Na BR-3: O fim do Skank e o logotipo do Ministério da Economia
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Na BR-3: O fim do Skank e o logotipo do Ministério da Economia

Veja como são as coisas. No mesmo dia em que Samuel Rosa recebia, em São Paulo, o repórter da Folha para dizer que o Skank está preparando sua turnê de despedida, o Ministério da Economia substituía, em Brasília, seu avatar no Twitter. Durou menos de uma semana, sendo trocado na terça-feira seguinte pela logomarca do “Plano Mais Brasil” apresentado por Paulo Guedes, mas foi tempo suficiente para deixar um rastro enorme de piadas inesquecíveis – a mais recorrente era a de que, para fazer jus a austeridade, o ministério resolveu economizar com profissionais do design. Para quem perdeu, segue a imagem:

Ô, logo, meu!
Ô, logo, meu!

É um engano e uma arrogância acreditar que há amadorismo naquele logotipo. Há ciência, há pesquisa, há gente que sabe perfeitamente o que é proporção áurea e que estudou em lugares melhores do que eu e você. Mas acima de tudo isso há a ideia, petrificada na cultura brasileira há gerações e gerações, de que o jeito de se comunicar com o grande público brasileiro é por intermédio do feio, do depauperado, do barato, do mal-feito. Na cabeça do marketing artístico médio do Brasil, não basta ser popular e acessível, é preciso sinalizar essa pobreza.

Veja a coletânea do Capital Inicial acima. Será que era realmente preciso o efeito enevoado em torno da cabeça dos músicos? Será que a gravadora só tinha doze dólares para pagar pela fonte Disgrunged? Será que arruinaria o orçamento se ela comprasse uma imagem feita em estúdio profissional em vez de usar uma foto gratuita de divulgação? E o disco “Duetos 2”, de Roberto Carlos: será que não havia nenhuma foto que poupasse o recorte medonho do cabelo do cantor? Será que alguém achou que aquela fonte de convite de casamento era mesmo a melhor opção? E na coletânea da Nação Zumbi: por que cortar o (então) percussionista Jorge Du Peixe bem na altura de sua sobrancelha? Por que aquela repetição sem sentido do nome do artista na metade inferior da capa? Será que eles também dispensaram os designers?

É claro que não. Em todos os casos, há profissionais bem pagos sabendo muito bem o que estão fazendo: sinalizando ao “grande público” que aqueles são produtos “populares” – que é o eufemismo para barato, tosco, pobre nas salas climatizadas das grandes empresas. Estamos falando de design, mas poderíamos falar de roteiros de novela, filmes, publicidade, arranjos de músicas, livros. O nome disso é elitismo, em sua forma mais desrespeitosa: eu, que me-re-ci estudar em boas escolas e chegar a cargos decisórios, sei o que é bom e o que é ruim, sei harmonizar vinhos e queijos; o povo é estúpido e inculto, não apenas não sabe distinguir o feio do belo como normalmente prefere o feio e se comunica por ele.

Bem, a esta altura você já deve ter entendido o que isso tudo tem a ver com o Skank e o que deve ser celebrado na carreira do Skank que está chegando ao fim em 2020.

Porque você pode gostar ou não da banda, pode preferir a fase inicial dancehall à fase adulta beatlemaníaca, ou achar pop demais para o seu gosto refinado ou pop de menos para o rádio de hoje, ou salgado demais ou doce demais, mas uma coisa é fato: poucas vezes na sofrida história do pop brasileiro uma banda ou artista ofereceu tanto de si por tanto tempo para tanta gente.

O Skank hoje/Foto: Diego Ruahn
O Skank hoje/Foto: Diego Ruahn

Porque a “briga boa” do Skank, nas palavras do Samuel, sempre foi estar entre os grandes vendedores, estar na rádio e nos grandes palcos. Nem em sua fase independente o Skank parecia afeito ao circuito Sesc-editais-lacração. Era no território do Só Pra Contrariar e Zezé di Camargo, da TV Globo e da Jovem Pan e das trilhas de novela que a banda queria falar de drum’n’bass e dancehall, misturar jovem guarda com bhangra, gravar com Chico Neves e mixar em Abbey Road, lançar Dudu Marote, mostrar Manu Chao para o grande público e fazer com que o Faustão balançasse a capa do Kenny Scharf, dos Clayton Brothers ou do Rafael Silveira em pleno domingão, conversar sobre Clube da Esquina e a importância da reinvenção, da descentralização geográfica e, agora, debatesse o compromisso do artista com seu desafio artístico – nem que esse compromisso custe o próprio fim da banda.

Não vou nem entrar no mérito da música (porque sei que tudo o que é tão grande também atrai rejeição proporcional), mas recomendo que você ouça, de ponta a ponta, “Cosmotron”, com os ouvidos abertos de quem estuda a história do rock nacional, ou que preste atenção ao “Samba Poconé” para além dos sucessos “Garota Nacional” e “É Uma Partida De Futebol” que você ouviu até cansar mesmo sem querer.

Nós estamos no país cujo Rei me foi descrito por um de seus músicos como alguém que pouco opinava em arranjos ou decisões artísticas e que só se dirigia a seus músicos para exigir mais simplicidade. “Isso aqui não é jazz”, dizia ele. Corta esse acorde em quinta, que isso aqui não é jazz; isso aqui é terceiro mundo, bicho, arcaico, incivilizado, inculto, sob a lei do menor esforço, de tomar em vez de oferecer.

Se há algum fio de esperança para nós, ela é pontuada de muitos e muitos exemplos de que a qualidade, o esforço e a doação podem ser recompensados com o sucesso: Tim Maia, Erasmo, Rita Lee, Simonal, RPM, Legião Urbana, Jorge Ben, Caetano, Gil, Elis, Lulu Santos. O Skank vai sair em turnê nacional nos dizendo que eles fizeram isso por 30 anos, caso você não tenha notado.

Parece tristemente simbólico que a banda encerre atividades no momento em que há um esforço institucional gigantesco para nos convencer de que saber se comunicar com o povo é igual a ser tosco, grosseiro, rude e violento – tudo o que o Skank nunca foi. Quando você estiver em algum dos estádios por onde passar a turnê de despedida da banda, cantando “te ver e não te querer” como se fosse a última vez, e talvez seja mesmo, reserve um pedacinho da sua alma para pensar sobre o país que podíamos ter sido, e que podemos ser.

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