O dia em que Amy Lee, do Evanescence, virou 'torcedora do Botafogo'
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O dia em que Amy Lee, do Evanescence, virou 'torcedora do Botafogo'

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Meu filtro para música nunca foi exatamente um filtro. Sempre gostei de tudo que eu ouvia. Minha inclinação musical sempre tendeu mais para o pop que cresci ouvindo, mas bebia de todas as fontes sonoras que chegavam até mim. Dos discos antigos do meu pai, ouvia Stevie Wonder. Dos CDs comprados pela minha mãe em um canal da TV a cabo, conheci Tina Turner, sua “Proud Mary” e todos os outros hits a la celebration. Da (curta) fase roqueira do meu irmão, achava Iron Maiden tão assustador quanto divertido. Todo resto vinha do rádio e dos filmes que assistia. Foi em um deles, “Demolidor” (sim, aquele com o Ben Affleck), que conheci Amy Lee e o Evanescence, minha banda favorita no final da adolescência. 

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Minha paixão por esporte também veio do berço. Meu pai, um flamenguista convertido em botafoguense ainda criança, costumava levar meu irmão e eu para os jogos do Botafogo desde pequenos. Lembro da primeira vez que pisei no Maracanã, em uma final de Rio-São Paulo e, na entrada do Mário Filho, enxergava na altura das pernas dos adultos. 

Por que estou falando de Evanescence e Botafogo? Porque, por um dia na minha vida, eu ajudei a transformar Amy Lee em torcedora alvinegra. Pelo menos para algumas pessoas. 

Depois que assisti “Demolidor”, passei a pesquisar tudo que era possível sobre o grupo de Little Rock, cidade no estado americano do Arkansas. Descobri que Amy Lee e Ben Moody, o outro fundador do Evanescence, haviam se conhecido durante um acampamento de igreja, o que me fez sentir mais próxima de ambos. Eu era também uma adolescente criada na igreja. Não só criada, como começava a tocar bateria nos cultos e coloquei Rocky Gray, então baterista da banda, como meu ídolo maior do instrumento. Em 2003, o sonho da minha vida tinha deixado de ser abraçar o Nick Carter. Eu precisava conhecer o Evanescence.

Aceleramos a história para 2007. Eu estava no segundo ano do Ensino Médio. Nesse meio tempo, o Evanescence já havia lançado um álbum ao vivo, “Anywhere But Home” (2004), e outro de estúdio, “The Open Door”, no ano anterior. Com o segundo projeto nas lojas, o grupo anunciou uma turnê que finalmente viria ao Brasil. Era a minha chance. Comecei a pensar em todas as possibilidades que eu teria para conhecer Amy Lee e Rocky Gray, mas nenhuma delas me parecia boa o suficiente e sem riscos (se você entende de signos, tenho sol em virgem). Até que uma propaganda no rádio me chamou atenção. Era a promoção de uma estação que daria ao vencedor a chance de ir ao backstage do show para conhecer a banda. Eu surtei. Como boa botafoguense, tinha certeza que não ganharia a promoção - a sorte não viria assim. Mas lembrei do pai da minha melhor amiga, um executivo da indústria fonográfica, que teria chances de conseguir uns passes para o camarim. Se a banda daria espaço para sorteados pela promoção, por que não tentar entrar também? E deu certo. 

O acordo era o seguinte: iríamos entrar no backstage junto com os vencedores da promoção, mas, para isso, era preciso chegar três horas antes do horário do show. Só havia um problema: a apresentação era no dia da final da Taça Rio, o segundo turno do Campeonato Carioca de futebol. Naquela época, só o Botafogo ocupava um lugar equivalente ao do Evanescence no meu coração. O vencedor do jogo entre o meu time e a Cabofriense iria para a grande final enfrentar o Flamengo, que havia levado o primeiro turno da competição. 

O coração dividido quase me fez perder a chance de conhecer o Evanescence. Eu e minha amiga saímos de casa em cima da hora. Em meio à comemoração da vitória com o fim do jogo, levei comigo a camisa do título brasileiro de 1995, que vestia enquanto assistia à partida. Apesar de ainda estar incrédula sobre o encontro com a banda, pensava que, se tudo desse certo, tiraria uma foto com eles e a camisa do Botafogo para comemorar o título.

Eu nunca havia estado em um backstage na minha vida. Nunca tinha ouvido falar em “meet and greet”. Passamos por entre os corredores dos camarins montados, vimos o refeitório improvisado onde a produção jantava, e fomos instruídas, junto com outras 15 pessoas, a formar uma fila. Os integrantes da banda passariam pela gente autografando um objeto que quiséssemos e, em seguida, todos tiraríamos fotos organizadas pelo chefe de segurança. Eu estava com minha cópia de “The Open Door” em punho. Também havia levado um saco de bombom para Amy Lee (ela era chocólatra) e uma canga com o desenho da bandeira do Brasil para o Rocky. 

Estávamos em fila, ao lado de algumas guitarras que seriam autografadas, quando, dos contêineres mais ao fundo, eu os vejo. O primeiro da fila era Terry Balsamo, guitarrista. Amy vinha em seguida e, mais atrás, estava Rocky. Quando a líder do Evanescence parou na minha frente, só soube dizer que havia levado chocolates pois sabia que ela gostava muito (ingenuidade a minha achar que ela comeria aqueles doces. É provável que eles tenham ido direto para o lixo, jogados por algum assessor precavido. Mas gosto de pensar que ela provou). Amy sorriu e agradeceu, educadamente, enquanto assinava meu CD. Rocky apareceu logo depois. Contei que eu tocava bateria e perguntei se ele não tinha baquetas que pudesse me dar. “Eu deixei no camarim, me desculpe”, respondeu o baterista. Aquele seria um dos últimos shows dele pela banda. 

Passadas as assinaturas, veio a hora da foto. Eu e minha amiga esperamos a nossa vez. De um em um, os seguranças iam orientando para que avançássemos. Um deles segurava a fila, enquanto outro pegava as câmeras dos fãs para tirar uma - e somente uma - foto. Quando minha vez chegou, abri a camisa do Botafogo. Amy e Terry sorriram, curiosos. “O que é isso?”, perguntaram quase que ao mesmo tempo. “É o maior time de futebol do Brasil. Fomos campeões hoje!”, exagerei. Amy riu e me deu parabéns. Vejam só: ali estava eu, sendo parabenizada pelos meus ídolos por um (quase) título do Botafogo. Era tudo tão surreal para aquela jovem fã de 17 anos que parecia mentira. 

Eu e a camisa do Botafogo entre Amy Lee e Rocky Gray: vitórias
Eu e a camisa do Botafogo entre Amy Lee e Rocky Gray: vitórias

O show acabou com Rocky Gray subindo ao palco carregando a canga em forma de bandeira que eu o havia presenteado. Berrei como nunca. Dali, corri para casa para publicar minha foto no Orkut (bons tempos). Postei empolgada e, pouco depois, fui dormir. 

No dia seguinte, acordei com um depoimento “não aceitável” de um amigo meu (a nostalgia bate firme só de pensar naquele famigerado “não aceita”, em caixa alta). “Não é você nessa foto?”, perguntava ele, colocando um link ao lado do questionamento. O endereço levava para um grupo de discussões em um fórum da torcida organizada do Botafogo. Minha foto estava lá, publicada sob o título que, apesar de não me lembrar com exatidão, dizia algo como “Amy Lee é do Fogão”. Os comentários que se seguiam eram de outros botafoguenses apaixonados fazendo graça com a cena. Parecia uma vitória sobre a vitória. 

Não tinha acesso a outros fóruns externos, mas vi minha foto em mais duas ou três comunidades do Botafogo dentro do Orkut. Em todas, a euforia alvinegra era a mesma. Todos transformavam Amy Lee quase que em sócia emérita do clube. O exagero era evidente, mas coração de fã e torcedora é irracional em sua totalidade. “Eu disse para ela que o Botafogo é o melhor time do Brasil”, escrevi. Até hoje não sei quem levou minha foto para o ambiente público. Mas esboço um sorriso ao pensar que meus tempos de roqueira me renderam dois minutos de fama em fóruns de discussão como “a botafoguense que deixou o Evanescence alvinegro”. 

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