Novo filme de Tarantino recupera banda Paul Revere & The Raiders, 'caretas' no meio da contracultura
Rock

Novo filme de Tarantino recupera banda Paul Revere & The Raiders, 'caretas' no meio da contracultura

Quentin Tarantino conseguiu mais uma vez. Desde 1993, com “Cães de Aluguel”, que o cineasta recupera reputações e ajuda grande talentos a ser redescobertos a partir das trilhas de seus filmes. Com “Era Uma Vez Em... Hollywood”, dentre as músicas pescadas da programação de uma rádio de Los Angeles entre 1969 e 1973, há três faixas de uma mesma banda: Paul Revere & The Raiders: a vibrante “Mr. Sun, Mr. Moon”, a sexy “Hungry” e a irresistível “Good Thing”.

O Paul Revere original (1735-1818) foi um herói da independência dos Estados Unidos, um patriota de Boston que ficou legendário por uma cavalgada noturna para avisar que as tropas inglesas estavam chegando. The Raiders é uma expressão que pode ser perigosamente traduzida como “os milicianos”, com todas as conotações do Brasil contemporâneo; no caso, porém, eram as tropas que lutavam contra os colonos ingleses.

Paul Revere & The Raiders nos anos 60: vestidos de heróis da independência americana em tempos de Invasão Britânica/ Michael Ochs Archives
Paul Revere & The Raiders nos anos 60: vestidos de heróis da independência americana em tempos de Invasão Britânica/ Michael Ochs Archives

O band leader do grupo lembrado por Tarantino é o tecladista Paul Revere Dick (1938-2014), nascido no noroeste americano, em Nebraska e criado no vizinho Idaho, o segundo estado mais pobre do país. Mas foi em Portland, no Oregon (para onde se mudou para fazer o serviço militar), que ele formou a banda, decolando a partir da entrada do vocalista Mark Lindsay, outro garoto classe média, ainda em 1958. Se a onda inicial era boogie-woogie, sob o nome The Downbeats, logo o rock’n’roll de Jerry Lee Lewis se tornaria a influência mais evidente.

Com todos os músicos ridiculamente vestidos de soldados do século XVIII, Paul Revere & The Raiders se beneficiaram bastante de aparições na TV, em programas de apresentadores conservadores como Dick Clark, que se rendiam ao “som da juventude”. Era como se aqueles “patriotas” fossem a resistência contra a Invasão Britânica de Beatles, Rolling Stones, Dave Clark Five, Animals etc.

Com ótimo senso de humor, os músicos mostravam, no entando, aquelas fantasias eram, antes de qualquer coisa, motivo para fanfarronice. “Desde que começamos a usar essas roupas, fomos tomados por um certo espírito de Irmãos Marx”, comparou Paul Revere Dick.

O negócio do Paul Revere & The Raiders não era tão diferente assim dos colegas britânicos: copiar o rhythm & blues negro do fim dos anos 1950, com muita energia e certa crueza associada ao que então se entendia como “rock de garagem”. Gravaram, aliás, “Louie Louie”, de Richard Berry (1935-1997), no mesmo estúdio, em Portland, e no mesmo mês, abril de 1963, em que The Kingsmen fizeram a versão deles, tida como marco inicial do gênero. Gravar aquela música não era nenhuma sacada genial: ela era uma das favoritas do público dos bailes brancos da região.

Paul Revere & The Raiders foi o primeiro grupo de rock no selo Columbia, associada a música mais “careta” de crooners como Andy Williams. Chegou a gravar uma canção de Aaron Neville (dos Neville Brothers) como terceiro single, “Over You”. O produtor do grupo, Terry Melcher (1942-1994), filho da atriz — e ótima cantora — Doris Day (1922-2019), os ajudou a emplacar hits como “Just Like Me”, “Hungry”, “Good Thing” e “Kicks”, a música mais famosa do grupo.

Escrita pelo casal Barry Mann e Cynthia Weil como advertência a um amigo e inicialmente oferecida aos Animals (para quem já tinham feito “We Gotta Get Out Of This Place”), “Kicks” foi uma das primeiras canções com “mensagem contra as drogas”. Eram tempos de contracultura, experimentação, rebeldia. E a letra acabou carimbando em Paul Revere & The Raiders um atestado daquilo que chamavam “caretice”.

O sucesso continuou inabalado, apesar da “má fama” de bonzinhos. Entre as aparições na TV está uma participação em um episódio do clássico seriado “Batman”, com Adam West, no episódio “Hizonner The Penguin”, tocando para um dançarina do ventre brilhar.

Mas veio uma debandada de três integrantes, em 1967, no auge da fama. Em 1968, no verão do amor, Paul Revere & The Raiders ainda emplacaria “I Had A Dream”. A partir daí, sob o comando de Mark Lindsay, o grupo seguiu um caminho mais “atualizado”, tentando até seu quinhão na “crítica social foda” e no psicodelismo.

Em 1970, o grupo encurtou o nome para The Raiders e o álbum “Collage” ganhou respeito dos críticos, mas fracassou em popularidade. Ainda houve tempo para um imenso hit, “Indian Reservation”, antes da decadência. A Columbia começou a concentrar esforços em outra banda de rock, um certo Aerosmith.

Em 1975, Mark Lindsay saiu para desenvolver carreira solo. No ano seguinte, as comemorações pelo bicentenário da independência americana ainda agitaram, por associação óbvia, a vida de Paul Revere Dick e seus músicos.

Na explosão do punk, a lembrança de “I’m Not Your Stepping Stone”, pilar do rock de garagem, regravada por Sex Pistols e Minor Threat, acabou não ajudando muito, porque os Monkees, que registraram a música depois de Paul Revere & The Raiders, eram sempre associados à faixa.

A formação atual dos Paul Revere's Raiders, sem o líder, morto em 2014, é tocada por dois dos músicos mais respeitados do rock de Seattle nos anos 1970, o baixista Ron Foos e o guitarrista Dough Heath. Autointitulada America's #1 Party Band, a turma anda meio desanimada, a julgar pela agenda de shows e pela movimentação da página do grupo no Facebook.

Mas Mark Lindsay, depois de uma carreira solo que se apagou aos poucos e alguns anos trabalhando atrás do balcão, como diretor da gravadora United Artists, está na pista. Aos 77 anos, ele tem excursionado no circuito nostalgia ao lado de integrantes dos grupos The Turtles (do sucesso “Happy Together”, hit eternamente reciclado pelo cinema) e Classics IV (do hit “Spooky”).

Mark Lindsay no palco, em turnês com os Turtles/ Getty/Scott Dudelson
Mark Lindsay no palco, em turnês com os Turtles/ Getty/Scott Dudelson

“Muita gente tem me ligado. Estou muito feliz e honrado por ter sido lembrado. Adoro Tarantino, claro”, disse o cantor, em entrevista à “Billboard”, de sua casa no Maine. Mark Lindsay morou com o produtor Terry Melcher na casa de Cielo Drive, em Hollywood, que, em 9 de agosto de 1969, foi invadida por Charles Manson e seus seguidores. Ali, eles mataram cinco pessoas — uma delas, a atriz Sharon Tate, grávida.

O cantor do Paul Revere & The Raiders havia se mudado meses antes, porque seu amigo Terry Melcher foi morar com Candice Bergen, deixando o imóvel livre para ser ocupado por outro casal amigo do produtor, Roman Polanski e Sharon Tate.

Mark lembra que escreveu “Good Thing” (a música que toca no trailer de “Era Uma Vez Em… Hollywood”) bem no lugar onde Charles Manson enforcou Sharon. “Foi o maior choque da minha vida”, revela. Ele conta que foi informado pela polícia de que seu nome e o de Terry estavam na lista de futuras vítimas de Charles Manson. “Nessa época eu dormia com uma 44 Magnum debaixo do travesseiro, porque havia recebido mensagens esquisitas de fãs no ano anterior. Sempre penso no que teria acontecido se eu e Terry ainda estivéssemos morando naquela casa na noite em que Charles Manson entrou lá. Teria sido diferente.”

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest