Na Trilha do Leão: Três acordes e uma verdade
Na Trilha do LEÃO

Na Trilha do Leão: Três acordes e uma verdade

Por Tom Leão

O título da coluna da semana, bem poderia se referir a alguma coisa relativa ao punk rock, não? Afinal, é praticamente o mote do punk: três acordes e atitude. E, verdade nas letras.

No caso em questão, não. Essa frase, está tatuada no braço da espevitada Rose-Lynn, a personagem principal de “Wild Rose” (que, aqui, ganhou o equivocado título de “As loucuras de Rose”; e cuja abertura, traz uma versão para “Country Girl”, do Primal Scream), uma ruiva, que vive em Glasgow, mas que adora country music. Como ela mesmo se define: é como uma pessoa trans que nasceu no corpo errado, de menino ou menina. Ela queria ter nascido americana e ser uma estrela do country raiz (que ela odeia que chamem de country & western). Como não nasceu, canta num arremedo escocês do Grand Ole Opry, em Glasgow, sonhando um dia ir brilhar em Nashville, meca do estilo – e onde se encontra o Ole Opry original, por onde já passaram Johnny Cash, Patsy Cline e tantos nomes imortais da cultura country.

Enquanto isso não acontece, Rose-Lynn (interpretada com garra e paixão pela irlandesa Jessie Buckley, que conhecemos na série “Chernobyl”, da HBO, a única coisa bonita no meio daquele mundo cinza e feio), a ruiva, recém-saída da prisão - após um ano em cana, por um mole que deu na vida -, ganha uns trocados como diarista. O bastante apenas para (mal) se sustentar e aos dois filhos pequenos, de pai(s) ausente(s): um casal, com nome de astros do country Lyle (Lovett) e Wynonna (Judds). Ela, tem apenas 23 anos.

A posição de Rose-Lynn, uma escocesa fissurada em country (diz ser a única no UK que entende do estilo!) é curiosa. Quantas vezes, nós não quisemos ou sonhamos em ser alguém, sobretudo na música, muito diferente de nossas realidades? Eu, gótico aos 18, me sentia totalmente deslocado no quente Rio de Janeiro (ainda bem que existia o Crepúsculo de Cubatão). Em São Paulo, ainda enganava. Mas, sonhava com Londres (ou Manchester, terra do Joy Division). É como os japoneses que criam escolas de samba. Ou show de “mulatas” alemãs (louras vestidas a caráter). Soa fora do lugar. Mas, se você acredita naquilo com fé, não interessa o lugar onde viva. É a sua verdade.

E, verdade, é o que sai tanto da boca da personagem, quanto da atriz que faz Rose-Lynn. A atriz Jessie Buckley, é uma irlandesa que tirou segundo lugar, como cantora, num concurso de talentos da BBC, o “I’ll do Anything” (tipo um "se vira nos trinta" britânico). Então, tudo o que você ouve saindo de sua boca, é verdade. Não é voice over. Jessie canta pra caráter! O que a fez acabar num musical no West End (a Broadway londrina), “A Little Night Music”, de Stephen Sondheim. E, depois, seguir a carreira de atriz. Muito do que ela passou, está, de certo modo, em Rose-Lynn.

Além dos perrengues da personagem, tão deslocada na Escócia por gostar de country quanto o jovem paquistanês de “Blinded By the Light” (vide coluna anterior), por gostar de Bruce Springsteen, “Wild Rose” dá um toque essencial para quem curte um determinado gênero musical, mas vive num lugar que não combina: seja você mesmo. Assim como Springsteen cantava as suas verdades (de filho da classe proletária de New Jersey/EUA), a rosa selvagem só desabrocha, quando passa a fazer o mesmo. E, não precisa estar em Nashville para isso. É aquele papo do “pense global, aja local” vertido para o mundo da música.

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