Nando Reis: cantor, compositor e... youtuber: ‘Não faria nada disso se não enxergasse a pessoa que sou’
Na BR-3

Nando Reis: cantor, compositor e... youtuber: ‘Não faria nada disso se não enxergasse a pessoa que sou’

Vocês já devem ter reparado que o que nós chamávamos de “indústria da música” se transformou em guerra de likes e seguidores nas redes sociais entre fãs da Anitta e de Pabllo Vittar. As rádios de rock e de MPB estão petrificadas em algum lugar do passado; as rádios populares, dominadas pelos artistas do agronegócio, e mesmo os “sucessos de crítica” são difíceis de rastrear em um universo sem imprensa de música profissional — estão pulverizados entre centenas de pequenos podcasts, canais e blogs. No meio desse cenário, o que faz um cantor e compositor de 57 anos surgido na efervescência da moda do rock brasileiro dos anos 1980 e celebrizado por dezenas de hits urdidos no violão de cordas de aço, encadeando estrofe e refrão após estrofe e refrão?

Nando Reis criou um canal de vídeos no YouTube que já soma mais de meio milhão de inscritos, no qual ele posta clipes oficiais e extra-oficiais, causos, poemas e histórias por trás de suas canções mais famosas (e obscuras também). O último vídeo, por exemplo, conta a história por trás de “Sutilmente”, parceria com Samuel Rosa gravada pelo Skank. Confira:

Nando — assim como todos os seus colegas vindos dos Titãs — sempre curtiu o universo cultural em torno da música: filmes, biografias e entrevistas. Apesar da relação nem sempre amigável com a imprensa, sempre soube entregar histórias saborosas e interessantes. Em seu canal, isso fica muito claro, em vídeos que conseguem equilibrar detalhes dos bastidores, revelações de sua intimidade e questões musicais e técnicas, de forma muito cool. Você sabe quando a coisa é um fenômeno quando lê os comentários dos fãs e, em vez de críticas ao Bolsonaro ou ofensas ao PT, há histórias de vida e de amor à música tão saborosas quanto.

Conversei com Nando a respeito de sua faceta youtuber e sobre os espaços para falar de música nos dias de hoje:

Hoje os artistas são seus próprios veículos de comunicação. Você sempre foi um leitor de revistas de música e já confessou que gosta da experiência de ser confrontado em uma entrevista. Você sente falta de uma imprensa profissional especializada em música como a que tínhamos no Brasil nos anos 1980 e 1990?
Eu não sinto falta exatamente porque não dá pra sentir falta de algo que nunca existiu. Obviamente, estou fazendo uma generalização aqui, mas serve como análise. Em grande parte, mesmo a imprensa dita especializada, ou a dos cadernos culturais sempre foi pouco analítica e muito mais próxima ao colunismo social. Eu gostaria que existisse algo como o que vejo em algumas revistas estrangeiras que assino, mas eu nunca vi nada próximo a isso no Brasil – e não estou aqui dizendo que “os americanos são muito melhores” ou “os ingleses são muito melhores”. Estou dizendo que, pelo menos nos anos 1980 e 90, quando a imprensa musical brasileira tinha algum impacto, foram raros os jornalistas que não enveredaram por esse caminho do ataque pessoal aos artistas ou das preferências pessoais das patotas ou da ideia estúpida de que os que se tornam populares “se renderam ao mercado”, enfim.

Muitos artistas têm canais no YouTube, mas o seu parece ter um projeto editorial muito claro, com as diferentes séries de vídeos e boas ideias, como a história por trás das músicas e equipamentos. Parece uma revista mesmo. A ideia de fazê-lo assim foi sua?
Não exatamente minha. As duas pessoas com quem eu trabalhei desde o início desse projeto, cuidando da parte digital — com uma delas, a Carol Siqueira, ainda trabalho —, sempre me incentivaram muito e estavam muito mais atentas a esses tentáculos de comunicação do que eu mesmo. No início havia uma dificuldade de entender o formato, e de como eu poderia me colocar dentro de modo espontâneo, autêntico, e me apropriar dessa linguagem — porque é de linguagem que isso se trata. E isso aconteceu gradativamente, por experimentação, fazendo. Até porque elas sempre me alertaram que uma das coisas fundamentais era a regularidade com que as coisas seriam publicadas, especialmente no canal do YouTube. Então na verdade tudo, incluindo as pautas aconteceram assim, por tentativas e descobertas. Nunca houve nada tão calculado.

Você parece muito à vontade apresentando seus vídeos, tanto como personagem das histórias como mestre de cerimônias. Quando você percebeu que estava funcionando como host do seu próprio canal?
Percebi quando vi que estava à vontade, curtindo fazer os vídeos. Porque um dos meus parâmetros mais importantes para decidir publicar alguma coisa é me reconhecer nela como aquilo que sou, seja na música que faço, nos stories que publico, nas legendas dos posts do Instagram ou na forma como apresento e conto as histórias do meu canal. Não faria nada disso se não enxergasse a pessoa que sou, um homem que desenvolve um trabalho com a linguagem.

Você sempre foi um compositor daqueles “em busca da canção perfeita”, como diz. Também já foi chamado (e cobrado, imagino) de hitmaker. Mas hoje o mainstream tem mais a ver com a quantidade de seguidores nas redes sociais e com a performance nas plataformas de streaming do que com a fidelização do público. Como você se sente no atual cenário da música pop brasileira?
Como sempre me senti: procurando o meu lugar, ficando, ampliando o meu lugar a partir da maneira como penso até o ponto em que me sinta à vontade ocupar. E de um modo geral sempre fui meio gauche, meio estranho. Os Titãs desde que surgiram criaram um impacto de estranheza que tinha a ver com a originalidade de sua linguagem. Da mesma forma, sou eu na minha trajetória como músico, como compositor, como artista e agora como youtuber (risos). Eu sempre lidei com essa forma de atuar dentro do cenário, do mercado mesmo, nas suas mídias. Em algumas eu avancei, em outras recuei — como quando escrevia artigos sobre futebol em um jornal e cheguei à conclusão de que preferia despender aquela energia para outras coisas que me interessassem mais. Então não costumo fazer essas comparações entre períodos. Inclusive porque quando olho para minha própria geração, a dos anos 1980, vejo várias bandas que faziam música tão diversa e que pretendiam se colocar de um jeito tão distinto, mas que no final parece idêntico ao que há hoje, com essa diversidade tão grande. Não me comparo nem faço análises de valor, mas obviamente tem aquilo por que me interesso e aquilo do qual eu passo ao largo. Mas de um modo geral eu desejo a todos boa sorte. Sinceramente.

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest