Na BR-3: ‘Os curitibanos são uns tímidos do cacete’
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Na BR-3: ‘Os curitibanos são uns tímidos do cacete’

Por Ricardo Alexandre

“Isso talvez exemplifique nossa dificuldade em interagir com os grandes centros brasileiros”, diz o advogado e escritor curitibano Eduardo Mercer, entre o resignado e o bem-humorado. Ele está explicando por que diabos seu livro “Uma fina camada de gelo: O rock autoral e a alma arredia de Curitiba” (edição do autor), saído da gráfica no final de 2017, só agora começou a ter seu nome circulando fora do Paraná. O “lapso de todas as partes envolvidas” veio a calhar, porque permitiu que o livro ganhasse um aliado em sua divulgação: o documentário de mesmo nome, dirigido por Vinícius Ferreira, cujo trailer você vê abaixo:

Tanto o filme quanto o livro procuram contar e problematizar a história do pop-rock feito em Curitiba entre os anos 1980 e 2000, cavando as raízes dos anos 60-70 e trazendo a conversa até o século 21. Fora disso, são trabalhos muito diferentes, complementares e necessários, porque retratam a desilusão de um circuito que poderia muito bem ter se organizado em micro-cenas regionais autossuficientes e cooperativas, mas que se esfacelou diante do fim do mercado fonográfico mais tradicional.

Curitiba quase sucedeu Porto Alegre na lista de capitais reveladas pelo rock brasileiro dos anos 1980 – depois de Brasília e São Paulo. Da famosa “turma de 94”, Curitiba rendeu a coletânea Alface, com as bandas Boi Mamão, Magog, Woyzeck e Resist Control. Além disso, tinha rádio de rock, jornalistas especializados, um Aeroanta pra chamar de seu, uma casa de shows underground. No “boom do disco” dos anos seguintes, o grupo Sr. Banana emplacou a balada “Encontrar”. Lembra?

O percussionista-letrista do Sr. Banana era Fabiano Neves, hoje um bem-sucedido advogado curitibano, que resolveu fazer sua parte para registrar a história do rock da sua cidade, patrocinando tanto o livro quanto o filme.

Eduardo Mercer bateu um papo com a coluna Na BR-3 para falar de seu livro “Uma fina camada de gelo”. O livro impressiona: capa dura, quase 600 páginas, repleto de fotos e um projeto editorial muito dinâmico, alternando entrevistas, depoimentos e história mais formal.

'Uma fina camada de gelo', de Eduardo Mercer, compõe panorama histórico do rock de Curitiba no fim do milênio passado/Divulgação
'Uma fina camada de gelo', de Eduardo Mercer, compõe panorama histórico do rock de Curitiba no fim do milênio passado/Divulgação

A primeira coisa que chama a atenção é o acabamento e a volumetria do livro. Como você conseguiu viabilizar um livro assim?

O Fabiano Neves é um advogado bem sucedido que resolveu bancar projetos culturais. Ele teve a ideia do filme e do livro, e convocou o Vinícius Tchê Ferreira e a mim. Recebi um auxílio financeiro razoável e, mais importante, pude escolher meu time de confiança: o designer, o revisor, o fotógrafo, a gráfica etc. Minha expectativa era fazer o melhor trabalho possível, em termos de qualidade do texto e da veracidade das informações apuradas [considerando que eu era virgem, só tinha escrito causos e poemas até então]. Recebi muitos feedbacks positivos e, naturalmente, reclamações dos que ficaram de fora. Interessante notar que apenas uma pessoa reclamou diretamente, e ainda assim pelo Messenger – o curitibano é acanhado até pra isso. O Fabiano me disse que esse livro é um presente para Curitiba. Concordo com ele: foi a primeira obra integralmente dedicada ao nosso rock e gêneros afins. Quero acreditar que esse livro será lido daqui a 30 ou 40 anos, ou mais, e ainda manterá sua “utilidade informativa”, para quem quiser conhecer a Curitiba dos anos 1970, 80 e 90 por esse ângulo diferente.

Um dos mistérios que você tenta investigar no livro é sobre como, apesar da excelência na execução, o pop curitibano, via de regra, sempre se manteve longe das rádios nacionais e do mainstream. Seu livro conversa com muita gente, mas eu gostaria de saber qual a sua conclusão a esse respeito.

Lamento informar, mas não cheguei a nenhuma conclusão definitiva. O quadro é bastante complexo, está além da minha capacidade de compreensão. Para colocar luz nessa questão, inseri um interlúdio a partir do Capítulo 12 em que reuni as opiniões de nossos principais pensadores sobre Curitiba [poetas, escritores etc.]. De qualquer modo, para não te deixar sem resposta, tenho a impressão que há um misto de acanhamento, comodismo e “jacuzice”. Sim, nós curitibanos somos o povo mais jacu, mais arisco que conheço. Viajo para o interior do Paraná e considero cosmopolita o povo de cidades médias como Guarapuava, por exemplo. Lá sou tratado com uma hospitalidade que chega a me constranger. Em cidades paranaenses menores acontece o mesmo. Minha irmã tem uma teoria: quem mora em Curitiba pode ir passear em qualquer cidade que vai se sentir esplendorosamente bem recebido. Mas além da timidez, parece que falta um genuíno interesse em estabelecer um relacionamento com as bandas e o público dos grandes centros, além da falta de vontade de conquistar o grande público local. Falta de ambição, talvez.

Você acha que existe uma identidade do rock curitibano, assim como por muito tempo se falou “rock gaúcho”? Que características seriam essas?

Como disse a Adriane Perin, produtora cultural e jornalista, a nossa identidade é a falta de identidade. Citando outro grande jornalista local, Abonico Smith, como as bandas curitibanas sabiam que dificilmente teriam acesso às rádios locais, cada uma formou sua estética musical da maneira que bem entendeu. Outra característica interessante de Curitiba é que sempre tivemos boas bandas em todos os estilos: metal, punk, industrial, hardcore, blues, classic rock, crossover, psychobilly, reggae etc. A banda curitibana que, na minha opinião, criou uma identidade musical curitibana/paranaense é o Blindagem. Eles têm influência de Secos & Molhados, Rolling Stones, Beatles, Pink Floyd, mas percebo uma autenticidade nas músicas deles, que muitas vezes prestam tributo a Curitiba e ao Paraná. Eu sou um “paranista” ferrenho e o Blindagem me deixa feliz por saber que tem gente daqui fazendo música de alto nível. Outras bandas que me despertam essa alegria bairrista, por assim dizer, são Beijo AA Força, Opinião Pública [atual Opinião Primata], Djambi e Black Maria. Os gaúchos são mais unidos do que nós, enfiam mais as caras e são melhores de marketing. A erva do chimarrão e o churrasco sempre foram tradição aqui no Paraná também, mas os gaúchos fazem alarde e nós somos uns tímidos do cacete. A título de curiosidade, a erva mate recebeu seu nome científico, ilex paraguariensis, em Curitiba. Eu e minha mãe somos, e meus avós e bisavós maternos eram consumidores de chimarrão. Meu trisavô materno era produtor de erva mate em Ponta Grossa, no Paraná. Conto isso para destacar que a erva mate sempre fez parte da vida dos paranaenses, como hábito e fonte de renda, mas os gaúchos, melhores de marketing do que nós, souberam trazer essa imagem para eles. Azar o nosso! Finalizando, nós e nossos estimados irmãos gaúchos sempre fizemos músicas boas. A diferença é que eles têm mais facilidade para dialogar com os grandes centros e têm mais desenvoltura para apresentar seu trabalho. Por último, importante frisar que Curitiba parece ser um mundo autossuficiente. O curitibano vai para São Paulo e se sente em outro planeta. Sem contar que esta cidade é um imã, você tenta escapar mas ela te puxa de volta. Vejo muita gente morando 10 ou 20 anos fora, e depois retornando para cá.

Curitiba sempre foi associada como uma cidade bastante rigorosa – talvez por causa da época do famoso sistema de transporte público e do urbanismo. Hoje, quando se fala em “República de Curitiba” se associa a cidade ao antiesquerdismo e à operação Lava Jato. Isso é uma percepção de quem está distante ou você sente esse clima aí dentro também? Você acha que isso se reflete na produção cultural local?

O povo curitibano, como falei há pouco, é arisco, analítico, observador. Mas se você ganha a amizade de um curitibano, é para sempre. Valorizamos muito a amizade por aqui. Outra característica interessante, contada pelo urbenauta Eduardo Fenianos, é que houve uma guerra, alguns séculos atrás, e Curitiba ficou sob os cuidados das mulheres. É por isso que Curitiba é uma cidade tão limpa e organizada até os dias de hoje. Antes do arquiteto e urbanista Jaime Lerner se tornar prefeito, em 1971, a cidade já tinha uma inclinação ao planejamento urbano – vide o plano diretor do município, implantado nos anos 1940, e a reforma urbana do prefeito Ivo Arzua nos anos 60. Jaime Lerner criou as canaletas do expresso, nosso metrô de superfície, em atividade até hoje. Curitiba é uma cidade limpa e o povo aqui ajuda a manter essa limpeza. Somos obedientes à lei, o que certamente castra o nosso lado artístico, contestado. De fato, os partidos de esquerda nunca fizeram muito sucesso em Curitiba, cidade essencialmente conservadora. Em geral, temos orgulho do Sergio Moro, meu professor na faculdade de direito, salvo raras exceções. O curitibano gosta de ordem e limpeza, portanto é pouco inclinado à transgressão e à contestação, elementos, salvo engano meu, fundamentais para a inspiração e a liberdade criativa. Como diria o grande Rodrigão Barros (Beijo AA Força, Maxixe Machine e outras), Curitiba trata muito mal os seus artistas.

Eu acompanhei com muita atenção a cena curitibana nos anos 90 e sempre achei que, em tempos de fusões de gêneros e tendências, Curitiba fazia as fusões mais surpreendentes, como em bandas como Boi Mamão e Woyzeck. Essa abertura para diversos gêneros talvez fosse a ponte para o século 21, quando poucas pessoas se assumem por baixo de rótulos como “rock” ou “MPB”. Mas na verdade, desde o Bonde do Rolê e Karol Conká ouvimos falar muito pouco do pop curitibano. O próprio livro, no capítulo “Hoje em dia” fala mais sobre plataformas do que sobre artistas. O que tem acontecido por aí atualmente que você gostaria que a gente soubesse?

Abonico Smith defende que, como as bandas daqui sabiam que não tocariam nas rádios e nem poderiam alimentar expectativa de serem ouvidas por um número elevado de conterrâneos – diferentemente do que ocorre com as bandas de axé em Salvador, por exemplo –, elas se sentiam livres para tocar e misturar o que bem quisessem. A falta de um estilo musical essencialmente curitibano também contribuiu para essa pluralidade do rock autoral curitibano. Assim como recebemos imigrantes de vários países e etnias, também “recepcionamos” os mais variados estilos musicais, do Brasil e da gringa. A linha de corte do livro, quanto ao surgimento das bandas, foi 1996. Ao finalizar o meu “roteiro” inicial de capítulos, senti necessidade de falar sobre os tempos atuais, mas em relação à evolução da tecnologia e como isso impacta o mercado musical. Pois essa relação tecnologia e música é abordada ao longo da obra. Confesso estar bem por fora das bandas atuais de Curitiba, pois ouço as mesmas coisas de sempre (daqui e do “resto do mundo”) e não sou um caçador de novidades. Prefiro caçar velharias da música brasileira. Mas para não te deixar sem resposta, cito o Alexandre França, que nem é tão novo assim, e faz uma MPB excelente; o Molungo, de música brasileira; e o Zarabatana, que também funde estilos brasileiros. Tem um cara das antigas, o Edison Mazda, que tocou numa das principais bandas daqui dos anos 70, a Excelsior Vox, e recentemente lançou um disco solo. As músicas dele e as do Blindagem são, na minha mais ou menos modesta opinião, o que pode ser chamado de rock paranaense: pitadas de Almir Sater, Beatles, um pouco de reggae, Secos & Molhados, Rolling Stones, blues, moda de viola e outras cositas. Minhas preferidas atuais são The Secret Society, Um Deus Blusa, Noid, Crizin da ZO.

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