O Nirvana e a luta contra o machismo, o racismo e a homofobia
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O Nirvana e a luta contra o machismo, o racismo e a homofobia

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Em dezembro de 1992, quando lançou a coletânea “Incesticide”, o Nirvana já havia se tornado, para a surpresa de todos, a maior banda do mundo. Somente três anos haviam se passado desde seu disco de estreia, “Bleach”, e pouco mais de um ano após a revolução e o gigantesco sucesso comercial de “Nevermind”. Repleto de sobras de estúdio, regravações obscuras e demos, “Incesticide” era o contrário do que se podia esperar de uma banda de sucesso naquele momento — frustrar o mercado, no entanto, era de fato uma premissa ética que Kurt Cobain, Krist Novoselic e Dave Grohl traziam como bagagem da tradição punk e underground com a qual haviam crescido. Uma frase escrita no libreto do disco definia ainda melhor a ética que fez do Nirvana não só um grande vendedor de discos, como também uma das mais importantes bandas de todos os tempos. 

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“Se qualquer um de vocês em qualquer sentido odeia homossexuais, pessoas de outras cores ou mulheres, faça-nos um favor: nos deixe em paz! Não venha aos nossos shows e não compre nossos discos”. A contundente afirmação iluminava um sentido profundo por trás do Nirvana que por vezes acaba eclipsado justamente pelo imenso sucesso que a banda alcançou: há quase 30 anos, solitária em um cenário musical dominado por homens, pelo machismo, o sexismo e a corrida comercial, o Nirvana era não só uma banda que sublinhava a importância do feminismo, como denunciava a masculinidade tóxica, a desigualdade de gênero, a homofobia e a violência masculina – acima até mesmo de seu próprio sucesso. 

Se qualquer um de vocês em qualquer sentido odeia homossexuais, pessoas de outras cores ou mulheres, faça-nos um favor: nos deixe em paz! Não venha aos nossos shows e não compre nossos discos

E como se a frase em “Incesticide” não deixasse clara a posição da banda, “In Utero”, último disco de estúdio da banda, trazia em seu libreto uma afirmação ainda mais direta e radical: “Se você é sexista, racista, homofóbico ou basicamente um idiota, não compre esse CD. Eu não me importo se você gosta de mim, eu odeio você”. Para além da qualidade de Kurt Cobain como compositor e cantor, seu carisma e até mesmo sua beleza física, isso sem falar na violenta e vibrante energia sônica do grupo ao vivo, o Nirvana foi uma das mais engajadas bandas de sua época, tendo o machismo como o mais claro alvo de suas críticas. 

Pois trata-se de uma afirmação intelectualmente preguiçosa a máxima de que as letras de Cobain não têm sentido: são muitas as canções que tratam diretamente do tema, e que permanecem hoje ainda contundentes e precisas. “Been A Son”, lançada em “Incesticide”, fala de um pai misógino que odeia a filha simplesmente por ela não ser homem. “Ela deveria ter morrido quando nasceu/ Ela deveria usar uma coroa de espinhos”, diz a letra, para concluir, no refrão: ela deveria ter “sido um filho”. O mesmo vale para “Sappy”, uma pouco conhecida joia pop que comenta a opressão contra a mulher e a significa no refrão que grita: “Você está em uma lavanderia”. 

A lista de canções sobre machismo e violência é realmente extensa: “Polly” conta a história real de uma menina de 14 anos que conseguiu convencer seu sequestrador a libertá-la; “Floyd The Barber” e “Very Ape” atacam a burrice machista; “Pennyroyal Tea” desenha um delicado poema sobre aborto; “Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle” conta sobre uma atriz da era dourada do cinema americano que acabou internada contra sua vontade em um sanatório – além, é claro, de “Rape Me”, um manifesto anti-estupro que sublinha a resiliência e a força das mulheres vítimas de violência sexual. 

Desde o início de sua carreira, principalmente em entrevistas, Kurt Cobain posicionou-se com firmeza sobre como identificava-se com a comunidade LGBTQ+, assim como com a causa das mulheres. Tais princípios pautaram sua relação com os fãs quando, diante do sucesso da banda, percebeu que as pessoas que o desprezavam e que ele desprezava no passado agora frequentavam seus shows – a música “In Bloom” é sobre isso. 

E se há algum sentido que uma banda pode almejar é  jogar luz sobre o obscurantismo e procurar conscientizar os fãs das desigualdades e do horror, em favor de um mundo mais justo e melhor

É claro que o feminismo já era um longevo movimento sólido e fundamental nos anos 1990, mas o rock permanecia tão machista e desigual quanto sempre fora. Foi nesse cenário que o Nirvana participou de shows pela legalização do aborto, contra leis homofóbicas, e ainda recusou-se a dividir uma turnê com os Guns n’ Roses por conta de declarações racistas e misóginas por parte de Axl Rose. Para muitos jovens que cresceram nos anos 1990, as músicas e entrevistas de Kurt Cobain seriam os primeiros contatos com a necessidade de conscientização sobre a situação da mulher.  

E se há algum sentido que uma banda pode almejar para além do entretenimento mero e dos milhões em uma conta bancária é esse: jogar luz sobre o obscurantismo e procurar conscientizar os fãs das desigualdades e do horror, em favor de um mundo mais justo e melhor. As críticas ao capitalismo, à sede comercial e ao esvaziamento da música e da cultura nos anos 1990 podem ser a parte mais evidente da ética que formou o Nirvana – mas era a crítica ao machismo e à masculinidade tóxica e violenta que serviam como base ao ativismo no qual a banda efetivamente se engajou durante sua época, e que definem o repertório ético da mais importante banda de rock da história depois dos Beatles. 

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