Na trilha do Tri de 70: há 50 anos, Simonal, Chico Buarque, Elis, Tim Maia e Milton jogaram por música também
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Na trilha do Tri de 70: há 50 anos, Simonal, Chico Buarque, Elis, Tim Maia e Milton jogaram por música também

Há 50 anos, em 3 de junho de 1970, a seleção brasileira começava no México sua conquista mais festejada: o tricampeonato em Copas do Mundo. Além de ser a culminância de uma era de ouro do futebol brasileiro, com Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivelino, Gérson e outros monstros sagrados, a vitória e suas comemorações deixaram claro que vivia-se no país um período abençoado por uma geração de craques da música popular.

A trilha do tri, com as canções que embalaram a campanha e as festas em todo o país, joga o fino, como se dizia na época: Wilson Simonal (1938-2000) no auge, Jorge Ben inspiradíssimo, Roberto Carlos em sua provável melhor fase; Elis Regina (1945-1982) e Milton Nascimento em viradas transformadoras, Tim Maia surgindo como revelação do ano, e, no samba, a consolidação de dois gigantes, Paulinho da Viola e Martinho da Vila, junto ao grande público.

Pelé levanta a Jules Rimet no México em 1970: geração de ouro no futebol e na música/ Foto:  Horstmüller (Getty Images)
Pelé levanta a Jules Rimet no México em 1970: geração de ouro no futebol e na música/ Foto: Horstmüller (Getty Images)

Havia um vácuo a ser preenchido — com um sarrafo altíssimo, é verdade — mas foi o que aconteceu. Tom Jobim tinha ido morar nos EUA, João Gilberto estava no México e o tropicalismo havia sido duramente solavancado por prisões. A perseguição política obrigou Gilberto Gil e Caetano Veloso a trocar o Rio de Janeiro por Londres, mas, no rádio, ao menos, a ausência do primeiro não foi tão sentida: “Aquele Abraço”, um dos maiores sucessos de 1969, animou festas até de quem tentava torcer contra a seleção para não fortalecer o governo militar. Chico Buarque interrompeu apenas por alguns meses o autoexílio na Itália. Chegou em 20 de março, fazendo estardalhaço na mídia, conforme conselho do amigo Vinicius de Moraes (1913-1980), para evitar prisão ou ação violenta por parte da ditadura. Aos 25 anos, Chico Buarque já era Chico Buarque.

Gravou e lançou “Apesar De Você” (em compacto simples, com “Desalento” no lado B), dando seu recado político esfarrapadamente disfarçado de recalque amoroso. Fez shows com o MPB-4 na Sucata, boate de Ricardo Amaral na Lagoa, no Rio de Janeiro, gravou especiais de TV e se mandou dias após o tricampeonato, ainda em junho. Tinha discos a gravar, por contrato, em Roma.

“Apesar De Você” embalou comemorações, grudou, empolgou, tocou no rádio e vendeu bem, fontes citam 80, 100 mil cópias. Até que, em fevereiro de 1971, uma inocente menção em texto de Sebastião Nery para a “Tribuna Da Imprensa” (em que dizia que seu filhos e os colegas dele cantavam “Apesar de Você” como se fosse o hino nacional) fez cair a ficha para a censura. Deu Exército na fábrica da gravadora Philips, no Alto da Boa Vista, recolhimento do disco em todas as lojas, até o censor que havia papado a mosca foi punido. E o samba, que a essa altura já havia sido regravado por Clara Nunes, passou sete anos proibidão. Mas em 1970, representou, como definiu Nelson Motta no livro “Noites Tropicais”, “a nossa resposta” ao ufanismo pró-ditadura que tomou conta das rádios, sintetizado na marchinha “Eu Te Amo, Meu Brasil”, gravada pelos Incríveis e composta por Dom, da dupla de irmãos cearenses Dom e Ravel.

Naqueles dias, havia um ídolo musical capaz de unir todas as tribos e facções políticas (ou quase isso): esse "Norvana" era Wilson Simonal, que em 1970 frequentava com a mesma desenvoltura o Antonio’s, no Leblon, onde intelectuais de esquerda trocavam o suposto ouro de Moscou por doses de uísque escocês, e bibocas menos famosas onde bebiam meganhas e agentes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social). Amado como cantor e como entertainer por brasileiros de todas as classes sociais, ele só cairia em desgraça no ano seguinte, quando foi adesivado à fama de dedo-duro a serviço do regime militar. Em junho, porém, Wilson Simonal estava na concentração da seleção brasileira em Guanajuato, no México, tocando para seu amigo Pelé e os outros irmãozinhos. Até mesmo quando ele não estava por perto, nas rodas de samba do grupo, com Jairzinho no pandeiro e Brito no surdo, o repertório tinha que incluir vários de seus hits.

O maior deles, e provavelmente a música que mais tocou em todas as celebrações do tri, em lugares públicos ou privados, era “País Tropical”. No ano anterior, Wilson Simonal tinha recebido de Jorge Ben um presente originalmente destinado a Gal Costa: a música, com direito à brincadeira com a supressão das últimas sílabas, o “pa tropi”, totalmente adequada aos sagrados dotes presepeiros de Simonal. Gal gravou pouco depois, com participação e intervenções de Gil e Caetano, sem o mesmo charme. E mesmo a versão do autor, Jorge Ben, inicialmente não foi páreo para a gravação de Simonal com arranjo de César Camargo Mariano.

Simonal aproveitou a estadia no México para lançar um disco exclusivo para o mercado do país, então atravessando uma onda colonizadora da música brasileira — João Gilberto, Carlos Lyra, Pery Ribeiro e o grupo Vox Populi eram alguns dos que moravam por lá na época. O LP, chamado “México 70”, abria com “Aqui É O País do Futebol”, balanço que o jovem Milton Nascimento, então com 27 anos, havia composto com Fernando Brant para o filme “Tostão, a Fera de Ouro” (o filme, uma joia, está disponível no YouTube).

Depois de despontar como grande nome da música brasileira, Milton Nascimento corria o risco de ficar mais conhecido no exterior do que no Brasil. Ainda havia quem o visse grosseiramente como cantor de um sucesso só, “Travessia”. Influenciado pelo empresário José Mynssen e pelo ambiente jovem da época, Milton optou por se repaginar com o apoio de um grupo de rock que viria a ser mítico, Som Imaginário. E foi assim que se viu cercado por seu trio de jazz (Wagner Tiso, Luis Alves e Robertinho Silva), um roqueiro com impulsos progressivos, Fredera, e os ecléticos Zé Rodrix e Tavito, lotando o Teatro da Praia, em Copacabana, por quatro meses direto (depois de estrear no Opinião). Milton Nascimento não chegou a aderir ao desbunde (apesar de usar figurinos descritos como “berrantes”, fornecidos por um semianônimo Ney Matogrosso), mas mudou sua rota definitivamente ali.

Três dias depois do tri, em 24 de junho, a nova jogada de Wilson Simonal chegou aos cinemas: “É Simonal”, dirigido por Domingos de Oliveira. Não deu liga, desgastou a imagem do cantor e, pior, bateu de frente com “Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa”, o blockbuster do ano no Brasil. O filme dirigido por Roberto Farias abria com “As Curvas Da Estrada De Santos”, canção que quase toda a MPB andou traçando em 1970, e terminava catarticamente com o trio de ouro da Jovem Guarda (Roberto, Erasmo Carlos e Wanderlea) cantando junto “É Preciso Saber Viver”. Duas músicas que já estavam na boca e no coração do povo desde o fim de 1969.

“Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa” também tinha praticamente um clipe com o Rei cantando “Não Vou Ficar”, de um cantor e compositor carioca que terminaria 1970 como revelação do ano: Tim Maia.

Nem tão jovem assim, aos 28 anos, Tim Maia ficou nacionalmente famoso com o compacto “Primavera”. A influência da soul music, citada pela imprensa da época ingenuamente como o “som do momento” (que contaminava até o som da MPB de festivais universitários, como se veria no trabalho de Ivan Lins, por exemplo), já estava sendo incorporada por quase todos os lados da MPB. Mas ele era o cara certo na hora mais do que certa. O álbum de estreia, “Tim Maia”, estouraria no segundo semestre, puxado também por “Azul Da Cor Do Mar” e “Coroné Antonio Bento”.

Nelson Motta apadrinhou e botou Tim na fita das novelas da TV Globo. Para entrar em “Irmãos Coragem”, o cantor até topou transformar sua “Padre Cícero” em “João Coragem”. A atuação de Nelson como produtor de Elis Regina, arrolando repertório para “Em Pleno Verão”, foi fundamental, dizem, para que o álbum de Tim recebesse o empurrão devido da gravadora. Ao ouvir “These Are The Songs”, em encontro para avaliar sua produção como compositor, ela o puxou para gravar a música com ela. E esse dueto fez o mercado ficar bem esperto para o talento de Tim. Nada de geladeira ou esperas estratégicas.

Mas o disco de Elis estourou, antes da Copa do Mundo, graças a uma composição de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, “Vou Deitar E Rolar (Quaquaraquaqua)”, uma espécie de recado esculachado para um ex.

No fim do ano, Elis deixava para trás o relacionamento com Ronaldo Bôscoli, com quem havia começado o movimento de transição, no começo do ano, no Canecão. Ainda casada, havia estreado no Canecão em 2 de abril, grávida de seis meses (um ano e meio antes da polêmica aparição da barriga de Leila Diniz em Ipanema), desafiando tabus, em um show assinado por Bôscoli e Miéle, com direção musical de Erlon Chaves. “Mudei porque sou livre e tive alternativa. Porque não quero cantar para grupinhos”, anunciava Elis, no palco. A sensação do repertório durante a temporada já tinha sido “Vou Deitar E Rolar” (conhecida antes com Baden Powell), junto com “Bicho Do Mato”, pérola de Jorge Ben, que na MPB era unanimidade inteligente.

Mas isso é uma outra história. Na quinta-feira 11/6, publicaremos a segunda parte de Na Trilha do Tri, falando sobre os bambas que souberam ocupar seu espaço no campo aberto pelos deslocamentos da música brasileira em 1970: os craques Jorge Ben, Paulinho da Viola e Martinho da Vila.

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