‘Na BR-3’: ‘Sempre foi difícil para bandas como o Autoramas, mesmo quando o rock era moda’
Na BR-3

‘Na BR-3’: ‘Sempre foi difícil para bandas como o Autoramas, mesmo quando o rock era moda’

O novo álbum dos Autoramas, “Studio Sessions”, é uma estrada vicinal a partir da discografia do grupo. Gravado durante a turnê de divulgação de “Libido”, o novo álbum reúne registros da banda em programas de rádio, TV e YouTube tanto do Brasil quanto no exterior.

Bati um papo com o líder da banda, Gabriel Thomaz, a respeito do cenário independente nacional e do novo trabalho, “Studio Sessions”.

Autoramas, imparáveis: de volta com  o velho novo rock em português e o rock português
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Parece que “Studio Sessions” é um spin-off do “Libido”, o último álbum dos Autoramas, certo? Como você descreve esse momento que a banda está vivendo?
Sim, sem dúvida o “Studio Sessions” é um álbum calcado no “Libido’ por conta das sessões todas que a gente fez. Mas ao mesmo temos músicas que não são do disco. “Paciência”, por exemplo, é a versão que a gente gravou de que mais gosto. “Robot” era uma que a gente já havia tentado fazer e só agora ficou legal. Já estamos há mais de três anos com essa formação e chegamos a esse disco bem ensaiados, entrosados, todo mundo se conhecendo bem, um time jogando junto. Estamos fazendo muitos shows, essa sempre foi a nossa principal forma de a gente se apresentar no mercado, de atacar. É o que a gente faz com mais cuidado. E tá aí, a gente tocando ao vivo, sem overdubs. O resultado de tantos shows que a gente faz está nesse disco.

O fato do álbum ter gravações feitas em Portugal e no Brasil também nos leva a refletir sobre a mídia para o rock alternativo daqui e da Europa – os programas de rádio, os canais do YouTube etc. O que você pode dizer a esse respeito? Como estamos no Brasil em relação a outros países, em espaço para bandas como o Autoramas?
Acho que cada país é diferente do outro. Por exemplo, você chega na Argentina, toma um táxi em Buenos Aires e quando entra no carro o taxista está ouvindo um rock argentino – é um hard rock, não é o que a gente entende como rock, é uma outra coisa, mas é rock. Você usou o termo “rock alternativo”. O Autoramas quando começou era chamado de indie. É uma loucura, mas 20 anos depois quando alguém fala “indie” está se referindo a algo mais MPB. As coisas acabaram indo pra esse caminho. Na Europa nós somos rotulados como “garage” – então nós vamos ocupar os espaços da galera de “garage”. É muito doido notar como as coisas mudam, e como a gente vai se colocando. Esse lance de Portugal é uma coisa diferente, porque é um programa que fizemos com atrações de todos os gêneros, mas é um programa maistream, de um doso maiores grupos de mídia do país, a Antena 3. Foi um grande passo pra gente tocar ali, depois de tanto trabalho feito em Portugal. Duas das músicas que gravamos lá entraram no Top 10 da rádio. “Verão” chegou em segundo lugar na parada da maior rádio de pop-rock de Portugal. No Brasil – me sinto meio repetitivo de falar isso, mas... – a coisa já foi mais democrática. E eu nem estou falando de rock. Estou falando de um milhão de gêneros realmente populares que não têm espaço na mídia, porque só tocam dois gêneros. O axé perdeu espaço, o forró perdeu espaço, o pagode perdeu espaço. O negócio é brabo. Mas até que temos rádios de rock, e a gente vai ocupando os espaços que aparecem.

Vocês escolheram uma cover, “Robot”, para promover o álbum. Você pode apresentar a música e o grupo autor da música (Salada de Frutas) e como entraram em contato com ela?
Essa música é um megahit da new wave portuguesa (assista aqui). É engraçado que, assistindo ao clipe da versão original, a gente percebe como a new wave ainda estava primitiva pra essa galera, com as pessoas ainda num visual meio hippie. A Lena D’Água, a cantora, com um cabelo que poderia ser o da Joyce, sabe? Todo mundo de barba, engraçado. Essa banda, Salada de Frutas, foi um grande sucesso. Quem me mostrou essa música foi o Edgar Raposo da loja Groovie Records de Lisboa. Ele é colecionador de discos como eu, e me mostrou os compactos da new wave brasileira. UHF, Trabalhadores do Comércio, Heróis do Mar. Aí gravamos um EP só de rock português e “Robot” se destacou bastante. Tocamos na Antena 3 e a própria Lena D’Água elogiou. Foi um barato, uma emoção.

O Autoramas completou 20 anos de carreira, justamente no período de menor exposição do rock na mídia popular brasileira. Você, que é um estudioso do rock brasileiro, que avaliação faz do pop-rock nacional no século 21, e dos espaços pra ele?
Cara, eu fui ao programa do João Gordo e a gente ficou conversando sobre isso. Para uma banda como o Autoramas, mais “alternativa”, ou mesmo os Ratos de Porão, do Gordo, uma banda punk ou independente, as coisas sempre foram do jeito que são hoje. Não mudou nada. Sempre seguindo o caminho, fazendo o som, mantendo a proposta, acreditando que aquilo pode sim, atingir muita gente, mas seguindo nosso caminho. Sempre foi preciso muita determinação, sempre foi muito difícil e hoje não é diferente. Hoje nós não temos mais a MTV – foi uma grande perda, realmente. A MTV dava muita força a bandas assim. Mas, no geral, sempre foi muito difícil, mesmo quando o rock estava em alta. Grana, investimento, mercado. É como quando ouço falar nos jornais “o investimento estrangeiro diminuiu”. Bem, pra mim não muda nada. Se a rádio parou de tocar Bon Jovi pra tocar sertanejo, tanto faz. Eu já não ouvia o Bon Jovi mesmo.

Agora, pra encerrar, o momento “Caras” da entrevista: como você e a Erika fazem para não levar problemas da banda para casa e vice-versa?
Momento Caras? Não se iluda, brou, levamos, sim, problemas da banda pra casa. É difícil isso, pra caramba. Coisas frustrantes que acontecem nos frustram como banda e também como casal. Não se iluda com isso (risos).

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