo. A lacuna deve ser preenchida no último dia de festival, 06, quando, depois de Folks, André Prando e Zimbra (e antes do Lagum), o grupo sobe ao palco Supernova para mostrar o repertório de seus três álbuns – e novidades do álbum “Paraíso Portátil”, com lançamento previsto para 1º de novembro. Antes de conferir o papo com o vocalista/guitarrista/pianista/compositor Gabriel Aragão, confira o clipe de “Sem você não presto”, em primeiríssima mão aqui Na BR-3:

Em “Sem você não presto”, notei um esforço em direção à carpintaria pop, em chegar a uma melodia e uma letra naquilo que costumamos chamar de “pop perfeito”. Notei corretamente? É por aí que deve vir a nova fase da banda?

Bem, falando como compositor, ao escrever “Sem você não presto” eu estava me esforçando pra sair da minha zona de conforto, digamos assim. Somos uma banda com dez anos de carreira, três albuns gravados, alguns singles por fora e eu não queria mais repetir um modelo, um formato que ficou associado à banda com o passar dos anos. Andava ouvindo muito 21 Pilots, e fiquei muito interessado em ver como eles vão, numa mesma música, de um pop supermoderno para um refrão com uma levada reggae e no verso seguinte cair num vocal hip-hop. Acho que eu estava tentando assimilar todo esse caldeirão e tentando colocar na música. Ela tem uma letra muito pessoal. Tem algumas músicas que são tão pessoais que me servem de terapia (risos). Eu começo achando que estou escrevendo sobre algo e quando me dou conta eu estou falando de outra coisa. Esse foi o caso de “Sem você não presto”. Aparentemente, é sobre um relacionamento amoroso, mas no final ela fala de coisas maiores, sobre a busca por uma espiritualidade perdida, o que estamos fazendo por aqui, o que realmente importa na vida. Uma reconexão com algo mais profundo que você pode chamar de Deus ou do que quiser. Houve uma carpintaria pop, mas o carpinteiro é (o produtor inglês radicado no Brasil) Paul Ralphes. Acho que ele conseguiu pegar todos esses elementos, de ser uma composição pop feita por uma banda de rock, e conseguiu assimilar tudo isso e deixar o som muito redondo. Foi a primeira música que eu compus para o disco novo, e foi escolhida para abrir caminho para o restante do disco.

O que o Rock in Rio representa para uma banda da geração dos anos 2000 como vocês?

Bem, acredito que toda a minha geração, que está chegando aos 30 anos, cresceu com essa lenda em torno do Rock in Rio, né? Uma lenda que vem desde os anos 1980, mas eu mesmo tenho memórias vivas do Rock in Rio desde a edição de 2001 e, claro, todas as edições recentes. E a gente sempre com aquela vontade monstra de tocar no festival – um festival com uma marca brasileira muito latente. Nós conseguimos tocar em duas edições do Lollapalooza, no Planeta Terra e (ri) sempre sentindo aquela falta de tocar no Rock in Rio. E agora a gente vai tocar, e em ótima companhia, com bandas que são amigas como Vivendo do Ócio, Maglore, Zimbra e Lagum no mesmo dia. Aliás, tem rolado uma playlist oficial desse palco, o Palco Supernova e ali dá pra conhecer muita gente nova de estilos variadíssimos. Agora o sonho é voltar ao Rock in Rio em outras oportunidades, em palcos maiores, pra mostrar tudo o que a gente vem construindo ao longo desses dez anos.

O nome do palco em que vocês vão tocar, o Supernova, faz referência ao fato de as atrações serem “supernovas”. Mas os Selvagens à Procura de Lei já têm dez anos de carreira – muito mais do que Blitz, Paralamas, Barão ou Kid Abelha tinham no palco principal do primeiro Rock in Rio. Por que o “funil” do mercado atualmente é tão mais lento e cruel do que em 1985?

Eu acho que a minha geração é uma geração de transição. Quando nós começamos a banda, por exemplo, a internet era uma novidade, e havia a impressão de que não precisaríamos mais das FMs ou das emissoras de TV para criar um público. Nós chegamos em São Paulo em 2013 para morar, na época que estávamos lançando nosso segundo álbum, Selvagens à Procura de Lei (Universal Music). Chegamos bem na época do fim da MTV Brasil, víamos toda galera se despedindo no ar, todo aquele universo que acompanhávamos à distância em Fortaleza. Foi um momento muito forte. E alguns meses depois nós tocamos na festa de lançamento do Spotify no Brasil, o início da era do streaming. Então é muito curioso olhar para nossa história e notar essa construção, de compreender como se lança um álbum, como é que as pessoas estão ouvindo música. Como compositor, eu sou muito apegado à ideia de imaginar alguém ouvindo o álbum do início ao fim, respeitando a ordem das músicas, que é como eu fiz minha vida inteira. Isso é tão importante para mim, mas para a galera mais nova talvez não faça sentido. A gente se adapta, evolui – os artistas e os meios de comunicação também, no passo deles. Toda essa geração de transição está comemorando dez anos e, de fato, muita gente ainda não teve hit em rádio, nem apareceu na televisão aberta nem entrou em trilha de novela. Por outro lado, os números que essa geração tem no Youtube, por exemplo, ou nos serviços de streaming, são muito expressivos. Acho que são critérios diferentes e não estar na novela não tira a importância dessa geração. Pelo contrário, mostra que há uma nova força, há muita gente escolhendo o que quer ouvir e não apenas recebendo o que os canais escolhiam por nós.

É oficial: fita cassete é cartão de visita tridimensional (e funciona!)

Diablo Motor/ Divulgação/Rodrigo Barros
Diablo Motor/ Divulgação/Rodrigo Barros

Demorei para entender a recente simpatia pela fita cassete. Pelo que me lembro bem, as fitinhas eram um mal necessário para que pudéssemos transportar com praticidade as músicas que queríamos ouvir no carro, ou aquilo que não houvesse sido lançado fisicamente – ou seja, tudo perfeitamente substituído pela gravação digital. Até receber o mais recente álbum do grupo pernambucano Diablo Motor, “Inflama”, em edição em cassete da Monstro Discos.

O apetrecho continua no lacre (e deve ficar até o dia em que eu tiver de novo um tape deck), mas fui conferir o disco na minha plataforma de streaming favorita e encontrei uma banda de rock pesado mas com grande senso melódico, guitarras na timbragem precisa e aquele som que transforma sua sala numa espelunca à beira da estrada pronta para uma briga estourar. Um passo enorme desde a estreia homônima, de 2012. Incluí “Réquiem” – uma trombada de Metallica com música de inferninho pernambucano – na playlist oficial da coluna (falo disso mais abaixo). Tudo graças ao lindo e tridimensional cartão de visitas da banda, a edição em cassete de “Inflama”.

Ouça agora: Na BR-3 (Playlist de outubro)

Continuando a dar forma a este espaço semanal, acaba de entrar no ar a playlist oficial da coluna. A ideia é atualizar toda virada de mês, com um pouco dos assuntos que tratamos aqui ao longo do mês, mais novidades, lançamentos e pérolas escondidas na história do pop-rock brasileiro. Confere lá e conta o que você achou:

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