Na Trilha do Leão: Um mundo sem Beatles — e sem Bowie?!?
Na Trilha do LEÃO

Na Trilha do Leão: Um mundo sem Beatles — e sem Bowie?!?

Por Tom Leão

O novo filme de Danny Boyle (“Trainspotting”), o romântico “Yesterday” (em cartaz no Brasil), traz uma questão muito interessante, do tipo “por que nunca ninguém pensou nisso antes?”.

A mola-mestra da trama do filme é: e se os Beatles jamais tivessem existido? Por uma magia do roteiro, isso acontece. Apagão misterioso deixa o mundo nas trevas por 12 segundos e, quando a energia volta, muitas coisas deixaram de existir, entre elas, os quatro fabulosos cabeludos de Liverpool!

Tal evento muda a vida de um músico medíocre, Jack Malick, que, ao descobrir que ninguém conhece nada dos Beatles, começa a gravar as músicas desses como se dele fossem. É claro que, logo vira uma celebridade (com ajuda de Ed Sheeran!, que se autoparodia, na boa). No decorrer da trama, ele vai notando outras coisas que também não existem naquela realidade. Como a Coca-Cola (só tem Pepsi!) e cigarros, entre as mais notáveis. E, bandas que devem muito aos Beatles, como Oasis, também nunca se formaram. É quase um misto de “Twilight Zone” com “Black Mirror”.

A gente sai do filme pensando em vários tipos de “e se” musicais. O que me veio à cabeça, de imediato, foi pensar num mundo sem David Bowie. Se o inglês, nascido David Jones (que mudou de nome por conta de David Jones, dos Monkees, que estavam bem famosos no final dos anos 60), não tivesse existido, quase todas as bandas do post-punk britânico não teriam visto a luz do dia. A começar do Warsaw (depois, Joy Division, e, mais adiante, New Order), como vemos na própria biografia (e na cinebio) de Ian Curtis, “Control” e em “A Festa nunca Termina” (“24 Hour Party People”).

Ao sair de um show de Bowie, na fase Ziggy, Ian resolve montar uma banda. Ele e quase todo mundo do movimento neo romântico e techno-pop: do Visage a Gary Numan, de Adam Ant a Duran Duran, chegando aos mais contemporâneos The Killers e Arcade Fire (este, conseguiu contar com Bowie, no disco “Reflektor”, de 2013). O que tem de citação do Bowie por toda a parte nem dá para listar aqui. E só aumenta.

Em ‘Yesterday’, bandas contemporâneas dos Beatles, como os Rolling Stones, continuam rolando. Bowie, também. E, pelos posters no quarto de Malick, vimos que ele curte a pequena The Frattelis (usa até uma camiseta), Killers e a vanguardista Radiohead.

Mas, não existiu mais ninguém no Reino Unido que tenha composto letras e músicas tão bacanas quanto Bowie ou Lennon & McCartney? Mais para o final de "Yesterday", um personagem secundário, o produtor Gavin, cita “Common People” , do Pulp, como uma das melhores letras de todos os tempos. E, tem toda a razão. A música, que faz parte do magnífico álbum "A different class" (1995), é uma das melhores letras dos últimos tempos, criação do caixa d'óculos Jarvis Cocker. No disco em questão, Jarvis pintou um dos mais completos painéis da Britannia. Sendo “Common People” , a síntese da diferença de classes que lá existe.

Mas, caso John Winston Lennon não tivesse cruzado um dia com James Paul McCartney, e com ele montado a banda que se chamaria The Beatles (a princípio, ambos foram dos Quarrymen, ainda sem Ringo, mas já com George), provavelmente teríamos um Lennon solo ou com outros parceiros. Teria o mesmo êxito que teve com Macca? Ou, talvez, como o filme sugere, este tivesse seguido a carreira de seu pai, virado marinheiro mercante, e, pelo lado bom, ainda estaria vivo. Mas, nós, não teríamos suas magníficas canções.

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