Na BR-3: Sete lições que a vida e a obra de Raul Seixas podem ensinar ao rock brasileiro de hoje
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Na BR-3: Sete lições que a vida e a obra de Raul Seixas podem ensinar ao rock brasileiro de hoje

Talvez até ajude nas vendas, mas a polêmica envolvendo “Raul Seixas – Não Diga Que a Canção Está Perdida” (Editora Todavia) atrapalha a missão de perceber o livro como ele é: um esforço jornalístico verdadeiro de organizar a caótica trajetória de Raul Seixas e entregar, como diz o texto da contracapa, “o primeiro retrato de Raul à altura de sua importância”. O episódio-bomba, de maio de 1974, no qual o cantor teria envolvido Paulo Coelho durante seu depoimento à polícia política da época, é descrito com sobriedade com o objetivo de explicar o afastamento de uma das duplas mais importantes do pop brasileiro. Não justifica nem o barulho nem a indignação dos fãs que precederam o lançamento do livro.

O que não falta nas prateleiras são livros sobre Raul Seixas. Há os que analisam os significados ocultos e ocultistas de suas músicas, há os que exibem seus objetos particulares, há os testemunhos de amigos e parceiros, há os de ficção inspirados na suas músicas, há os estudos faixa-a-faixa. O que o jornalista Jotabê Medeiros fez em “Não Diga Que a Canção Está Perdida” foi simplesmente contar a história de Raul, com a desconfiança e o bom texto que caracterizam todo grande jornalista. Começar do começo, chegar ao final e parar, como dizia Mark Twain.

Que não houvesse um livro assim sobre Raul, em parte ajuda a explicar o quão maluca foi sua trajetória, o quão sui generis seu impacto cultural e, em parte, como as coisas são no Brasil – vale lembrar que em 2009 Kika Seixas ameaçou de processo por danos morais o jornalista Edmundo Leite que trabalhava havia anos em uma biografia de Raul, antes mesmo de o livro sair.

“Não diga que a canção está perdida” desce fácil e atravessa mais de 20 anos de história se equilibrando entre o respeito e análise crítica – que, pensando bem, é fruto do respeito. Aproveitei a oportunidade de reouvir minha coleção de Raul Seixas, especialmente os imbatíveis “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista”, “Krig-há Bandolo!” e “Gita”, o estranho “Novo Aeon”, a parceria com Leno em “Vida e Obra de Johnny McCartney” e de pescar pérolas perdidas no meio dos muitos álbuns menos inspirados.

Raul é o maior nome da história do rock brasileiro, vencendo Rita Lee e Erasmo Carlos por ser um personagem tão absolutamente, melancolicamente brasileiro. Há alguns meses, encontrei João Barone, baterista dos Paralamas do Sucesso, e brinquei com ele que “Selvagem?”, o clássico dos Paralamas, não era brasileiro o suficiente porque havia sido um sucesso. Para ser rock TOTALMENTE brasileiro é preciso dar errado em tantas dimensões, ter potencial para tanto e não realizar totalmente, se estranhar em seu próprio sucesso. Por isso Raul é a coisa mais rock’n’roll que o Brasil já viu, ou, em igual medida, a coisa mais brasileira que o rock que já produziu.

E como este é um espaço dedicado ao rock nacional, queria compartilhar com vocês sete lições que “Não diga que a canção está perdida” e as muitas audições recentes da obra de Raul me despertaram:

1 – Seja excelente

Compare o som dos discos de Raul com o de qualquer outro álbum de rock brasileiro do período 1972-1975. Não tem pra ninguém. Antes de se lançar em carreira solo, Raul havia sido produtor na CBS, onde aprendeu a dominar os segredos de como “tirar” um som que não ficava devendo para nenhum disco de rock estrangeiro. Raul sabia selecionar os melhores músicos, os melhores arranjadores e entregar um produto com um nível de excelência que impressiona até hoje.

2 – Seja brasileiro

Ainda que fosse obcecado pela qualidade de som, Raul não abria mão de ser brasileiro em igual proporção. Luiz Gonzaga entrava na sua receita como os cenários do Rio de Janeiro, a macumba, o forró e a música cafona urbana da sua época. Sem contar o discurso, impossível de brotar em qualquer outro lugar do mundo que não o Brasil.

3 – Seja ROCK

Desde que pisou no palco do Festival Internacional da Canção de 1972, Raul bancou uma devastadora postura rock cheia de cinismo e enfrentamento. “Não vim aqui querendo provar nada/ Não tenho nada pra dizer também/ Só vim curtir meu roquezinho antigo/ Que não tem perigo de assustar ninguém” cantava ele, com a maior cara-de-pau. Dali a pouco já subvertia o “Obrigado, Senhor” de Roberto Carlos em “Ouro de tolo” (“eu devia estar contente pelo Senhor ter me concedido os domingos para ir com a família dar pipoca aos macacos”) e espalhando todo tipo de mensagem contra a ditadura (“Dentadura Postiça”, aliás) por suas músicas. Mesmo quando cantava baião, Raul era ROCK. Quando cantava rock, então, sai de baixo.

4 – Seja contemporâneo

Um dos bons serviços prestados por “Não diga que a canção está perdida” é lembrar de como Raul, em seu período áureo, foi sintonizado com a música de sua época. É uma lembrança necessária, especialmente para quem, como eu, se lembra de um Raul saudosista e preso a seus ídolos dos anos 50 da primeira era do rock’n’roll. Raul trabalhou o tempo todo ligadíssimo em Frank Zappa, em John Lennon (o som dos discos do ex-beatle produzidos por Phil Spector era referência clara nos discos do baiano), em Bob Dylan e em muito do que se fazia de mais ousado em sua época. Olhando para os lados, nunca para trás.

5 – Estude

Não é que Raul apenas ouvia (e eventualmente, copiava, vamos admitir) a música de sua época. Raul entendia aquilo, e tinha cultura musical enciclopédica. Em seus tempos de produtor, estava sempre sintonizado com as novidades do hit parade. Como artista solo, estudava minuciosamente a cultura pop (que ia muito além da música, mas se espalhava pelo visual, pelo marketing e pelas aparições públicas) para produzir uma obra ao mesmo tempo visceral e cerebral.

6 – Respeite o povo

Embora buscasse a excelência, embora tivesse muito conhecimento de causa, embora fosse um filho da classe média soteropolitana, Raul sabia se comunicar como poucos com o “Brasil profundo”. O fato de ele ter produzido e composto para Odair José, Jerry Adriani e Diana não explica tudo: havia algo misterioso nele que o permitia falar dos macetes do xadrez para andarilhos e depauperados.

7 – Não desista

Sempre me inquietou o fato de o primeiríssimo mega-hit de Raul, “Ouro de tolo”, ser quase uma carta de desistência (“Foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto ‘e daí?’). O livro de Jotabê Medeiros explica que houve muitas cicatrizes acumuladas antes que Raul, parasse na pista. Mas é inevitável pensar onde estaria ele, e onde estaria a música brasileira, se Raul atravessasse as décadas se reinventando e amadurecendo como Dylan. Talvez algum jovem leitor de “Não diga que a canção está perdida” assuma a missão que Raul não completou. Quem se habilita? Estamos de olhos e ouvidos bem abertos.

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