Na BR-3: O inesperado desfecho para a história do álbum mais misterioso do rock brasileiro
Na BR-3

Na BR-3: O inesperado desfecho para a história do álbum mais misterioso do rock brasileiro

Por Ricardo Alexandre

Dizem os historiadores que, por anos a fio a partir de meados da década de 1520, as expedições europeias que passassem entre Santa Catarina e São Vicente ouviriam histórias emocionadas de dois exploradores que teriam feito parte do enorme grupo comandado pelo português Aleixo Garcia. Em 1524, ele havia colocado à prova a existência do mitológico “Peabiru”, o “caminho a pé para o Peru”. Esse “Peabiru”, mais exatamente, era a trilha pré-histórica que, diziam os indígenas, levaria, a partir de alguns pontos do litoral do sudeste brasileiro, até as lendárias montanhas cobertas de gelo. Em torno dela, haveria uma civilização avançada, cruzada por estradas, pontes, edificações, além de ouro e prata em quantidades incalculáveis. Era lenda sobre lenda. Como prova da existência de Peabiru e da montanha de prata, esses dois exploradores mostravam — a quem quisesse ver — peças que sua própria expedição havia saqueado dos postos do império inca depois de trilhar o caminho mitológico. Esses homens morreram sonhando em pisar nas terras que haviam visto apenas ao longe. Depois deles, diversos exploradores morreram devorados por índios tentando achar as minas de Potosí. Essa história só terminaria em 1539, com Pizarro subjugando o império inca, e em seguida, com o “caminho a pé para o Peru” sendo tragado pela mata e voltando ao mundo das lendas.

Em 1974, os jovens músicos Zé Ramalho, paraibano, e Lula Côrtes, pernambucano, ambos com 25 anos, lembraram-se de Peabiru quando foram levados por um amigo em comum, o artista plástico Raul Córdoba, para conhecer o município de Ingá do Bacamarte, a 85 quilômetros de João Pessoa, na Paraíba. Raul, muito acertadamente, achava que Lula e Zé adorariam conhecer a Pedra do Ingá, um monumento arqueológico de 50 metros de extensão com centenas de desenhos rupestres misteriosos e jamais decifrados. Eram pinturas de homens e humanoides, figuras geométricas, frutas e constelações. Tudo o que se sabia então sobre a parede (e tudo o que se sabe até hoje) é o que se podia ver com os olhos, exatamente o que os potiguaras explicaram aos colonizadores, em bom tupi: “itá kûatiara”, ou “pedra riscada”. Impressionados, Lula e Zé Ramalho decidiram voltar para Recife, compor e gravar um álbum conceitual a respeito do que estavam vendo – ou, melhor dizendo, “experimentando”. Lula tinha certeza, por exemplo, de que os desenhos haviam sido feitos a raio-laser por seres extraterrenos. Quanto mais pesquisavam sobre o assunto no folclore local, mais inspirados ficavam para o disco.

A Pedra do Ingá, na Paraíba / Foto: Cristiano Bastos
A Pedra do Ingá, na Paraíba / Foto: Cristiano Bastos

O álbum seria gravado entre outubro e dezembro de 1974, nos estúdios da recifense Rozenblit, a principal gravadora brasileira fora do eixo Rio-São Paulo. Lançado em julho de 1975 com o nome de “Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol”, o projeto foi montado com um verdadeiro quem-é-quem da música experimental pernambucana surgida na virada para os anos 1970. Um álbum duplo, com capa dupla e um lindo encarte que, pelas décadas seguintes se transformou numa lenda tão grande quanto a da trilha que levava os exploradores ao ouro inca.

“Paêbirú” — uma aliteração a partir do Peabirú do período pré-colonial — acaba de ser relançado pela primeira vez desde 1975, em vinil da Polysom cuidadosamente reproduzindo a edição original. Como a cidade de Potosí diante dos portugueses, hoje percebe-se que a lenda é, de fato, real. Mas, no caso do álbum de Zé Ramalho e Lula Côrtes, em vez de serem dissipados, os mistérios foram sendo acumuladas ao longo do tempo até que ele chegasse a ser um dos 50 discos mais valiosos do mundo.

O álbum 'Paêbirú', relançado pela Polysom / Foto: Divulgação
O álbum 'Paêbirú', relançado pela Polysom / Foto: Divulgação

A HISTÓRIA

Influenciado pelo tropicalismo, Recife vivia um “desbunde” cujo marco inicial havia sido a Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém de 1972. Foi o “woodstock nordestino”, com shows de Ave Sangria, Flavíola & Bando do Sol, Lailson, Lula Côrtes e Zé Ramalho. O sucesso de Alceu Valença lançou um olhar nacional para aquela mistura de música regional, rock pesado e psicodelia. Tudo aconteceu a tal ponto que a tradicional gravadora local Rozenblit criou um selo especialmente dedicado à produção “udigrudi” da região, o Solar, com jovens bichos-grilo tomando conta da direção artística, produção gráfica e produção musical. “Paêbirú” reuniu praticamente toda aquela geração em torno de um mesmo objetivo: transformar em música a experiência transcendente vivida em Ingá. As músicas — todas parcerias entre Lula e Zé — misturavam arqueologia, geologia, folclore, ufologia, cultura indígena e misticismo (especialmente sobre o mito de Sumé, o homem branco de barbas e cabelos brancos que flutuava no ar e transmitiu conhecimentos sobre agricultura e organização social aos indígenas — segundo contaram ao padre Manoel da Nóbrega).

Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Marconi Notaro, Paulo Raphael, Lailson, guitarras distorcidas dialogando com o tricórdio marroquino, com percussão agreste; com berimbaus, harpas, cacofonias e improvisos dialogando com letras enigmáticas em 14 músicas espalhadas sem pressa pelos lados “Terra”, “Ar”, “Água” e “Fogo”. Era o mais telúrico em choque com o sincrético. Foram prensadas 1.300 cópias. Um reparte enviado à imprensa nacional, outro para as lojas da região e mil ficaram em estoque para serem distribuídos em seguida. A partir daí, começa a incrível sucessão de lendas, mistérios e tragédias envolvendo “Paêbirú”.

Em 17 e 18 de julho de 1975, o Rio Capibaribe (que já transbordara diversas vezes nas décadas anteriores) teve sua maior cheia, submergindo 80% da cidade e matando mais de 100 pessoas. A “Cheia de 1975” é considerada a maior tragédia natural da história da capital pernambucana. Os estúdios, escritórios e estoques da Rozenblit foram cobertos por mais de dois metros de água — o que destruiu todo estoque do caro “Paêbirú” e, acreditava-se, as fitas master do disco. Foi um golpe do qual a gravadora não conseguiu se recuperar.

Pelos anos 1980, “Paêbirú” foi apenas uma nota de rodapé na história de Zé Ramalho, então acumulando um longo currículo de sucessos nas FMs e novelas. A partir de meados dos anos 1990, todo um movimento de revalorização dos “tesouros perdidos” do rock mundial chegou até a lisergia pernambucana e, naturalmente, a seu disco mais ambicioso e simbólico. Colecionadores do mundo inteiro passaram a falar da tal “obra-prima da psicodelia brasileira” — e a história de que haveria menos de 300 cópias existentes só fez aumentar a curiosidade pelo álbum. A nascente internet foi o palco para a troca de informações e pistas sobre as poucas cópias existentes. Em 1995, a banda Jorge Cabeleira e o Dia em Que Seremos Todos Inúteis, a “próxima grande coisa” do mangue beat, inclui “Os Segredos de Sumé” em seu álbum de estreia, com participação de Zé Ramalho. Dez anos depois, o selo alemão Shadoks lançou uma edição em LP e CD que esgotou rapidamente. Em 2009, foi a vez do selo inglês Mr. Bongo. Ambos sem autorização da Rozenblit e ambos com o áudio retirado do próprio vinil.

Por essa época, outro mistério veio a se somar aos outros: Zé Ramalho passou a se silenciar sobre o disco. Os motivos são vários: o paraibano seria ressentido pela diretora de arte original, Kátia Mesel, haver colocado o namorado, Lula Côrtes na capa, deixando-o apenas no verso. Outra versão dá conta de uma briga entre os antigos parceiros quando Zé decidira regravar “Não Existe Molhado Igual Ao Pranto” em seu álbum de 1996 e Lula criou dificuldade. Outras fontes dizem que Zé jamais engoliu o silêncio em torno do álbum na época de seu lançamento e decidira silenciar de volta como retaliação. Em 2011, o jornalista Cristiano Bastos produziu um road-movie sobre a Pedra de Ingá e, o álbum “Paêbirú” e o grupo de artistas em torno do disco. Convidado a falar, Zé Ramalho desconversou: “Cristiano, isso faz parte dos segredos de Sumé”. Dá pra assistir “Nas Paredes da Pedra Encantada” no link abaixo:

Lula Côrtes morreu antes do filme ser finalizado. Àquela altura, “Paêbirú” já passava dos US$ 5 mil de valor no mercado de colecionadores estrangeiros. Com o tempo, chegaria a US$ 7 mil. Neste momento veio o anúncio: Helio Rozenblit estava restaurando pessoalmente todo o acervo da gravadora fundada por seu pai e disponibilizando tudo nos serviços de streaming. E, ao contrário do que se acreditava, havia encontrado, sãs e salvas, as fitas originais de “Paêbirú”. “Elas estavam no alto das estantes de aço dos nossos arquivos”, disse ele ao jornal “Folha de S.Paulo”. A matriz, entretanto, foi mesmo perdida na enchente. A que se ouve no vinil da Polysom é uma masterização para uma nova matriz feita a partir dos tapes originais.

Cerca de 35 anos depois de gravado, “Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol” continua tão deslocado no tempo-espaço e tão assombroso quanto deve ter soado aos poucos ouvidos que o ouviram em sua época. Uma peça de arte feita para se comunicar com um passado que ninguém ousa dizer se de fato existiu — com índios, seres mitológicos, dinossauros, exploradores europeus e extraterrestres —, não pode mesmo envelhecer como uma obra ordinária. Suas longas e intrincadas faixas, ora exercícios de improvisação ora engenhosidades cerebrais, continuam pairando acima da música nordestina dos anos 1970, do pós-tropicalismo, do rock psicodélico como um registro de um tempo soterrado, mas ainda acessível.

E o fato de estarmos com um exemplar em mãos em vinil de 180 gramas soando tão bem — ou melhor do que soou em 1975 — é apenas mais uma prova de como Sumé mantém tudo sob controle, apesar de não parecer interessado em revelar seus segredos até hoje.

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