O som das plantas: novas tecnologias permitem traduzir em música variações eletromagnéticas dos vegetais
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O som das plantas: novas tecnologias permitem traduzir em música variações eletromagnéticas dos vegetais

Muitas pessoas conversam com os animais de estimação — e eles quase sempre prestam atenção e até respondem. Tem muita gente também que conversa com suas plantas, hábito que Roberto Carlos já admitiu ter, em meados dos anos 1970. Mas essa comunicação pode atingir novos níveis agora, com tecnologias que pretendem "traduzir" os sons das plantas. Parece loucura, mas os estudiosos e as empresas garantem que é sério.

A música de vegetais já é algo perceptível para quem não é cientista. Por meio de dispositivos de bio-sonificação, como a Music of the Plants e a PlantWave, os amantes do verde podem abrir canais de comunicação com suas plantas, conduzidas em forma de "ruído ambiente"; eles "leem" o que as plantas estão "emitindo".

"Desde os anos 1970 se pesquisa a comunicação com o mundo das plantas. Como parte dessa pesquisa, criou-se um instrumento capaz de perceber as variações eletromagnéticas da superfície das folhas das plantas para o sistema radicular e as traduzir em som. A Music of the Plants levou a pesquisa de inteligência e percepção das plantas a outro nível. Ao decifrar e registrar os impulsos e interações das plantas, eles desenvolveram um dispositivo que usa uma interface MIDI para transformar a resistência da planta de uma folha para o sistema radicular em música", informa o site da Music Of The Plants.

A empresa criou um aparelhinho chamado Bamboo, que é vendido por US$ 430 (básico) e US$ 474 (com parâmetros musicais. Além do uso doméstico, a música originária das plantas pode ser usada de várias maneiras. Os músicos podem misturá-la em suas composições, os estúdios de ioga podem usá-la como música ambiente, hospitais e escolas poder adotar o equipamento para trazer benefícios à saúde e ajudar no aprendizado. É um recurso também adaptável a instalações artísticas e públicas, onde pode conscientizar as pessoas sobre o relacionamento entre plantas e humanos para criar uma sociedade sustentável.

O dispositivo Bamboo, da Music of the Plants. Foto: Reprodução
O dispositivo Bamboo, da Music of the Plants. Foto: Reprodução

Em 2012, a Data Wave, gravadora de Joe Patitucci e Alex Tyson, fez uma parceria com o Museu de Arte da Filadélfia para criar uma instalação. O resultado foi o "Data Garden Quartet", com quatro plantas que tocavam música contínua. Depois disso, os executivos partiram para a criação de uma versão comercialmente disponível para músicos e amantes de plantas e chegaram ao PlantWave. O dispositivo custa US$ 249 e só está disponível a partir de julho deste ano. A versão para consumidor da invenção inclui sensores que emitem pequenos sinais através da instalação, medindo variações na resistência elétrica entre dois pontos dentro dela.

O Plantwave, criado pela gravadora Data Wave. Foto: Reprodução
O Plantwave, criado pela gravadora Data Wave. Foto: Reprodução

Segundo a empresa, sua principal missão é promover a conscientização das plantas como organismos vivos. "Acho que algumas pessoas estão muito conscientes de que as plantas são seres que, possivelmente, tomam decisões por si mesmas e respondem ao seu ambiente", diz Jon Shapiro, gerente do Data Garden, ao "National Public Radio".

Mas vamos com calma, porque dizer que as plantas "tocam instrumentos" é uma figura de linguagem. "As plantas não parecem flautas!", diz Shapiro. Variações como o movimento das folhas, a quantidade de água que recebe e os momentos de fotossíntese variam o tipo de mensagem que é passado para o dispositivo. Daí, o software apresenta diferentes instrumentos eletrônicos — flauta, harpa, piano, guitarra, baixo e alguns sintetizadores — que você pode escolher para as plantas "tocarem", escalando-os para que sejam harmoniosos. Uma sinfonia gerada por algoritmos e folhas.

Há outros detalhes que influenciam no resultado do som. Algumas plantas são pequenas ou delicadas demais para serem medidas, enquanto que uma árvore grande pode trazer apenas algumas notas. Portanto, é ideal que seja uma planta doméstica de médio porte, saudável e brilhante. "Mesmo dentro da mesma espécie e até da mesma planta, dependendo das duas folhas que você escolher, a flutuação entre dois pontos será diferente dentro de cada planta", diz Patitucci.

Plantas saudáveis e brilhantes podem dar um resultado musical de melhor qualidade. Foto: Unsplash
Plantas saudáveis e brilhantes podem dar um resultado musical de melhor qualidade. Foto: Unsplash

A música ainda pode mudar com as alterações na luz, hora do dia, níveis de oxigênio e até mesmo em resposta aos movimentos na sala. "Uma das coisas mais empolgantes não é necessariamente encontrar um som específico de uma planta, mas me familiarizar com os padrões dessa planta", diz o criador da Plantwave, que mais uma vez chama a atenção que esses são sons gerados pelo homem, mesmo que estejam respondendo a mudanças internas na planta. Embora as plantas produzam sons, não são para se comunicar com os humanos.

Patitucci diz que, no Data Garden, eles evitam a todo custo antropomorfizar as plantas. "Eu acho que muitas vezes quando as pessoas pensam em música vinda de plantas, pensam 'será que isso significa que está brava?' Ou triste? É realmente importante entender que esses são seres que vivem em outra dimensão", destaca.

Esse é um paradoxo sobre a música vinda das plantas: a escala e tom humanos permite ter mais consciência de que as plantas estão vivendo, mas por outro lado, faz pensar que se sentem como nós, o que não é real.

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