Na Trilha do Leão: Jim Jarmusch, um compositor de imagens
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Na Trilha do Leão: Jim Jarmusch, um compositor de imagens

Eu ainda era jovenzinho, quando assisti a “Estranhos No Paraíso” (1984) num FestRio. O filme indie, em preto e branco, do novato Jim Jarmusch, me chamou a atenção não apenas pela sua estética e trama, como também pela personagem Eva, feita por Eszter Balint. Ela fazia uma moça do Leste Europeu que vai visitar seu primo vagabundo (John Lurie), em Nova York. E, o tempo todo, ouvia “I Put A Spell On You”, na versão original de Screamin’ Jay Hawkins. O primo perguntava: “Que porra é essa?” Ao que Eva respondia: “É Screamin’ Jay Hawkins. Ele é um selvagem!”.

Assim como causou estranheza ao primo, que, apesar de americano, não conhecia SJH (que se apresentava vestido de canibal), o mesmo se deu comigo, que logo corri atrás de alguma coisa deste “selvagem”. Consegui uma fita cassete com um best of (ainda a tenho). E, o filme fez com que Hawkins saísse das trevas e voltasse a fazer shows. O que me deu a chance de, por acaso, vê-lo em Paris, em 1988. É a força de uma música numa trilha de filme. Por menor que este seja, sempre toca alguém.

Jim Jarmusch ao lado de Tilda Swinton e Selena Gomez, estrelas de ‘Os Mortos Não Morrem’ / Foto: Getty Images
Jim Jarmusch ao lado de Tilda Swinton e Selena Gomez, estrelas de ‘Os Mortos Não Morrem’ / Foto: Getty Images

Mais de 30 anos depois, Jarmusch teve sua nova obra, “Os Mortos Não Morrem” (Eszter Balint está nele!), exibida no Festival do Rio (entra em cartaz logo depois). O curioso neste — no qual ele explora, pela primeira vez, o terror com zumbis (no anterior, “Amantes Eternos”, explorou os vampiros) — é que, desde o nome original do filme até várias cenas, tudo foi desenvolvido em torno da música “The Dead Don’t Die”, uma balada country & western do cantor Sturgill Simpson. E funcionou.

Não foi a primeira vez que Jarmusch desenvolveu um filme a partir de uma música. Em 1989, ele partiu de um rockabilly de Elvis Presley, “Mistery Train”, de 1955, para criar “Trem Mistério”, que conta três histórias passadas num hotel barato em Memphis, conectadas entre si pelo espírito de Elvis. Neste, além da trilha rock, que traz duas versões da faixa-título (a outra, com o autor original, Junior Parker), há também músicas de Otis Redding (“Pain In My Heart”), Roy Orbison (“Domino”), Rufus Thomas (“The Memphis Train”) e outra com Elvis, “Blue Moon”. De quebra, arranjou um jeito de botar Screamin’ Jay Hawkins (1929 - 2000) no filme, fazendo o papel do atendente noturno do hotel!

Jim Jarmusch e Neil Young, em 1975 / Foto: Getty Images
Jim Jarmusch e Neil Young, em 1975 / Foto: Getty Images

Entre um e outro filme (não é fácil se manter como diretor independente por todos esses anos), Jarmusch trilhou a carreira paralela de diretor de clipes musicais. A lista começou, em 1986, com “The Lady Don’t Mind”, dos Talking Heads, e passou por outros nomes como Big Audio Dynamite (“Sightsee M.C!”), Tom Waits (“It’s Allright With Me!” e “I Don’t Wanna Grow Up”), Neil Young (“Dead Man”) e até os Raconteurs (um dos projetos paralelos de Jack White / White Stripes), com o primeiro hit da banda, “Steady, As She Goes”. Muitas vezes, criando clipes com cara de curtas metragens: um pouco mais longos e com uma historinha.

Desses — muitos dos quais, amigos pessoais do diretor —, Tom Waits já havia atuado num filme de Jarmusch, “Daunbailó” (1986); e, Neil Young (a quem dirigiria, em 1997, o documentário “Year Of The Horse”, sobre a fase de Young com a banda Black Horse), emprestou sua canção “Dead Man” para o título do filme “Homem Morto” (1995), estrelado por Johnny Depp. Ou seja, a música, sempre inspirou os filmes de Jarmusch e suas trilhas. E vice-versa. Ele é quase que um músico que “toca” filmes.

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