'O dia em que os shows ao vivo voltarem': Dave Grohl escreve artigo e emociona ao falar em 'construir de novo uma catedral sônica'
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'O dia em que os shows ao vivo voltarem': Dave Grohl escreve artigo e emociona ao falar em 'construir de novo uma catedral sônica'

Dave Grohl escreveu um artigo para o "The Atlantic"."O dia em que os shows ao vivo voltarem", o cantor faz uma apaixonada declaração, se colocando como fã e com o artista. Dave é sincero, se emociona e, mesmo depois de tantos anos de estrada, se revela impressionado com o poder da música na vida das pessoas. "Nós somos humanos. Precisamos de momentos que nos garantam que não estamos sozinhos, que somos entendidos e que somos imperfeitos. E, o mais importante, que precisamos um do outro", escreveu.

Um dos planos de Dave Grohl que foi interrompido pela pandemia foi o show de comemoração de 25 anos do álbum de estreia do Foo Fighters. Seria no estádio FedExField, em Landover, Maryland. "Estaríamos com aproximadamente 80 mil de nossos amigos mais próximos", diz o vocalista, chateado por a pandemia ter reduzido a música ao vivo "a janelas pouco lisonjeiras que se parecem com imagens de câmeras de segurança e soam como as transmissões distorcidas de Neil Armstrong da Lua, gaguejantes e compactadas".

Dave Grohl, em um show do Foo Fighters em dezembro de 2019: pandemia interrompeu turnê do novo disco. Foto: Getty Images
Dave Grohl, em um show do Foo Fighters em dezembro de 2019: pandemia interrompeu turnê do novo disco. Foto: Getty Images

O músico lembra também que a situação interrompeu a apresentação comemorativa e a turnê do novo álbum, o décimo da banda, que nem foi lançado. "O álbum é tão bom, repleto de refrões para cantar junto. É meio para dançar, mas não é eletrônico, tem um ritmo próprio. Para mim, é o nosso 'Let's Dance', de David Bowie. E era isso que queríamos fazer, um disco realmente divertido", disse ele em entrevista à rádio "ALT 98.7 FM", de Los Angeles, na semana passada. Dave estava com a mãe Virgina Grohl, que é escritora e está divulgando seu recente livro "From Cradle to Stage", que tem entrevistas com outras mães de estrelas do rock. Ela revelou que está trabalhando com o filho em um documentário inspirado no livro.

Se Dave reclama em seu texto, também não deixa de reconhecer seu lugar privilegiado: "Não me interpretem mal, posso lidar com a monotonia e a culinária limitada da quarentena, e sei que aqueles de nós que não precisam trabalhar em hospitais ou entregar pacotes têm sorte. Mas ainda assim, estou com fome do grande e velho de rock´n´roll, o mais rápido possível. Do tipo que faz seu coração disparar, seu corpo se mover e sua alma se agitar com paixão".

O cantor, compositor, baterista, guitarrista e cineasta não se conforma porque sabe que não há nada como a energia e a atmosfera da música ao vivo. "É a experiência mais afirmativa da vida: ver seu artista favorito no palco, em carne e osso, e não como uma imagem unidimensional brilhando em seu colo. Como frequentador de concertos ao longo da vida, conheço bem esse sentimento. Eu mesmo fui pressionado contra a grade em shows de rock. Esmagado pela multidão, dancei sob níveis perigosos de decibéis. Fui elevado e levado ao palco por estranhos para mergulhar de volta em seu abraço suado. De braços dados, cantei com pessoas que talvez nunca mais veja. Tudo para comemorar e compartilhar o poder tangível e comunitário da música", descreve, revelando-se tão fã como qualquer pessoa de sua plateia.

Ainda no papel de fã, Dave cita os shows do Queen em 1985 e do U2 em 2001 como momentos únicos de interação entre artista e público. "Não foi necessariamente a mágica musical do Queen que fez história naquele dia (a apresentação de 22 minutos no Live Aid). Foi a conexão de Freddie com a plateia que transformou aquele estádio de futebol em ruínas em uma catedral sônica. Em plena luz do dia, ele majestosamente fez de 72 mil pessoas seu instrumento, juntando-se a eles em uníssono", lembra.

Bono e The Edge na Elevation Tour, em 2001. Foto: Getty Images
Bono e The Edge na Elevation Tour, em 2001. Foto: Getty Images

O cantor destaca também a força que os shows têm mesmo quando despidos de todos s efeitos de luz e cenários. "Nunca esquecerei a noite em que assisti ao show do U2 em Washington na Elevation Tour de 2001, uma superprodução. Esperava me perder em um magnífico show de rock de última geração e, para minha surpresa, a banda subiu ao palco sem nada, apenas com as luzes da casa acesas e tocou a primeira música. Não foi por acaso, veja bem, foi uma lição de intimidade. Sem todos os estroboscópios e lasers, a arena encolheu-se do tamanho de uma boate, com todos os defeitos à vista. E com esse simples gesto fomos lembrados de que somos realmente apenas pessoas - pessoas que precisam se conectar", relatou.

O próprio Foo Fighters foi citado, claro, em uma experiência onde, mais uma vez, Dave se sentiu um simples fã. Em uma apresentação da banda em Vancouver, o empresário disse que Bruce Springsteen estava no local. "Congelado pelo medo, eu me perguntava como poderia me apresentar diante desse lendário showman, famoso por seus shows épicos que duram quatro horas. Eu certamente nunca poderia corresponder às suas elevadas expectativas! Acontece que ele estava lá para ver a banda de abertura (humilhação devastadora). Mas nós conversamos antes do show e eu percebi a razão pela qual milhões de pessoas se identificam com ele: ele é de verdade", reconhece.

Depois da apresentação, Dave conta que, ainda se recuperando do show e encharcado de suor, recebeu Bruce no camarim. "Ele ficou realmente para o nosso set — e eu de queixo caído! —, nos agradeceu generosamente e falou sobre o nosso desempenho, especificamente o relacionamento que parecemos ter com o público. Quando perguntado de onde assistiu o show, ele disse que estava na multidão — ele estava procurando por essa conexão também", conta, emocionado.

É ao falar sobre esse relacionamento com o público que Dave parece mais sincero em seu relato, dizendo que acha que ocupa "o melhor lugar da casa há 25 anos". "Porque eu vejo você. Vejo você pressionado contra as grades da frente. Eu vejo você tocando bateria com suas músicas favoritas nas vigas distantes. Vejo você erguido acima da multidão e levado ao palco para um mergulho glorioso. Eu vejo seus cartazes caseiros e suas camisetas vintage. Eu ouço sua risada e seus gritos e vejo suas lágrimas. Eu vi você bocejar (sim, você) e desmaiar bêbado. Eu vi você em ventos com força de furacão, em calor de 100 graus, em temperaturas abaixo de zero. Eu já vi alguns de vocês envelhecendo e se tornando pais, agora com os fones de ouvido protetores de seus filhos pulando em seus ombros. E todas as noites, quando digo ao nosso engenheiro de iluminação para "acender!", faço isso porque preciso que a sala diminua e eu possa me juntar a você", enumera.

Fãs do Foo Fighters em um show na Alemanha, em 2018. Foto: Getty Images
Fãs do Foo Fighters em um show na Alemanha, em 2018. Foto: Getty Images

Dave reconhece que essas sejam experiências que talvez nunca mais possam ser vividas e confessa que não sabe quando será seguro novamente voltar a cantar a plenos pulmões e de braços dados. "Mas sei que faremos novamente, porque precisamos. Não é uma escolha. Nós somos humanos. Precisamos de momentos que nos garantam que não estamos sozinhos. Que nós somos entendidos. Que somos imperfeitos. E, o mais importante, que precisamos um do outro. Compartilhei minha música, minhas palavras, minha vida com as pessoas que vêm aos nossos shows. E eles compartilharam suas vozes comigo. Sem aquela plateia gritante e suada minhas músicas só seriam boas. Mas juntos, somos instrumentos em uma catedral sônica, que construímos juntos noite após noite. E que certamente iremos construir novamente", finaliza, esperançoso.

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