Na BR-3: 'Enquanto há drama, há emoção. E a depressão é a morte da emoção', diz Lucas, da Fresno
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Na BR-3: 'Enquanto há drama, há emoção. E a depressão é a morte da emoção', diz Lucas, da Fresno

Por Ricardo Alexandre

A menos que você ame o passado a ponto de não ver que o novo sempre vem, já deve ter percebido que a banda gaúcha Fresno deixou há muito de ser uma curiosidade para adolescentes leitores da revista "Atrevida". Com vinte anos (VINTE ANOS) desde sua formação em Porto Alegre, oito álbuns em 18 anos de carreira discográfica mais um tanto de EPs, experiências tanto no mercado indie quanto nas grandes gravadoras, tanto nas mãos de Ricky Bonadio quanto na autoprodução, tanto em baladas românticas quanto em sufocantes tramas de guitarras pesadas de riffs milimétricos e sobreposições eletrônicas que insistem em nos fazer acreditar que o rock, como matriz estética, não congelou no início dos anos 1990.

Assim chegamos ao oitavo álbum de estúdio da banda, "A sua alegria foi cancelada", um lançamento “transmídia” em parceria com a multinacional BMG, ligada à editora musical Bertelsmann. Há diversas capas em circulação pelas redes, algumas com integrantes da banda, outras com grafismos com trechos das músicas e outras com nomes como a influenciadora Maju Trindade ou a dupla Keops & Raony.

O Setembro Amarelo — a campanha nacional de prevenção ao suicídio — jogou luz novamente no álbum lançado no início de julho. A banda, especialmente seu compositor principal, Lucas Silveira, tem falado mais abertamente sobre a tristeza como quadro clínico. Durante uma entrevista recente ao podcast Gugacast Letra & Música, Silveira admitiu que, em sua adolescência, a banda serviu para canalizar “pensamentos que um adolescente saudável não deveria ter”, e se surpreendeu com a quantidade de jovens pelo Brasil que se identificavam com aquele discurso. “Eu tinha muitos pensamentos suicidas, era quase uma fantasia”, disse ele no programa. “Isso permeava muitas músicas. E ninguém falava nada. Nenhuma amigo meu falava ‘cara, tu tem que ir pro psicólogo’. Minha mãe falava apenas ‘nossa, que bonita sua música’. Eu não tinha esses problemas que aparecem nos filmes, mas a depressão está justamente aí. Ela não precisa ter um supermotivo. Simplesmente falta um negócio no teu cérebro que te impede de ser feliz de verdade”.

Lucas interrompeu os ensaios para a nova turnê — que começa no dia 25 de outubro, em Santos, litoral paulista, para conversar com o Reverb a respeito do novo trabalho, rock brasileiro, tristeza e contentamento.

Lucas Silveira, vocalista e compositor na Fresno / Foto: Divulgação
Lucas Silveira, vocalista e compositor na Fresno / Foto: Divulgação

O caráter mais depressivo das músicas do Fresno sempre existiu — e era até meio motivo de piada no início, como parte da estética “emo”. Mas parece que de uns tempos para cá você resolveu abrir o jogo e tratar do assunto do ponto de vista mais clínico mesmo, em diversos momentos do álbum “Sua alegria foi cancelada”. Na verdade, parece que o assunto amarra o álbum de alguma maneira. Foi algo intencional? Por quê?

O que as pessoas mais pegavam como piada – não apenas na música da Fresno, mas de muitas bandas da nossa geração – era o fato de ser música em que um homem demostrava uma fraqueza. Mesmo que fosse uma fraqueza diante de um dilema juvenil com uma desilusão amorosa, mas o mindset do brasileiro homenzão hetero é o de que isso é uma demonstração de fraqueza. E é impressionante como o homem foge da fraqueza e da vulnerabilidade. Emo era “música de bicha” o que, claramente, revela uma homofobia presente na mentalidade do brasileiro médio. Não é um bullying exclusivo ao emo, mas a tudo que demonstrasse alguma fraqueza ou tristeza do homem. Que bom que a gente nunca fez parte desse grupo que ataca. Mas com certeza todo o bullyng sobre o emo também mexeu muito com a gente. É muito fácil internalizar essa sopa de chorume e deixar que ela afete tua criação. Isso até me forçou a diversificar meus assuntos, mas pelos motivos errados, de ter medo de demonstrar essa vulnerabilidade, me colocando num tom quase professoral de “eu já passei por isso, então percebam etc”. Nesse novo álbum eu tomei muito cuidado em não reforçar essa ideia de que eu possa ser alguém com conselhos para dar ou uma mensagem para passar, pelo contrário...

Eu busquei uma forma ainda mais direta e coloquial de falar da depressão e da melancolia. Eu sou uma pessoa com medos, com vulnerabilidades, e não quero deixar dúvidas quanto a isso. Isso não é um aspecto negativo do homem, é a salvação do homem.

Eu entendo o que você diz a respeito da fragilidade masculina, mas me parece claro que, no início você escrevia sobre a desilusão/superação que estava FORA do personagem da canção, como numa desilusão amorosa, e hoje as músicas falam muito da fragilidade/superação que está DENTRO do personagem. Um estado clínico de depressão.

Sim, faz muito sentido isso. Quando a gente faz uma música de desilusão amorosa, a gente acaba terceirizando o motivo da nossa tristeza, como se ela fosse afligida na gente. Mas a verdade é que cada pessoa reage de uma maneira. Com certeza, depois de algum tempo eu comecei a me questionar “Por que eu sinto as coisas com outra intensidade?”, “Porque coisas pelas quais as pessoas passam por cima com tranquilidade me afetam tanto?”. Foi assim que eu percebi que havia dentro de mim um característica de remoer demais as tristezas e isso claramente um sintoma do que poderia perfeitamente ter sido diagnosticado como depressão — mas eu estava trabalhando demais para parar para pensar e me tratar. E, realmente, neste disco, quando eu digo que “a sua alegria foi cancelada” eu não estou falando da tristeza, eu estou falando sobre a morte dos sentidos. Quando a Jade foi gravar a participação vocal, eu pedi para ela: “Eu não quero emoção nenhuma, quero que tu fale como se fosse uma secretária eletrônica”. Porque para mim é isso: se ainda existe drama, se existe um motivo pelo qual tu tá ali, lutando, é porque ainda existe uma emoção.

E a depressão é a morte da emoção, quando não somos mais capazes de sentir nada, nem o que é ruim nem o que é bom. E esse vazio é o que às vezes nos leva para uma espiral sem fim que acaba em tragédia.

Tem um verso curioso em “De Verdade”, a minha favorita no disco, que fala “hoje ainda cheio de defeitos/ eu guardo essas marcas no peito/ pois são de verdade”. Essa é uma visão que me lembrou um pouco a campanha “It Gets Better” contra suicídio — “vai melhorar”, a ideia de que tudo são fases, e de que as cicatrizes nos fazem ser quem somos hoje.

“De Verdade” surgiu quando eu estava querendo escrever alguma coisa sobre aqueles pequenos momentos de paz que a gente sente quando está desligado, desconectado e começa a ser um pouco grato por qualquer privilégio ou bênção que a gente pode estar tendo. Ela começou como uma canção que eu estava tentando escrever para a minha filha, mas eu percebi o quanto o fato de ela ter me transformado em um pai fez com que eu me sentisse forçado a evoluir em diversos aspectos – especialmente no quesito de contentamento, sabe? Antes de eu ter um filho, eu sentia que tudo o que eu queria estava fora de mim e que eu precisava buscar tudo isso – o sucesso profissional, especialmente, “as pessoas vão ver”, aquela coisa de continuar se provando. Mas quando existe um ser vivo dependendo de você e não há como fugir disso – aquilo ali é teu, é tua responsabilidade, é um lampejo do amor incondicional – é fácil cair na reflexão da música: olha só o quanto eu passei, olha o quanto dessas coisas me trouxeram até aqui, olha como eu não sou mais uma criança, sou um pai de família e hoje eu percebo que todas as coisas ruins que aconteceram comigo acabaram me forjando, e percebo que essas coisas podem ser úteis para as pessoas quando elas notarem que o fato de elas estarem vivas em 2019 é algo a ser celebrado, é uma dádiva – não divina, porque eu sou ateu, mas enfim. Essas marcas nos moldam, e a gente consegue viver apesar do tanto que o mundo nos aflige. Essa beleza pode ser encontrada num copo de café, no acordar de um novo dia, num filme que a gente não consegue ver até o final. A gente não pode perder a noção importante de que a gente está vivo e pode sempre fazer alguma coisa pelos outros e por nós mesmos.

Mas me parece também que há aí uma crítica à vida “de mentira”, sem sofrimentos e sem cicatrizes, proposta pelas redes sociais. Que avaliação você, que praticamente construiu sua carreira sobre a internet, faz do papel das redes sociais na depressão e na ansiedade das novas gerações?

Esse é outro assunto bastante presente no álbum. A própria ideia da arte, com as pessoas que a gente usou no encarte físico e digital, nos lyric vídeos, é uma experiência de lançar um álbum de forma transmídia. Por exemplo, uma das capas do disco é a Maju Trindade, que é uma pessoa muito famosa na internet. Soltamos a cara dela sem contextualizar que ela seria a capa do disco. A mesma coisa com a Samira Close, que é uma streamer drag queen, um personagem muito profundo, amiga nossa, que topou ser a cara de uma das músicas. Foi muito impressionante notar a reação das pessoas. Claro que isso traz um engajamento muito grande, eu sabia que seria bom para o álbum, a Reomader, o Queops Raoni, o pessoal do kung fu, mas meu principal foco é observar o que desperta nas pessoas: “olha que legal a Samira” ou “que absurdo um homem vestido de mulher. A mesma coisa com o Realmente, foi um tubo de ensaio, um experimento de internet, de notar como as pessoas se comportam ali. Porque eu acredito que tudo o que tu faz online é uma extensão de quem tu é no mundo físico. A internet dá muita vazão à frustração das pessoas. É a casa e a causa das frustrações, porque as redes propagam a Síndrome Fomo, “Fear of missing out”, essa sensação de que todo mundo tá bem, só você é que tá aí, fodido. É algo que eu trato bastante no disco.

Sonoramente, parece que a banda evoluiu de uma primeira fase, marcada por guitarras e letras sobre relacionamentos amorosos, para um segundo momento mais épico, de letras existencialistas. Mas eu arriscaria dizer que o novo álbum marca um terceiro passo, de arranjos quebradiços e repletos de peças que não encaixam aparentemente, vazios e texturas. Você concorda com isso? “Maturidade” é um adjetivo que você gostaria de ver associado ao Fresno?

Eu procuro evitar de chamar o momento novo da banda de “maduro” porque isso acaba hierarquizando as fases da nossa história, e a gente sempre foi muito reativo em relação ao que está sentindo no momento. O fato de a Fresno ter feito sucesso há dez, doze anos, se explica pelo fato de que a gente estava endereçando temas, batalhas internas que o jovem da época também estava travando. Esse cara hoje tem 30 anos. Existia uma maturidade para a época. É claro que hoje existem artistas de 17 anos que estão fazendo música super avant-garde, mas a verdade é que a nossa via sempre foi a do rock popular. A gente ligava o rádio e escutava o rock como um estilo pop. “Eu quero tocar no rádio”, existia esse pensamento. Por outro lado, embora eu não goste da palavra “maturidade”, o fato é que talvez a Fresno seja uma das únicas bandas que tem toda sua evolução musical e pessoal registrada. Quando você pega o primeiro álbum dos Beatles, você vê que ali estava uma banda pronta, profissional. Quando você pega nosso primeiro álbum... (risos) É uma banda de colégio, tocando como uma banda de colégio toca. Mas a gente já falava algumas coisas que as pessoas gostavam de ouvir, a ponto de elas relevarem a tosquice do material musical. E tudo isso está no Spotify. Nossos discos feitos em casa, gravados sem saber como se grava. Toda nossa evolução está lá. Mas entre a primeira música do primeiro disco e a música mais recente do disco mais recente, ainda existe um fio condutor, uma unidade. E a evolução vem das ondas em que a gente entra, da nossa evolução pessoal, do fato de eu haver começado a me aprofundar como produtor, trabalhar com outras pessoas, nas bandas que a gente vai conhecendo. Isso tudo criou uma assinatura. É tudo muito pensado e intencional. Não é sem querer que a gente faz o som que a gente faz.

Uma coisa que nem os que torcem o nariz para o Fresno podem negar é que vocês fazem rock brasileiro em 2019 com cara de 2019. Que outros artistas brasileiros você tem ouvido com essas características — de ser novo e bom?

Eu gosto bastante de desafiar a própria noção do que é rock, porque esse é um pouco o papel do rock.

Porque o roqueiro médio brasileiro... é meio impressionante isso, mas o cara que divide as coisas entre “isso é rock” e “isso não é rock” é o cara que só gosta de bandas de trinta anos atrás, que nunca ouviu uma playlist de novidades, de lançamentos, é um cara desinformado que gosta de dizer que nada surgiu depois do Nirvana. São as mesmas pessoas que demonstram uma preguiça de pensamento em relação a todas as áreas — são caras que ligam o rock à virilidade e a virilidade à macheza. É desinformação tão grande a respeito de rock que eu nem sei por onde começar para educar uma pessoa dessas (risos).

Tem muita coisa acontecendo no rock do Brasil, mas o melhor de tudo é que essas bandas não soam como o rock do tiozão roqueiro. O trabalho novo da Francisco, El Hombre é realmente um punk para 2019 — assim como o primeiro álbum da Refused que em 1998 intitulou seu disco de "The Shape of Punk to Come", “a forma do punk por vir” — é realmente a forma de se expressar como punk rock contestando tudo e todos. Tujo, que participa do nosso disco, e que tem esse lance da vulnerabilidade muito maravilhoso, e o Violet Soda vem muito bem – eles cantam em inglês, mas eu quero muito saber o que eles poderiam fazer em português. Sem falar no Terno Rei, no Raça... o Raça é o emo de 2019, vinte anos depois. Muita coisa boa, mas principalmente numa evolução muito grande num cenário mais livre e mais diverso.

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