O fim da era do rock: há 40 anos, ‘Crazy Little Thing Called Love’, do Queen, era desbancado do #1 por ‘Another Brick in The Wall Part 2’, do Pink Floyd
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O fim da era do rock: há 40 anos, ‘Crazy Little Thing Called Love’, do Queen, era desbancado do #1 por ‘Another Brick in The Wall Part 2’, do Pink Floyd

Há quarenta anos, em 22 de março de 1980, se deu pela última vez um fenômeno outrora comum na indústria da música: na parada de singles da revista americana "Billboard", pela última vez, um hit arrasa-quarteirão de um grande nome do rock foi sucedido por um grande sucesso de outro grande nome do rock. Naquele dia, quando “Crazy Little Thing Called Love”, do Queen, foi desbancado por “Another Brick In The Wall Part 2”, do Pink Floyd, o fim de uma era chegava. Depois disso, até houve grandes estouros de rock no topo da parada, mas essa passagem de bastão não se repetiu. O mais próximo que houve foi entre fevereiro e maio de 1981, quando o domínio de “Centerfold”, da The J. Geils Band, foi sucedido por um mês e meio de “I Love Rock ‘n’ Roll”, de Joan Jett and the Blackhearts, no topo da listagem. A partir dos anos 1990, o R&B e o hip-hop dominaram as paradas de singles, e houve um sensível recrudescimento do pop neste século. O rock catou migalhas aqui e ali, com exceções como “Smooth”, hit de Santana com feat. de Rob Thomas.

Em 1980, depois de quatro semanas de glória no topo, iniciadas em 23 de fevereiro, a homenagem de Freddie Mercury (1946-1991) a Elvis Presley (1935-1977) — que, incrivelmente, rendeu ao Queen seu primeiro #1 na parada americana de "compactos" — cedeu espaço para o hino inconformista do Pink Floyd, que também se sustentou por um mês como disquinho mais vendido (naquele tempo, era só o que era computado; hoje execuções em streaming e rádio também são métricas envolvidas) no Hot Billboard 100. Por coincidência ou não, “Another Brick In The Wall Part 2” assumiu o topo um dia após o presidente americano Jimmy Carter ter anunciado que os Estados Unidos boicotariam os Jogos Olímpicos de Moscou, em represália à invasão soviética no Afeganistão.

A gravação do Pink Floyd foi substituída no número um por “Call Me”, hit da banda new wave Blondie movido a sintetizadores de Giorgio Moroder, mago italiano da disco music. Pouco depois, Paul McCartney ainda emplacaria no topo sua funky “Coming Up”, e o ano terminaria em meio à comoção com o sucesso póstumo de “(Just Like) Starting Over”, de John Lennon, assassinado em 8 de dezembro.

O Pink Floyd durante um show da turne de "The Wall" em 1980. Foto: Getty Images
O Pink Floyd durante um show da turne de "The Wall" em 1980. Foto: Getty Images

Vale conhecer um pouco da história das duas canções, como foram compostas, gravadas e algumas curiosidades de suas respectivas bandas para entender melhor como foi a transição nessas semanas de fevereiro e março de 1980 no Hot 100 da Billboard.

Após o modesto sucesso de "Jazz", sétimo álbum lançado em 1978, o Queen já se preparava para o próximo trabalho. Os integrantes decidiram gravar num estúdio em Munique, mas ainda não tinham muitas ideias para as novas faixas. A primeira que surgiu foi justamente "Crazy Little Thing Called Love". "Ela me tomou cinco ou 10 minutos. Fiz no violão, que não sei tocar direito e, de certa forma, ficou bastante boa justamente porque eu estava restrito a apenas alguns acordes", disse Freddie Mercury em uma entrevista para o semanário inglês "Melody Maker", em 1981.

Temendo que aquela inspiração sumisse tão rapidamente quanto apareceu, o vocalista apressou os companheiros a entrar no estúdio para gravar. Reinhold Mack, o engenheiro que trabalhou no que seria o oitavo álbum do grupo, "The Game", riu quando Freddie disse que deveriam gravar a música o mais rápido possível, caso contrário, Brian May "faria as coisas demorarem um pouco mais". Acabou levando seis horas para finalizar a gravação.

Freddie era um grande fã de Elvis Presley; escreveu a canção para homenagear a lenda do rock'n'roll dois anos após sua morte, em 16 de agosto de 1977. Para ajudar a captar o espírito dos anos 50 que a homenagem pedia, Reinhold convenceu Brian a sair de sua zona de conforto e fazer um solo de guitarra com uma Fender Telecaster em vez de seu instrumento habitual, a Red Special.

"Eu usei uma das Telecaster de madeira desgastada do Roger e apanhei muito para tocá-la. Eu disse que não combinava com o meu estilo, mas 'Crazy Little Thing Called Love' era uma peça de época, parecia precisar desse som datado", explicou Brian durante uma entrevista à "Absolute Radio" em 2011.

A música chama a atenção também pela interpretação diferente de Freddie. No livro "Freddie Mercury: A Life in His Own Words", o cantor observou como seu estilo de cantar é semelhante ao de Elvis. “Minha voz soa um pouco como Elvis Presley, mas isso não era algo que eu estava tentando fazer naturalmente. Era pura coincidência. Tudo é cantado bastante baixo, então você logo se aproxima de Elvis, especialmente com uma música no estilo anos 50", justificou. Na série "The Number Ones", o site "Stereo Gum" classifica a música como "um tributo a Elvis no estilo da Broadway, tão excêntrico quanto qualquer coisa que John Travolta fez na trilha sonora de 'Grease'".

A faixa também jogou o vocalista para outros caminhos — ele acabou tocando violão em alguns momentos do álbum. "Foi preciso muita coragem para tocar no estúdio e depois no palco. As primeiras noites foram estressantes, mas tudo bem depois. No disco funciona muito bem, porque Brian faz todos aqueles preenchimentos de guitarra, bem como seu solo habitual", comentou o vocalista em uma entrevista à revista americana "Circus" em 1980.

Freddie Mercury tocando violão em um show do Queen em Illinois, em 1980. Foto: Getty Images
Freddie Mercury tocando violão em um show do Queen em Illinois, em 1980. Foto: Getty Images

Em 23 de fevereiro de 1980, a música se tornou o primeiro single número 1 do Queen nos EUA, alcançando o primeiro lugar simultaneamente na Billboard, Record World e Cashbox. "Nós ainda estávamos gravando em Munique e alguém apareceu dizendo que 'Crazy Little Thing Called Love' havia chegado ao número 1 na América", recorda Roger Taylor, no documentário "Days of Our Lives". Antes de "Crazy Little Thing Called Love", o Queen tinha apenas dois sucessos emplacados no top 10 dos EUA: "Bohemian Rhapsody" (nono lugar) e "We Are The Champions", de 1977, que alcançou o quarto lugar.

O "rockabilly dos anos 1950 reimaginado para as multidões das arenas dos anos 80, num aceno nostálgico em direção a uma estrela que morrera alguns anos antes", segundo o texto do "Stereo Gum", foi um truque que funcionou.O Queen, que já era gigante no resto do mundo, ganhou outra dimensão nos Estados Unidos a partir daí.

Mas esse momento nostálgico de saudades do Rei do Rock no topo mercadológico da indústria americana deu lugar, um mês depois, aos gritos de crianças clamando por liberdade: "Hey! Teachers! Leave them kids alone!" (algo como "Ei, professores/ Deixem as crianças em paz!"). "Another Brick in The Wall Part Two" passou a ocupar o topo das paradas no dia 22 de março de 1980, e, por ironia, era uma gravação de uma banda clássica de rock (o termo classic rock ainda estava por ser inventado, mas já se encaixava) zoando com o ritmo popular daquela era, a disco music.

No ano anterior, Margaret Thatcher se tornara primeira-ministra da Grã-Bretanha e a discoteca dava seus últimos sinais de vida quando Pink Floyd lançou "The Wall". "Another Brick in The Wall Part 2" é uma daquelas músicas que justificam o termo "clássico", alcançou os primeiros lugares em vários lugares do mundo — e chegou a ser censurada em outros, como na África do Sul, na época sob o regime racista do apartheid.

Roger Waters escreveu a música com seus pontos de vista sobre a educação formal. Ele odiava os professores da escola primária, sentindo que eles estavam mais interessados em manter as crianças caladas do que em ensiná-las. O muro refere-se à barreira emocional que o músico construiu em torno de si para evitar contato com a realidade.

Roger Waters em uma apresentação do Pink Floyd em Londres, em 1980. Foto: Getty Images
Roger Waters em uma apresentação do Pink Floyd em Londres, em 1980. Foto: Getty Images

A canção faz parte de uma trilogia de faixas do álbum conceitual "The Wall", é a mais memorável das "partes". A "Part 1", mais melancólica, detalha o luto de um filho pela perda de seu pai militar durante a guerra. A "Part 2", como uma crítica mordaz aos internatos do Reino Unido e qualquer força opressora. A "Part 3" faz referência à gota d'água da sanidade de Pink, o personagem principal da narrativa, que é abandonado pela mulher.

"Part 2" é notável por ser a música mais popular do Pink Floyd até hoje, mas a trilogia inteira levanta questão importantes como o que faz uma pessoa se encaixar socialmente. O coro que participou da faixa veio de uma escola em Islington, Inglaterra, escolhida porque ficava perto do estúdio. Era composto por 23 crianças, que foram dubladas 12 vezes, fazendo parecer que havia muito mais vozes. O produtor Bob Ezrin foi quem teve a ideia para o refrão. Ele já havia usado um coro infantil quando produziu outro clássico, "School's Out", de Alice Cooper, em 1972.

Outras novidades sugeridas por Bob foram a batida disco e a guitarra funky, completamente inesperadas no trabalho do Pink Floyd. O produtor teve a ideia quando ouviu algo que Nile Rodgers, do Chic, estava fazendo. O primeiro lugar da canção se deve também a uma mudança nas "regras" da banda, que raramente lançava singles — os integrantes diziam que suas músicas eram mais apreciadas no contexto de um álbum, onde as músicas e o trabalho artístico se uniam para formando um tema. Bob os convenceu de que a faixa poderia se sustentar por si só sem prejudicar as vendas de álbuns. Foi lançar, atingir o topo e fazer história.

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