'Não Para Não': Rodrigo Gorky, o mentor de Pabllo Vittar
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'Não Para Não': Rodrigo Gorky, o mentor de Pabllo Vittar

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Por mais que a energia, a voz e a presença do furacão Pabllo Vittar, que chegou com seu segundo disco "Não Para Não" às plataformas digitais nessa quinta-feira (ouça abaixo), seja essencialmente do maior fenômeno gay da história do Brasil, ela conta com um mentor e maestro. O DJ e produtor Rodrigo Gorky experimentou possibilidades pop em muitos trabalhos que quando trabalhou com grupos como Bonde do Rolê e Banda Uó e agora coloca em prática na musa drag que conquistou os corações dos brasileiros.

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“Não gosto de dizer que fui eu que descobri Pabllo porque ela já tinha um trabalho anterior em Uberlândia (interior de Minas Gerais, terra-natal do ícone). Mas tudo que vocês ouviram dela foi produzido por mim”, conta o produtor gaúcho criado no Rio de Janeiro, que faz questão de tirar qualquer romantismo do momento em que a conheceu: “Conheci pelo Instagram, vi o potencial e a chamei pra trabalhar”, explica.

Em pouco tempo, ele produziu um EP, lançado no final de 2015, depois o primeiro álbum da cantora ("Vai Passar Mal", do ano passado), e viu sua carreira catapultar. “O que mais me impressionou foi a rapidez disso tudo”, explica em entrevista ao Reverb por telefone. “A gente tinha vontade de fazer umas músicas, para fazer um barulho e conseguir rodar com o show. Mas desde a primeira música foi indo muito mais rápido e crescendo muito mais do que a gente imaginou.”

Os números falam por si — são quase dois milhões de fãs no Facebook, quase cinco milhões de no YouTube, 700 mil seguidores no Twitter, três milhões de ouvintes no Spotify e mais de sete milhões de seguidores no Instagram. Gorky não cria teorias para justificar o fenômeno. “É muito simpes: oferta e demanda. Eu sentia falta de um artista como Pabllo no meio artístico brasileiro porque estava rolando uma coisa muito forte com "Ru Paul’s Drag Race", por exemplo. Esse mercado estava crescendo e não existiam artistas para tocar nessas festas. Desde a época do Bonde eu já percebia isso. Eram baladas que precisavam ter artistas e não tinha. O começo da Pabllo era isso: vamos suprir essa demanda com um artista muito legal. Virou uma coisa gigantesca, muito maior do que a gente imaginava”

Rodrigo Gorky, à direita, com Pabllo Vittar / Reprodução
Rodrigo Gorky, à direita, com Pabllo Vittar / Reprodução
E isso é outro ponto importante: a gente nunca fez nada pensando em atingir um grande público, mas só pensando o que a gente gostaria de ouvir numa balada e ver num artista

A fórmula do sucesso, no entanto, vem da brasilidade da artista, que nasceu no Maranhão, morou no Pará e no interior de São Paulo, antes de se estabelecer em Uberlândia. “Não sou eu. É Pabllo. Eu posso ser o produtor com os meninos do Brabo, mas quem vai cantar todas essas músicas todo fim de semana é Pabllo”, explica. “Então precisamos ver o que ela gosta, pra que lado a gente vai, sempre tentando experimentar”.

“E isso é outro ponto importante: a gente nunca fez nada pensando em atingir um grande público, mas só pensando no que a gente gostaria de ouvir numa balada e ver num artista. Tem umas coisas que são extremamente não-pop para o mercado brasileiro, mas que a gente forçou tanto que virou uma coisa comum, como misturar essas coisas de arrocha com pop gringo… Tinha alguma coisa que faltava”, continua. “Essa coisa do k-pop, de ter mais de um gênero dentro de cada música, de serem músicas curtas. As músicas são curtas porque você consegue passar a mensagem e o sentimento em dois minutos e meio, você não precisa de quatro minutos. O melhor exemplo disso é o "Commercial Album", dos Residents, cujas músicas só têm introdução, verso e refrão. É por isso que a gente quer misturar tantos ritmos em uma coisa só pra não perder o interesse”.

E para isso Gorky enfatizou os aspectos mais brasileiros desta musicalidade, principalmente no segundo disco, Não Para Não. “O primeiro disco era muito mais solto, era meio ‘vamos fazer música pop e misturar com música brasileira’. Nesse a gente focou muito no Pabllo, perguntando sobre as influências, o que ele ouvia quando era mais novo. As influências são Companhia do Calipso — não é Banda Calypso! —, Banda Raveli, bandas de tecnobrega, Solange Almeida, cantoras nordestinas... É uma coisa muito mais Norte e Nordeste”.

Pabllo Vittar em foto de divulgação do disco 'Não Para Não'
Pabllo Vittar em foto de divulgação do disco 'Não Para Não'
Pabllo só por existir já é um pensamento político: uma drag queen que está na TV, que as avós das pessoas assistem, de quem as crianças são muito fãs (...). A gente quer emanar amor e união e não ódio e desunião

O sotaque brasileiro foi crucial nesta construção musical. “Esteticamente falando, as influências são de coisas mais pop — Beyoncé, Rihanna —, mas tem uma coisa que eu sempre falo é que tem que ser brasileiro. Porque se não tem essa brasilidade… O povo lá de fora já faz isso, você vai ser mais um? Tem que fazer algo novo pro que você faz. Foi muito legal trazer essas influências, coisas que as pessoas evitam falar, que não gostam de falar de tecnobrega, de calipso, de forró… A gente pensa o contrário disso. A gente gosta de coisas de fora e trazer a brasilidade”.

Fundador do trio curitibano de funk carioca Bonde do Rolê, Gorky não está sozinho nessa. Lidera o Brabo Music Team, grupo com cinco produtores que ajuda a moldar a sonoridade de Pabllo. Além dele, o time conta com o DJ Maffalda, Pablo Bispo (que já fez músicas pra Anitta, Iza, Preta Gil e Cleo Pires), Arthur Marques (da banda indie capixaba Mickey Gang) e Zebu. “Eu tenho meu background indie, o outro fã do Skrillex, o outro fã do Flume… A gente tem idades diferentes, cabeças diferentes e é por isso que sai essa confusão toda”, continua Gorky, reforçando que “todo mundo dá pitaco em tudo”. Além dos cinco, o novo disco ainda conta com participações de Alice Caymmi, do produtor norte-americano Diplo e o Rafa Dias, do grupo baiano ÀTTØØXXÁ, que Gorky considera uma das melhores coisas da música brasileira atual.

Ele cita outras referências que usa para guiar Pabllo: Charli XCX, Sophi, o pessoal da PC Music, Kali Uchis… "São pessoas que pegam essas músicas pop e tentam ir para a frente em vez de seguir tendências”, continua. “Esse é o nosso principal trabalho: sempre estar na frente, com erros e acertos, sempre tentando empurrar mais. Se fôssemos trabalhar apenas comercialmente, nunca teríamos feitos os discos que fizemos. Seria muito fácil repetir a fórmula do primeiro no segundo disco”. 

Mas em casa, Gorky só escuta coisa velha. “Tem um cara chamado Laraaji, que teve uma fita que ele lançou nos anos 1980 e que saiu agora em disco, que é maravilhoso, é meio um Arthur Russell tocado num Casiotone — literalmente, é um MT-70. Estou obcecado com esse disco”, revela.

E mesmo cavalgando um fenômeno gigantesco, Gorky não consegue entender o que o público brasileiro gosta de ouvir. “Acredito que o Brasil é um país romântico e também com muita sofrência”, conta. “Pabllo só por existir já é um pensamento político: uma drag queen que está na TV, que as avós das pessoas assistem, de quem as crianças são muito fãs”, comenta. “Só isso já é um tapa na cara, é um statement político. Mesmo não sendo ainda mais a fundo como a Linn da Quebrada, por exemplo, Pabllo segura uma onda gigantesca com isso. E tá lá, dando a cara a tapa todo dia. Acho que assim a gente ajuda muito a contribuir com essa antítese desse pensamento ruim. A gente quer emanar amor e união e não ódio e desunião”.

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