Todd Rundgren, mestre do pop ‘individualista’, em 5 lições de seu singular livro de memórias
Entretenimento

Todd Rundgren, mestre do pop ‘individualista’, em 5 lições de seu singular livro de memórias

“O Individualista: Digressões, Sonhos e Dissertações” (tradução livre de "The Individualist: Digressions, Dreams & Dissertations", lançado apenas em inglês) é um título adequado ao livro de memórias escrito por um músico notabilizado por fazer tudo. E fazer tudo sozinho. Foi assim em “Something/Anything?”, seu álbum mais celebrado, de 1972, em que Todd Rundgren compôs todas as canções e produziu ele mesmo as faixas, além de gravar todos os instrumentos, em arranjos muito bem trabalhados.

O hábito de sintetizar as ideias em letras de músicas é um dos motivos que Todd Rundgren apresenta para ter escrito suas memórias em 183 capítulos. Cada um, porém, com apenas uma página de duração, cada uma delas com três parágrafos — o que ele justifica pelo interesse dos leitores, os quais, assim como ele também devem ter o direito de ir ao ponto que lhes interessa e deixar de lado os demais. Aprenda agora um pouco sobre o individualismo de Todd Rundgren em cinco lições:

Todd Rundgren é homenageado pela escola de música Berklee, em Boston Paul Marotta/Getty Images
Todd Rundgren é homenageado pela escola de música Berklee, em Boston Paul Marotta/Getty Images

1) Como Escrever Um Livro Sem Ter a Menor Aptidão Para Escrever

“Eu não julgo um livro por sua capa”, declarou recentemente Todd Rundgren ao site "Az Central", de Phoenix, dias antes de apresentar um show entremeado por trechos das histórias do livro. “Eu julgo por sua grossura. Se ele for realmente grosso, eu saio fora, porque, aí, entendo que vou precisar ler realmente um bocado até chegar a algum ponto de interesse”, conta, sem nenhum medo de se mostrar iletrado.

“Eu era realmente horrível no colégio, em boa parte porque detestava fazer o dever de casa, porque achava muito trabalhoso”, conta Todd. Ele declara sem o medo pudor: “Eu não gosto de escrever.”

Ele justifica parte dessa aversão pelo ofício de músico. “Parte do problema é que, ao longo de tantos anos como letrista das minhas canções, eu sempre tentei compactar o máximo de significado no menor número de palavras. Então, isso não funciona ao se escrever um romance. Se eu fosse escrever algum outro livro, seria provavelmente de poesias”, afirma.

Todd escreve sua assinatura Desiree Navarro/WireImage
Todd escreve sua assinatura Desiree Navarro/WireImage

2) Conte Sua História — Antes Que Outro O Faça (E Ganhe Dinheiro Com Isso)

Então, como alguém tão avesso à escrita literária resolveu escrever um livro de memórias? “Alguém me fez uma oferta”, responde Todd Rundgren, com uma gargalhada. “Além disso, se eu mesmo não escrevesse minhas memórias, outra pessoa acabaria por escrever [uma biografia não autorizada]”, assume o músico, pai de criação de Liv Tyler — que só na adolescência soube ser filha biológica de Steven Tyler, vocalista do Aerosmith, com Babe Buell, conhecida por affairs com diversos astros do rock nos anos 70.

Para alavancar as vendas de “O Individualista”, Todd Rundgren usa seus shows, contando parte das histórias. “Não faço uma leitura do livro”, alivia. “Mas conto parte dos casos que estão presentes nele. E, por precaução, tenho um iPad à disposição”, explica.

Todd Rundgren fala ao público durante show Scott Dudelson/Getty Images
Todd Rundgren fala ao público durante show Scott Dudelson/Getty Images

3) O Individualista — Uma Filosofia

“Olha, muita gente culpa sua criação por boa parte dos problemas que tem. Não foi exatamente assim comigo”, lembra Todd Rundgren, que saiu da casa dos pais aos 18 anos. Normalmente uma decisão difícil, o passo foi natural para ele, que ri do motivo. “Por um lado, eu era horrível no colégio. Por outro, sabia tocar tudo. Então, acabou sendo um caminho natural para mim”, explica o músico, que, aos 24, pilotaria guitarra base e solo/slide, baixo, bateria, piano, vocal principal e backings e tudo mais em “I Saw The Light”, em que o arranjo de cada instrumento completa tão perfeitamente o do outro, que a impressão é de que músicos diferentes, com cabeças diferentes, dificilmente teriam amarrado uma combinação tão bem acabada. Qualquer dúvida, ouça a variação entre o piano e o baixo, mais o bumbo da bateria, logo na introdução — e os backing vocals na segunda estrofe.

“Eu saí de casa no meu aniversário de 18 anos e decidi que, a partir dali, seria a história de outra pessoa. Eu iria construir minha própria, não com as experiências que eu tivera, mas com as que iria ter a partir dali”, contou Todd ao "AZ Central".

4) História Com Fim Antes Do Fim

Se a vida, como ela é para Todd Rundgren, começa fazer sentido exatamente ao 18, desde que completou a maioridade, suas memórias terminam (oficialmente) no dia em que ele, hoje com 71 anos de idade, completou seu meio século de vida. E a infância também está relacionada a isso.

O livro acaba no aniversário de 50 anos de Todd Rundgren — também o dia em que ele se casou, para construir uma família. “Eu passei a focar minha vida mais em criar meus filhos e, na boa, essa não é uma história interessante para se contar”, assume, entendendo que a procura de seus potenciais leitores será, obviamente por sexo, drogas e rock’n’roll. “Ninguém quer saber de você levando seus filhos ao jogo de beisebol”, diverte-se. “Então, eu estabeleci um final conveniente, um bom ponto final. Imagina se eu viver até os cem anos? Serão 50 anos de papo enfadonho para o público.”

Todd Rundgren em uma de suas múltiplas habilidades, a guitarra  Chris McKay/Getty Images
Todd Rundgren em uma de suas múltiplas habilidades, a guitarra Chris McKay/Getty Images

5) Opção Pelo Popular

Ao dividir suas memórias em 183 capítulos — um por página, com três parágrafos —, Todd Rundgren conta que tentou torná-lo mais fácil de ser lido, tomando seus critérios pessoais e entendendo que outras pessoas poderiam ter as mesmas dificuldades.

Como em uma boa canção pop, ele facilitou a apreciação popular, com honestidade. A divisão em tantos capítulos, todos tão curtos, pode, para ele, facilitar a leitura das outras pessoas, indo a pontos que as interessem e descartando os demais, com os quais gastariam tempo, sem tirar proveito dele.

Todd Rundgren também defende sua decisão de terminar a narrativa de suas memórias no ponto em que completou 50 anos, afirmando que não haveria por que o público cobrar — pois, com frequência, faz o mesmo em relação à sua música. “Não vejo pessoas clamando por material pós-1998”, conta, novamente gargalhando. “Muitos ouvintes pararam de ouvir música nova no final dos anos 1970, ou no início dos 1980, muito frequentemente depois de terem seus filhos também. É quando sua renda passa a ir toda para os filhos — inclusive para a música que os seus filhos querem, não você”, brinca.

Faixa-bônus: Não Se Repita

No palco, em seus shows solo, Todd Rundgren toca alguns de seus sucessos, como “Hello, It’s Me”, mas também faz questão de músicas menos conhecidas. Veia pop à parte, ele diz que evita “entrar em um piloto automático” e afirma que esse fator o levou a deixar a All Star Band de Ringo Starr, projeto do baterista dos Beatles com músicos de outras bandas famosas, com a qual tocou recentemente e pela qual também passaram John Entwistle (1944-2002), baixista do The Who, e Mark Farner, guitarrista do Grand Funk Railroad, entre outros. “Esse foi o motivo pelo qual deixei a Ringo’s All Star Band. O mesmo setlist por cinco ano e meio”, afirma.

Todd Rundgren, à direita, com Ringo Starr e sua All Star Band   Scott Dudelson/Getty Images
Todd Rundgren, à direita, com Ringo Starr e sua All Star Band Scott Dudelson/Getty Images

Cansaço à parte, Todd Rundgren levanta a bola de Ringo. “Ele é o tipo do cara igualitário. No palco, é mais um dos músicos e [em tournê] todos se hospedam no mesmo hotel que ele. Saímos todos juntos, rimos das mesmas piadas juntos, mesmo que as decisões necessárias fiquem por conta dele. É o cara comum que quis e pôde ser após a separação dos Beatles”, elogia.

Cada músico também tocava suas músicas. “I Saw The Light”, “Hello, It’s Me” e “‘Can We Still Be Friends?” eram algumas frequentes no set cantado por Todd.

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest