'O Irlandês' traz mais uma fina seleção musical de Scorsese — sem Stones
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'O Irlandês' traz mais uma fina seleção musical de Scorsese — sem Stones

Pouca gente sabe que, a primeira vez que Martin Scorsese ganhou créditos num filme, foi como editor assistente em “Woodstock” (1969). Porque, antes de tudo, Marty é um grande fã de música. Especialmente do rock de sua geração. Por isso, a música em seus filmes tem importância vital. Diferentemente do Tarantino — assunto da coluna anterior —, Marty não busca pela música mais estranha/bizarra e/ou desconhecida. É fã dos hits. Inclusive, foi o diretor do clipe para “Bad”, do Michael Jackson.

Além da refinada garimpagem para suas trilhas, Scorsese (cujo novo filme, “O Irlandês”, acaba de estrear no Netflix), vez por outra, dirige algum show ou documentário de seus artistas favoritos. Como é o caso do fascinante doc “Rolling Thunder Revue: a Bob Dylan story by Martin Scorsese” (Netflix), no qual ele documentou a estranha (e meio flopada) turnê que Dylan empreendeu pelos Estados Unidos em 1975, quando tentava se reinventar, mudar um pouco a imagem de bardo folk, com auxílio de gente como o poeta beat Allen Ginsberg, Patti Smith e Joan Baez.

Antes de revisitar Dylan, em 2011, Marty relembrou George Harrison (1943-2001), em “Living in the Material World”, no qual examinava a vida do eterno beatle através de entrevistas, fotos, trechos de shows e filmes caseiros. É o mais completo documento sobre George.

Alguns anos antes deste, em 2008, Scorsese dirigiu e capturou “Shine a Light”, um concerto especial dos Rolling Stones, no Beacon Theater, em Nova York, enquanto a banda britânica empreendia uma nova turnê mundial. Além de passar nos cinemas, o filme saiu em DVD e teve sua trilha lançada em CD. Esse show captou um momento mais intimista dos Stones. Em vez das grandes arenas, um pequeno teatro.

Não foi a primeira vez que Scorsese captou uma banda ao vivo. No período entre dois de seus maiores sucessos, o cult “Taxi Driver” (1976) e o clássico “Touro Indomável” (1980), Marty se dedicou a registrar aquela que seria a última apresentação do grupo canadense-americano The Band, em “O Último Concerto de Rock’ (“The Last Waltz”, 1978). Acabou não sendo o fim da banda. Mas, com certeza, é um dos melhores concertos já filmados.

Voltando aos dias atuais — e a “O Irlandês”, que além do Netflix, também está nos cinemas —, a música é de extrema importância na trilha deste. O drama de mafiosos junta um time de responsa: Al Pacino, Robert De Niro e Joe Pesci. Estes dois últimos, parceiros dos gangster movies de Marty, “Os Bons Companheiros” e “Cassino”. Já Pacino, por incrível que pareça, está pela primeira vez num filme do Scorsese.

Com cenas passadas em dois recortes de tempo — os dias finais de Frank Sheeran (Deniro) e as lembranças deste, como matador de aluguel —, a trilha passeia por hits dos anos 1950/60, quando o irlandês “pintou muitas paredes” (eufemismo para seus assassinatos), inclusive se envolvendo com o sindicalista Jimmy Hoffa (Pacino). Então, temos desde temas instrumentais, que tocavam nas boates da época, como “Tuxedo Junction’, com a Glenn Miller Orchestra, e “Delicado”, o famoso choro do mestre do cavaquinho Waldir Azevedo (1923-1980), na versão que estourou nos Estados Unidos, de Percy Faith & his Orchestra; ao rock raiz de Fats Domino (“The Fat Man’), à latinidade de Perez Prado (“Qué Rico El mambo’) e crooners, como Santo & Johnny (“Sleepwalk”) e Donnie Elbert (“Have I Sinned”). O tema-título ficou a cargo de um favorito de Marty, Robbie Robertson, ex-líder da The Band. Só não deu para incluir uma dos Stones.

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