Baco fala sobre seu ‘Bacanal’, racismo no ‘BBB’ e pandemia: ‘Vai ser genocídio das comunidades negras’
Entrevista

Baco fala sobre seu ‘Bacanal’, racismo no ‘BBB’ e pandemia: ‘Vai ser genocídio das comunidades negras’

Um bacanal não parece ideia das mais razoáveis em tempos de coronavírus e isolamento social. Baco Exu do Blues, o rapper com a mesma alcunha do deus celebrado nos rituais religiosos da Roma Antiga, resolveu passar o recado provocador ao lançar o EP “Não Tem Bacanal na Quarentena”, na última terça-feira. Ao mesmo tempo, fala sério comentando os riscos da pandemia:"Quando a parada estourar de verdade, vai ser genocídio das comunidades negras".

Com nove músicas, o disco poderia ser chamado de álbum, mas Baco não gosta do título. “Eu fiz em muito pouco tempo e meus álbuns pedem que eu trabalhe mais neles. Tudo que eu já chamei de álbum até agora levou tempo”, explica, em entrevista por telefone ao Reverb.

Inspiração: a capa de ‘Não Tem Bacanal Na Quarentena’, de Baco Exu do Blues, e a do álbum ‘Ready To Die’, de Notorious B.I.G. / Foto: Reprodução
Inspiração: a capa de ‘Não Tem Bacanal Na Quarentena’, de Baco Exu do Blues, e a do álbum ‘Ready To Die’, de Notorious B.I.G. / Foto: Reprodução

Leia a entrevista completa:

Por que chamar de EP e não de álbum?
Porque eu fiz em muito pouco tempo. Os meus álbuns geralmente eles pedem mais coisa. Eles pedem que eu trabalhe mais neles. Tudo que eu já chamei de álbum até agora levou tempo e foi muito trabalhado. Tem a ver com o sentimento, eu fiz a parada em três dias. Eu levo álbum muito a sério.

Como foi a logística de montar o estúdio da sua casa?
Eu estava ficando maluco sem fazer nada. Antes de rolar a parada da quarentena, eu já estava machucado, então já estava sem sair de casa. Aí eu chamei meu amigo lá de Salvador, que é engenheiro de som e produtor, para ele vir e montar o estúdio. Ele topou, gravamos as músicas e foi isso. Levou um dia para montar e três dias gravando. A gente pegou um computador, duas caixas, uma placa de som e fizemos.

A capa faz referência ao ‘Ready To Die’ do Notorious B.I.G.. Qual é a sua história com esse álbum?
Para mim, esse é um dos melhores álbuns já produzidos dentro do hip-hop. Eu ouvi pela primeira vez quando era bem jovem, acho que um primo meu estava ouvindo e eu comecei a escutar também com “Big Poppa”. Isso eu devia ter uns 12 ou 13 anos. Ele é um clássico. A tradução do nome é “pronto para morrer”. Se você vir a forma como a gente está colocando o urso com máscara, com gel, significa que ele não está pronto para morrer. É meio que uma brincadeira.

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Muita gente que tem histórico de depressão e de ansiedade têm conversado sobre os riscos que essa quarentena traz. Você tem sentido isso de alguma forma?
Sim, esse é um dos motivos de eu não ter parado de produzir até agora. Eu ainda não soltei a parada mas continuo produzindo música e continuo gravando aqui, não parei. Acho que tem a ver com isso. Eu não queria lançar mais nada agora, porque os meus lançamentos em si me fazem mal para ansiedade. Eu acho que vou dar um tempo até lançar o “Bacanal” e depois do “Bacanal” eu também não sei quando (vou lançar outras músicas). A minha parada mesmo talvez seja fazer música e nem sempre externar, mas só fazer a parada.

O Bacanal ainda vai sair? O lançamento desse EP muda algo nesse sentido?
Sim, sim, vai sair. Não muda nada de forma alguma. Esse material foi para divertimento, é uma brincadeira. Não tem como isso mudar o meu trabalho anual.

Qual era seu objetivo com o EP? Que tipo de mensagem você queria passar?
Eu não estava querendo passar nada, só queria falar sobre as coisas que me agoniavam nesse período, saca? Óbvio que a própria agonia faz com que as pessoas se identifiquem e passe isso para elas. Mas é muito mais um desabafo. Era um relato do que estava preso na minha cabeça nessa quarentena. É como se fosse uma fotografia dos meus pensamentos nesse momento difícil.

Muita gente no Twitter criticou o excesso de referências sexuais no álbum. O que você achou disso?
Eu acho idiotice por um milhão de motivos, mas o motivo principal é porque, se você abre o disco, deve ter três músicas falando de sexo, não é um bagulho tipo… Eu não sei explicar. Eu acho que na real é um “rancinho” das pessoas, um "rancinho" chato. Tem essa parada de que o “black Twitter” (como é chamado o universo dos usuários negros na rede social) às vezes passa dos limites, saca? Tipo, essa parada de cancelar, essa parada de quando pega “rancinho”. Quando é “cool” não gostar de uma pessoa. Quando você se torna mais interessante por falar de tal pessoa e só por isso você se torna mais inteligente, mais relevante. Porque na real é um compilado de faixas que, para nove faixas, você olhar a caneta que tem nesse disco, para três dias é um bagulho muito doido. É um bagulho muito doido você chegar nesse nível de escrita nesse tempo. Talvez nem eu esperasse que acontecesse isso, saca?

Alguma dessas músicas você já havia rascunhado antes desses três dias de produção?
A número dois (“Tudo Vai Dar Certo”) eu já tinha começado antes. Mesmo assim, você fazer sete músicas em um período de três dias ainda continua sendo uma parada muito absurda. As pessoas não se colocam nesse lugar de tipo: “caralho, que foda, o moleque conseguiu fazer algo consistente, bem escrito em três dias”. Mas eu aprendi uma parada que o Twitter é uma bolha, saca? A gente olha para o Twitter e acha que é uma parada muito grandiosa quando vê três mil pessoas comentando uma parada, mas aí quando você vai ver no geral, o alcance do trampo e como isso chega nas pessoas e a positividade que as pessoas estão colocando nisso é completamente diferente. A diferença é que é muito mais fácil a galera comentar sobre algo quando quer explorar o negativo do que quando é algo positivo, saca? Geralmente quem gosta, só gosta e está curtindo ali a parada.

Por todo meu histórico depressivo e de ansiedade, quando chega nesse momento das pessoas estarem descascando e eu saber que elas estão descascando a minha música e tentando me ofender só por me ofender, porque está sendo legal me ofender, isso me deixa angustiado. Porque mesmo que já tivessem me avisado antes que iria acontecer em algum momento depois do sucesso de “Bluesman”, que geralmente todo músico passa por isso, quando você chega em uma gama de coisas positivas, parece que é errado te ouvir. Porque todo mundo já te conhece, não é mais descolado. Então por mais que eu já tivesse entendido isso e pessoas já tivessem me falado isso, passar por isso é muito doido. Uma coisa que me deixa muito puto é o comparativo com você mesmo de antes, cara. Isso para mim é a pior coisa que existe. Mas é bom também porque você vê que não tem outros comparativos para você, que seu maior rival é você mesmo. Mesmo que seja o rival com o você de antes. Eu acho que toda crítica é válida, mas quando tem um ponto. Eu vi um comentário muito engraçado no Twitter, falei até na outra entrevista que eu dei. Tinha um cara que tava quebrando o pau no EP por causa do nome. Aí, quando saiu o EP, foi uma das coisas mais sinceras que eu já vi uma pessoa tuitar, cara. Ele falou: “Caralho, ouvi o álbum do Baco aqui. Achei que tem bons beats, bem produzido, tem boas letras, mas… Eu não gosto dele, não”. (Risos) Foi tipo: “Está tudo bom, mas continua sendo ruim”. Eu prefiro que a pessoa seja sincera, sabe. O foda é quando a pessoa quer fazer todo mundo acreditar que você fez uma coisa ridícula ou debochada, isso não é o caso.

Tem um galera que falou que eu falo nada com nada nas músicas. Caralho, se fosse nada com nada eu realmente botaria isso (na música)? É só pensar um pouco, estudar um pouco, sei lá. Mas só julgar que a música não fala sobre nada ou que está ali sem motivo, eu acho muita prepotência se colocar como dono da arte da pessoa a esse ponto. É também sobre esse lugar de ignorância, de me colocar como sendo ignorante. Como se eu fosse colocar coisas sem sentido simplesmente por colocar em um bagulho. Eu nunca fiz isso. Dessa vez agora, eu vi um crítico de um jornal até famoso falando que eu tinha soltado o disco para fazer dinheiro na quarentena por causa dos royalties. Caralho, velho! Eu tenho dois discos na cena, a diferença dos meus discos para os outros, isso ninguém está vendo. Quando essa parada pega repórter, eu acho muito complicado. Quando pega crítico essa parada do modismo de não curtir uma pessoa, acho que diz muito sobre o trabalho da pessoa. De o quanto ela é influenciável externamente por uma coisa. Eu acho que os repórteres não podem ser influenciados pelo Twitter ou por qualquer outra rede social. Mas falando sobre isso, como se eu tivesse soltado a parada de que eu precisava fazer dinheiro na quarentena. Como se eu precisasse de um estímulo, algo do tipo. Mas é só você observar o tratamento que eu uso entre os meus lançamentos. Eu nunca faço mais de um lançamento de três músicas dos meus álbuns e meus álbuns geralmente duram um ano. Eu nunca precisei fazer isso, “tá” ligado? Fazer música só por fazer música. Eu tento lançar essas músicas entre os álbuns para criar expectativa. Eu solto uma música que não tem nada a ver com a vibe do álbum antigo, nem com a do álbum novo para a galera entender que as coisas mudaram pelo menos. Eu acho que falta uma sensibilidade com o outro neste momento que todo mundo está destilando muito ódio porque todo mundo está de saco cheio sem fazer nada em casa.

Você considera esse o seu álbum mais visceral?
Não, para mim não… Não sei. É porque eu considero ele como uma revisitação aos meus lugares. Como se eu tivesse com saudade… Ele tem muito o Baco Exu do Blues do “Esú”. A forma de escrita lembra muito, desde os comparativos, às analogias e tudo mais. É meio como se eu tivesse rimando do jeito que eu estava com saudade de rimar. Inclusive achei que não ia nem dar certo justamente por isso, sendo bem sincero. Eu achei que por eu estar rimando tão de um jeito que quando eu rimo assim as pessoas arrumam um motivo de falar mal. Mas faz tempo que eu não escrevo assim. Eu tive até uma surpresa com a forma que alcançou esse álbum. Teve bastante sucesso até para o que eu esperava. A gente bateu 2 milhões no primeiro dia, isso é muito doido.

Em “O Sol Mais Quente” você canta que o coronavírus te lembra a escravidão. Especialmente no verso “brancos vindo de fora e fudendo com tudo”. Que tipo de aprendizado você acha que a sociedade teria que tirar de tudo isso?
Esse bagulho me deixou muito puto também porque a galera teve dificuldade para entender essa parada. Aí começaram a falar que era frase para chocar, que eu botei frase de efeito que não faz sentido. É simples: o coronavírus veio para o Brasil a partir de pessoas brancas e ricas que estavam viajando, saca? O primeiro cara que trouxe para cá, até onde se sabe, foi um senhor caucasiano que veio da Itália, certo? Ou seja, eu faço essa analogia. Entende? Só eles mesmo poderiam estar trazendo essa parada para cá. A história não se repete na causa, mas na lógica dos lugares e personagens. Porque o que acontece, alguns brancos com certeza vão morrer, brancos, ricos etc. Mas quando essa parada estourar de verdade, vai ser genocídio das comunidades negras. As periferias vão sofrer com isso, as periferias vão se fuder com isso. Ricos moram com uma certa distância uns dos outros em casas gigantescas com três ou quatro pessoas e 200, 100 metros quadrados. Dá para fazer uma quarentena individual para cada um dentro da própria casa, saca? E não é o caso da maioria do Brasil. Então é muito isso: veio do mesmo lugar, dos mesmos personagens e, no final, a gente vai se fuder. Mas obviamente são causas diferentes e sofrimentos diferentes também, mas...

Em ‘Tudo Vai Dar Certo’ você usa um sample de ‘All That Is You’ , da banda Me And My Friends, que faz um rock indie alternativo. De onde saiu essa conexão inusitada? Foi o Paulinho (do duo de produtores DKVPZ) que fez o beat. Aí eu só escrevi em cima mas achei genial, ele me mandou a tradução do que o cara fala no começo. Para mim é um dos melhores samples que eu já vi.

‘Amo Cardi B E Odeio Bozo’ é a última música do EP. Você postou nas suas redes sociais pedindo para o pessoal marcar a Cardi B para que ela visse a música. Você sabe se isso já chegou nela?
Cara, ainda não, mas queria que chegasse. Na verdade, depois eu repensei também e até achei que melhor não. Porque se ela descobrir da música, ela vai descobrir do nosso presidente também, né? Vai que ela para de gostar do Brasil.

‘Tropa do Babu’ é uma referência ao “Big Brother Brasil” (o ator Babu Santana é um dos participantes do programa). Como espectador, o que você tem tirado desse BBB?
Para mim, o BBB é a vitrine escancarada do Brasil e de como tratam as pessoas negras, homens negros principalmente. O quão perdoável é o homem branco e o quão condenável é o homem negro, saca? Se eu pudesse falar com ele, eu ia primeiramente dar parabéns por ele não ter explodido e destruído tudo na casa. O Babu é uma das pessoas mais sensatas da face da Terra e uma das mais calmas. Porque todo negro passa por isso que ele está passando, mas a gente passa por isso escalonado, em vários momentos diferentes ao longo do dia. Ele tem sofrido a mesma coisa pelas mesmas pessoas todos os dias. Eu já teria ficado maluco, jogado na cara de todo mundo, falado muita coisa. Para mim, um dos discursos mais sinistros é o discurso de que ele é um monstro. Das “minas” brancas chamando o Babu de monstro, de violento. Eu fiz até uma postagem sobre isso outro dia, sobre a referência de como o Prior gritava na casa quando brigava, o Pyong gritava, o próprio Daniel e como o Babu gritava. Ele não era o Prior, sabe, ele não era o mais bravo quando estava brigando, nem de longe. Mas mesmo assim a atribuição de monstro só foi dada a ele. Mesmo ele não sendo teoricamente a pessoa mais agressiva quando está irritado, ele ainda assim é tratado como simplesmente pela fisionomia dele. Isso só é desculpa para as pessoas se afastarem dele e falarem que ele é muito agressivo, que ele é um monstro. Sendo que o cara é um anjo. Eu só espero que ele ganhe essa parada.

Quem você quer ver na final do programa?
Babu, Thelma e Babu de novo. Eu não torço para mais ninguém na casa. eu não acredito muito nesse discurso da fada sensata, que a galera coloca para as meninas. Eu acho que todas foram coniventes e racistas de alguma forma.

‘Tropa do Babu’: o ator Babu Santana na casa do ‘BBB’ / Foto: Reprodução
‘Tropa do Babu’: o ator Babu Santana na casa do ‘BBB’ / Foto: Reprodução

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