O rock sumiu do rádio brasileiro. O que isso significa?
Na BR-3

O rock sumiu do rádio brasileiro. O que isso significa?

Você deve ter visto: o rock foi varrido da lista das 100 músicas mais tocadas nas rádios brasileiras em 2019. Se você não viu, pode ver as notícias sobre 2018, 2017, 2016, 2015, 2014... As pautas são sempre as mesmas: o sumiço do rock, a supremacia do sertanejo, as exceções que confirmam a regra (Jota Quest, Nando Reis ou Skank com baladas de violãozinho). Mas o que isso realmente significa?

COLUNA ANTERIOR: A década em que a música evaporou: os 20 melhores álbuns dos anos 10 no rock e no rap nacional
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Bem, em primeiro lugar, é importante saber quem é o instituto que produz o Top 100. A Crowley Broadcast Analysis surgiu em 1997, ano do lendário “boom” do disco no Brasil, período em que o mercado de discos nacional ultrapassou pesos-pesados como Holanda, Austrália, México e Canadá e firmou-se como o sexto maior do mundo. Apesar do dinheiro em circulação (um bilhão de dólares no ano, alegadamente) o mercado brasileiro continuou incivilizado. Não havia uma parada de sucessos, por exemplo, porque os varejistas não gostavam da ideia de fornecer relatórios do que vendiam – tampouco as gravadoras, que trabalhavam em consignação com grandes redes de supermercados e despejavam números inflados no mercado, que de muito disco de ouro e platina, eram recolhidos logo em seguida em direção a seus depósitos.

A Crowley apareceu se oferecendo como um sistema digital de monitoramento de rádio. Em outras palavras, seus algoritmos reconheciam as músicas executadas nas rádios e montavam automaticamente, sem interferência humana, os rankings do dia, da semana, do mês, do ano. Aparentemente, a Crowley substituía com enorme vantagem dois buracos na cultura musical brasileira: as primitivas “rádio-escutas” (os relatórios produzidos manualmente por estagiários em gravadoras e rádios) e as paradas de sucesso mequetrefes da Nelson Oliveira Pesquisas e Estatísticas de Mercado, produzidas por pesquisadores em seus caderninhos pelas lojas de discos das cidades.

Luan Santana, artista mais tocado da década, segundo serviço de monitoramento do rádio/ Maurício Santana (Getty)
Luan Santana, artista mais tocado da década, segundo serviço de monitoramento do rádio/ Maurício Santana (Getty)

E quem eram os principais clientes da Crowley?

Em primeiro lugar, os escritórios de arrecadação de direitos autorais, que pagavam (caro) pelos relatórios da empresa para ter um controle mais adequado de quais músicas de seus artistas tocaram em quais rádios e quantas vezes. Em segundo lugar, as próprias gravadoras. Você já deve ter imaginado o motivo: conferir se o “jabá” combinado com a rádio estava tendo contrapartida em execuções. “Jabá” é o apelido carinhoso para a tradição de corromper a programação das rádios pagando pela execução das músicas. Até os anos 80, o jabá era suborno em forma de viagens, drogas ou favores aos programadores. A partir dos anos 1990, surgiu o “serviço de implantação de novos produtos”: o departamento de marketing oferecia promoções aos ouvintes, o empresário oferecia shows dos artistas para a rádio, os diretores faziam acordos de equipamento e trocas diversas de favores.

Ou seja: a Crowley nunca foi uma parada de sucessos. Porque uma parada mede o gosto do público — os singles e discos que o cidadão comum QUIS comprar, ou as músicas que o público QUIS ouvir. A Crowley mede apenas o quanto as gravadoras mandaram as rádios tocarem. Toca mais quem paga mais.

Quem conhece o ambiente do rádio brasileiro sabe que as ambições artísticas de seus donos são tão altas quanto, digamos, as de um serralheiro ou de um gerente de supermercado. Via de regra, as concessões são liberadas por conchavos políticos e as rádios acabam dirigidas pelos filhos, mulheres ou netos de senadores ou deputados — isso quando não são arrendadas para igrejas, que pagam muito melhor do que qualquer gravadora.

Que o sertanejo domine as rádios brasileiras na ordem de 70% é o caminho natural do business de rádio: empresários montados no dinheiro do agronegócio, fermentados em eventos municipais superfaturados, sentados de um lado do balcão; do outro, donos de rádios dispostos a fazer qualquer negócio desde que não precisem ouvir um disco ou escolher eles próprios uma música. O Top 100 da Crowley é o extrato bancário dessa transação: o empresário pagou mesmo, a rádio tocou mesmo, está lá na lista.

É uma vergonha, em diversos sentidos.

Em primeiro lugar, porque não é admissível que 73% da música em circulação em qualquer plataforma seja de um único gênero. Não está em discussão a qualidade aqui: poderia ser Vivaldi ou Leonard Cohen, seria inadmissível da mesma forma.

O que se chama hoje de sertanejo tem pouco a ver com a linhagem iniciada por Cascatinha & Inhana e modernizada por Chitãozinho & Xororó. É uma música de mercado, pop brasileiro com os pés no acelerador da SUV e subwoofer no talo no porta-malas. É pop, feito pra comunicar, palmas pra ele. Mas quando ele engole o pagode romântico, quando escanteia a MPB, quando espanta o pop-rock (que continua lá com seus representantes populares na Argentina, França, Portugal, Espanha etc), quando o resultado é RADICALMENTE diferente do que se vê nas plataformas de música on-demand, aquilo não é o fim do rock: é o fim do rádio.

E isso também é uma vergonha. Rádio é uma delícia, para quem ouve e para quem faz. Num mundo de desengajamento completo e de cultura prática e casual como este em que vivemos, rádio seria o veículo perfeito para ouvir enquanto fazemos algo. A música chega de surpresa, nos encanta, nos informa e seguimos todos em frente. Os locutores que estão no ar no nosso caminho para o trabalho ou para a faculdade são nossos amigos, e os horários alternativos são nossos professores.

Mas — e chegamos ao assunto dessa coluna, o rock, mesmo na visão nada sectária que temos por aqui — há a vergonha em relação às rádios especializadas. Escrevi esse texto acompanhando as duas principais rádios brasileiras do gênero — a Rádio Cidade do Rio e a 89FM de São Paulo — e comparando o tempo todo com a Radio X de Londres e a KROQ de Los Angeles. A comparação é melancólica: as rádios brasileiras têm uma única mensagem a seus ouvintes: não há nada de interessante sendo feito atualmente no rock, tudo o que importa aconteceu até 1995, músicas novas são um fardo que suportamos só porque antes vem aquela dos Chili Peppers e depois aquela dos Foo Fighters. E rock brasileiro bom é Legião, Titãs, Raimundos, gente que jamais tocaria na programação se estivessem começando hoje porque nosso espelho retrovisor é muito maior do que nosso para-brisa.

O rock não é a bola-da-vez do mercado em lugar nenhum do mundo, mas nenhum outro país entregou os pontos com tanta convicção quanto o Brasil.

As rádios brasileiras estão erradas e não apenas porque há fartura de gente fazendo música criativa, entusiasmante e comunicativa neste exato momento. Elas estão erradas estrategicamente porque estão, tijolo a tijolo, construindo um muro entre elas e quem ama músicas e se entrincheirando na irrelevância — porque a Legião não existe mais, porque os Paralamas não vão lançar seu melhor disco em 2020 e porque a Rita Lee não vai ajudar a movimentar a cena da qual as próprias rádios se alimentam.

Semana passada eu subi a playlist com as 50 grandes músicas do pop-rock brasileiro da década de 2010 (confira abaixo). Um leitor notou, atento, que todas já são clássicos nos shows, nas ruas, nos festivais, e nenhuma delas tocou nas rádios brasileiras. Em parte porque o negócio de rádio do Brasil não é sobre música, mas em parte porque as rádios que escolheram brigar pelo rock estão ocupadas demais cavando seu próprio passado para se preocupar com o presente — o que dirá com o futuro.

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