‘O auto-ódio é real’, diz Gabz, que conheceu o racismo aos três anos, brincando na pracinha
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‘O auto-ódio é real’, diz Gabz, que conheceu o racismo aos três anos, brincando na pracinha

“Eu tinha uns três anos quando meu pai me levou para brincar em um parquinho. Como sempre fui muito espalhafatosa, rapidinho comecei a comandar a brincadeira. Em determinado momento, uma menina branca cochichou no ouvido das outras crianças — todas brancas — e eles se juntaram contra mim dizendo que meu cabelo era ruim e outras coisas do tipo.” Quem conta a história é Gabrielly Nunes, a Gabz. Atriz, cantora e rapper, a artista de 20 anos diz que guarda a memória daquele dia como a primeira vez que entendeu o que era ser negra no Brasil. “Meu pai viu a cena e percebeu o quanto eu fiquei acuada no canto. Ele veio até mim e disse: ‘Você é maravilhosa, não precisa disso. A única mulher tão linda quanto você é a Beyoncé’”, diz.

Depois do abraço do pai, Gabz foi acolhida do outro lado da pracinha por outra turma. "Eram três meninas negras também. Isso define muito sobre o que é ser negro no Brasil: você vai chegar em um espaço e alguém vai querer te dizer que você ‘não é tão pessoa’ quanto ela dentro dessa sociedade que a gente vive. Mas a gente pode se fortalecer com os nossos e ‘voltar a brincar’. Sempre foi assim para mim", reflete a Jaque, da atual temporada de “Malhação”, em entrevista dada ao Reverb pelo telefone. Em setembro, ela foi uma das atrações do Espaço Favela, no Rock in Rio 2019. “Quando eu subi naquele palco, eu fiquei me perguntando se aquilo tudo era real. Tem um vídeo da minha avó (dona Joana, de 77 anos) na grade me olhando como se eu fosse o ídolo dela. Eu vi esse vídeo um milhão de vezes. Nunca ficarei calma (falando disso) porque foi algo incrível”, se empolga.

Gabz foi uma das atrações do Espaço Favela, no Rock in Rio 2019 / Foto: Divulgação / I Hate Flash
Gabz foi uma das atrações do Espaço Favela, no Rock in Rio 2019 / Foto: Divulgação / I Hate Flash

No primeiro semestre deste ano, Gabz lançou “Nada Vai Nos Parar”, uma parceria com Baco Exu do Blues. O clipe da faixa começa com uma criança negra declamando uma frase creditada ao cineasta senegalês Ousmane Sembène: “Para pessoas como nós não existem coisas como modelos. Somos convocados constantemente a criar nossos modelos”. Para a rapper, enquanto mulher negra, criar e ser esse tipo de modelo significa falar sobre força mas, principalmente, sobre vulnerabilidade. "Eu sou candomblecista e eu levo a cultura africana de forma muito séria. A nossa juventude tem que parar para pensar que nós somos os ancestrais de alguém. Nós somos aqueles para quem os jovens do futuro vão olhar. Eu não vejo mulheres como eu, negras, tendo voz ativa e podendo falar o que sentem. É muito representativo que eu ocupe esse lugar e mostre que eu sou forte sim, mas que eu também posso errar", diz.

"Eu não acho saudável construir ídolos que sejam imbatíveis, que sejam pessoas que nunca erram. Ou, por exemplo, essa cultura de 'cancelar' as pessoas que cometem algum deslize. A gente tem mania de criar ídolos partindo de um pressuposto de que ou eles são Deus ou são o diabo, mas não é assim."

'Nada Vai Nos Parar': Gabz em clipe com Baco Exu do Blues / Foto: Reprodução
'Nada Vai Nos Parar': Gabz em clipe com Baco Exu do Blues / Foto: Reprodução

Gabz chama os pais de “minha Beyoncé e meu Jay-Z”, em alusão ao casal número um da música americana. A associação vem do fato dela sempre ter tido nos dois um alicerce firme para entender sua própria negritude. “Meus pais sempre construíram referências negras para mim e olha que eles não são acadêmicos. Eles não conhecem escritores negros, mas eles têm a vivência. Quando eu cheguei na rua, o racismo bateu forte, mas diferente. Eu tive que perceber desde muito cedo o que era ser uma pessoa negra, como é a realidade das pessoas te ferirem", diz. A rapper lembra que, quando ainda estava na escola, decidiu alisar o cabelo para evitar o bullying do Ensino Médio. Quando seu pai soube, lhe deu uma bronca. "O auto ódio é real e ele existe de uma forma muito latente. Se eu tivesse que sair de cabelo cacheado, eu não ia para a escola. Eu lembro de terminar a transição capilar e gostar do que eu estava vendo. Eu fiquei emocionada, não só por me sentir bonita, mas de ver como é possível mudar a perspectiva. A gente pode mudar as realidades. Para mim, ser uma mulher negra no Brasil não é só sobre os momentos de dor, mas sobre os momentos de transformação", pondera.

A cantora que cresceu em Irajá, na Zona Norte do Rio de Janeiro, acredita que ser uma mulher negra fazendo música no Brasil é ser uma revolucionária. “O nosso ‘problema’ é que a gente quer ser considerado ser humano igual a todo mundo e a gente só vai conseguir isso através da empatia. Se a gente expõe a nossa realidade e a pessoa entende o que a gente sente, ‘acabou’. Agora, se a gente explica e você continua sendo uma pessoa escrota, a gente não quer ficar perto de você não. A gente quer te combater mesmo. Ser mulher negra fazendo música hoje em dia é ser uma revolucionária porque você está representando algo que precisa ser representado.”

Gabz e Danilo Maia como Jaqueline e Thiago, personagens de 'Malhação' / Foto: Estevam Avellar / TV Globo
Gabz e Danilo Maia como Jaqueline e Thiago, personagens de 'Malhação' / Foto: Estevam Avellar / TV Globo

“A cultura de todo mundo no Brasil é a cultura negra. Todas as pessoas que nasceram aqui devem às pessoas negras. Os nomes das ruas estão errados, os nossos heróis estão equivocados. Você já parou para pensar que escravizaram uma galera e hoje a gente faz o gênero musical mais tocado do mundo? Você tem noção disso? A gente tem que lembrar sempre da nossa grandiosidade perante essas coisas. Hoje em dia, eu sei que eu frequento espaços em que não é nem um pouco difícil eu ser a única mulher negra ali. Eu vejo isso e percebo cada vez mais como é difícil e como a gente está tentando mudar essa realidade. Eu só consegui chegar aqui porque me fortaleci na nossa grandiosidade”, conclui.

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