Na, na, na: por que o final de ‘Hey Jude’ é o maior momento da música pop
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Na, na, na: por que o final de ‘Hey Jude’ é o maior momento da música pop

Embora considerada cafona por alguns hereges, “Hey Jude”, escrita por Paul McCartney e lançada pelos Beatles há 50 anos, se tornou um dos mais imortais clássicos do século XX, como uma parte de nosso repertório universal, e rapidamente tornou-se claro que não havia nela nada de mero. É incrível imaginar que houve um mundo em que “Hey Jude” e seu “na na na” ainda não existiam. Em 1968 a canção foi lançada como mais um compacto dos Beatles, e já li ela foi consagrada como hino — graças a, principalmente, seu emblemático coro no final.

Originalmente intitulada “Hey Jules”, a música foi escrita como um diálogo com Julian Lennon, filho de John com sua primeira mulher, Cynthia, a fim de consolar a criança, de 5 anos na época, durante o divórcio de seus pais. Paul visitou Cynthia e seu afilhado e, no caminho, enquanto dirigia, pensando no que diria ao garoto, começou a cantarolar. Lançada como o lado A do compacto que trazia a engajada (e igualmente sensacional) “Revolution”, de Lennon, em sua outra face, “Hey Jude” viria a se tornar a música dos Beatles a ficar mais tempo no todo das paradas americanas, ocupando o primeiro lugar por nove semanas ininterruptas, com oito milhões de cópias vendidas.

Para o lançamento, os Beatles, que já não vinham se apresentando ao vivo havia dois anos, prepararam um vídeo em que a banda tocava diante de uma plateia junto de uma orquestra. Do impactante início, com o jovem Paul olhando diretamente à câmera, entoando a melodia com o título da música, até o fim, tudo no clipe tornou-se histórico, e a exibição dessa apresentação em programas de TV fez de “Hey Jude” um sucesso instantâneo. Há, porém, um momento em especial, que até hoje, nos shows que McCartney segue fazendo (inclusive no Brasil, com datas confirmadas em São Paulo e Curitiba, nos dias 26 e 30 de março), que faz de “Hey Jude” um dos grandes, se não o maior, momento da música pop: sua parte conclusiva, de longos quatro minutos; a coda que convida a plateia a entoar “na, na, na...” por 11 vezes até repetir o mote da música em uma explosão catártica e emocional.

A adesão do público da primeira vez se deu à convite da banda, com a plateia invadindo o palco para cantar, e esse convite se estende até hoje – como o mais simples dos épicos, uma canção pop memorável que, no entanto, nunca acaba: não há um show de Paul em que a multidão não cante, em lágrimas, esse final. Trata-se de um momento de sincera comunhão, mesmo em épocas tão polarizadas, em que o maior compositor popular de todos os tempos convida o mundo a se reunir em um só canto. Quase sem letra, praticamente sem palavras, com não mais que três acordes e uma melodia simples. Falando diretamente ao coração.

O fato de trazer “Revolution” em seu lado B – provavelmente a mais politizada das canções dos Beatles – parece ressaltar o sentido de tal comunhão como uma parte essencial, efetivamente política, da canção. “Hey Jude” foi lançada no auge de 1968, um dos anos mais conturbados de todo o século XX. Há algo de efetivo e emocionalmente direto (e, por isso, político no sentido micro e humano da palavra) em convidar, naquele momento da história, o mundo todo a cantar junto uma melodia, sem maiores mensagens que a própria união – transformando uma canção triste em algo melhor.

Há de ser um prazer especial, singular para um compositor, possuir em seu repertório uma peça capaz de fazer um estádio inteiro cantar junto em qualquer lugar ou época, de forma tão uníssona e natural quanto o final de “Hey Jude”. O samba tem como tradição esse tipo de refrão – em que uma melodia somente é entoada, sem letra, para que o público cante junto – mas, pelas barreiras culturais e linguísticas, lamentavelmente tal estilo não chega com tanta força ao resto do mundo.

Assim, “Hey Jude” se tornou não só um símbolo da maturidade como compositor de Paul e dos Beatles como banda, mas também esse convite perpetuamente aberto para que o mundo possa, ao menos pelos 4 minutos finais da canção, se unir irrestritamente. E o mundo vem aceitando, assimilando a afirmativa e bela mensagem que a canção oferece em suas estrofes, e, enfim, praticando o que a letra sugere, de que não carreguemos o mundo nos ombros, ao menos durante esse coro de encerramento. Forjando, em uma espécie de parceria com todo o planeta pelos últimos 50 anos, o mais impactante momento da história da música pop.

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