Na BR-3: Que rock é ésse? Que pergunta estúpida é essa?
Na BR-3

Na BR-3: Que rock é ésse? Que pergunta estúpida é essa?

Por Ricardo Alexandre

“Você já ouviu o álbum novo da Elza Soares?”, pergunta o ouvinte ao locutor da FM especializada em rock. O ouvinte falava de “Planeta Fome”, lançado alguns dias antes. Num estalo, me lembro que 33 anos atrás, Elza Soares, bem à margem do mercado de discos em pleno auge do rock brasileiro dos anos 80, pulando de gravadora em gravadora e de projeto em projeto, por pouco não lançou um álbum pelo selo RPM Discos (sim, da banda RPM) produzido por Branco Mello (sim, dos Titãs). O disco estourou o orçamento em ponte-aérea e a gravadora dos moços faliu. “Planeta Fome” foi produzido pelo mesmo Rafael Ramos da Pitty, cita “Comida” dos Titãs (“você tem fome de quê?”) e tem capa desenhada detalhadamente por Laerte Coutinho, parte integrante da geração que ia ao Dama Xoc e ao Madame Satã e comprava o “Piratas do Tietê” e “Chiclete com Banana”.

Veja você quanta coisa dá pra pensar no segundo entre a pergunta do ouvinte e a resposta do locutor.

“Eu ainda não ouvi o disco todo”, responde o locutor, em tom de reverência e respeito. “Mas já ouvi a música que ela gravou como o BaianaSystem e achei incrível”. Ele se refere a “Libertação” – que ainda tem Virginia Rodrigues. “Eu não vou sucumbir/ eu não vou sucumbir/ avisa na hora que tremer o chão/ amiga, agora segura a minha mão”. Baita refrão, baita groove, meio maracatu, meio macumba, meio Paralamas do Sucesso fase “Bora Bora”, aquele clima catártico dos shows da banda, guitarras que reverenciam tanto Pepeu Gomes quanto Nação Zumbi quanto tudo de bom que o rock brasileiro fez desde que tirou o sobretudo em 1990. Pensei: “Caramba, vai tocar Elza Soares e BaianaSystem nessa FM especializada em rock!”. Eu vi o mundo da música melhor no futuro, eu vi isso por cima do muro de hipocrisia que insiste em nos rodear.

Baiana System é a melhor banda de rock brasileiro em atividade no momento. É claro que há outras tão boas quanto, dependendo do seu gosto; O Terno continua imbatível para quem gosta da dinâmica de power trio, mesmo que eles estejam mergulhados num barroquismo que conflui “Pet Sounds” com “Clube da Esquina”; tem os Boogarins rodando o mundo; tem os Autoramas; tem tudo o que vai desfilar neste espaço semanalmente, toda quinta-feira. Mas é o Baiana System que faz em 2019, quase 2020, o rock brasileiro de 2019 modelo 2020, acumulando cada experiência desde que Betinho apareceu cantando “Enrolando o Rock” em algum filme de Anselmo Duarte nos anos 50. E faz isso com um público crescente, participativo, numeroso, organizando o movimento, orientando o carnaval.

Na época de Betinho & Seu Conjunto, o rock era um dança, com passinhos demarcados e uma série de regras como toda moda passageira deve ser. Dez anos depois, já não se dizia “rock’n’roll”, mas “rock” como parte da cultura pop, como, err, “atitude”, postura, inconformismo – jornalismo de rock, casa de rock, revista de rock. Caetano dando piruetas no palco da boate Sucata; Jorge Ben tocando violão de cordas de nylon na palhetada; Gal Costa desembarcando no Teatro da Praia com uma parede de Marshalls; Luiz Gonzaga desbundando no Tereza Rachel dirigido pelos ripongos Jorge Salomão e Capinam; os Novos Baianos puxando um fumo com João Gilberto; Zé Ramalho e Lula Côrtes psicodelizando as pinturas rupestres de Ingá na Paraíba; os Paralamas tocando lambada no volume 11, os Raimundos misturando Zenilton e Ramones; o Sepultura levando Carlinhos Brown para os desertos do Arizona para pagar tributo a Zé do Caixão, Zumbi e Lampião; a Nação Zumbi alinhando as alfaias e tambores de maracatu no palco do Hollywood Rock; o Skank fazendo drum’n’bass sobre uma disputa de terras entre dois roceiros do interior de Minas Gerais; o Los Hermanos bebendo Chico Buarque com guitarras e rompendo com o machismo e misoginia do rock dos anos 90. Que rock é esse?

Ora, esse é o melhor rock feito no Brasil. É, de fato, o rock feito no Brasil como jamais poderia ser feito em qualquer lugar do mundo. Se você não entendeu isso, você pegou só a casquinha do rock, você transformou o rock num gênero musical que teve seu auge nos anos 60 e 70 e que, por uma maluquice do destino, foi macaqueado 20 anos depois no Brasil que cheirava gasolina e óleo diesel nas músicas dos anos 80. Você vai continuar olhando a escalação do Rock in Rio e grunhindo a frase mais boba que alguém pode dizer: “mas isso não é rock”. Como disse o Lucas Silveira, da Fresno, semana passada neste mesmo espaço, uma frase dessas é de acender a luz amarela sobre estarmos diante de um conservador – aquele personagem cantado pelo Erasmo Carlos, o pai do rock brasileiro, em “Estou dez anos atrasado”.

E aí?

Você acha que entrou “Libertação” na programação da rádio de rock? Claro que não. Porque “não é rock”. Entrou aquela dos Chili Peppers de sempre — aquela, que também não seria rock aos olhos de quem viu Chuck Berry e Little Richard começando. E depois outra de antigamente, e depois mais um tatuado querendo matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem, e na sequência mais outra de alguém que faz música para se encaixar nas regras do que é rock.

Eu e você sabemos, e é sobre isso que vamos conversar toda semana, que aquele se curva às regras, pode ser chamado de tudo, menos de rock.

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest