O 'unicórnio' da Portela: álbum raro da escola de samba carioca será lançado após 60 anos de esquecimento
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O 'unicórnio' da Portela: álbum raro da escola de samba carioca será lançado após 60 anos de esquecimento

A história fonográfica da Música Popular Brasileira pode ser comparada a um imenso jogo de quebra-cabeças, em que cada disco é uma peça. Ao longo do tempo, no entanto, algumas dessas partes se perderam, seja por decisão de gravadoras, empresários ou por vontade dos próprios artistas. Nas próximas semanas, o Reverb vai remontar algumas delas. A série de reportagens "Discografia Perdida da MPB" recuperou os bastidores da criação de álbuns nunca lançados por artistas como Rita Lee, Cássia Eller e Lulu Santos. Apesar de terem sido gravados, esses projetos jamais viram a luz do dia e hoje estão esquecidos em estantes empoeiradas de acervos particulares, tornando-se objeto de desejo dos colecionadores e caçadores de relíquias.

Muitos pesquisadores dedicam suas vidas à busca por essas "peças" perdidas. Paulo Mathias, do Instituto Glória ao Samba, é um deles. O paulista, colecionador de discos de vinil, passou nove anos procurando por um lendário disco gravado por integrantes da Portela em 1959, de cuja existência muita gente duvidava. Ninguém tinha notícia do paradeiro da gravação, e tudo que restava do bolachão era sua ficha técnica com a lista de 12 faixas que o compunham. Ao lado de Rafael Lo Ré, também do Instituto, ele conseguiu localizar no ano passado Gracita Garcia, herdeira de Irineu Garcia, responsável pelo Selo Festa e idealizador do projeto do disco, cujo engavetamento nunca foi plenamente explicado. Sabe-se que o selo dedicava-se mais ao lançamento de poesia do que à música, com algumas exceções como o disco de Elizeth Cardoso em 1958.

Após uma longa corte com a sobrinha de Irineu, eles se cotizaram para adquirir a fita de rolo que continha sete canções do álbum. Quando ouviu pela primeira vez a voz do mestre Avelino de Andrade ecoar, Mathias não segurou as lágrimas.

– Esse tipo de samba mexe demais comigo – diz Mathias, que compara o álbum a um unicórnio, tamanha a sua aura mítica entre os sambistas – Quando eu escuto o disco, me emociono. É uma parte da história que está sendo recuperada. Quis tentar contribuir um pouco. Sei que Paulo da Portela, ou Monarco, eu nunca vou ser. O que eles fizeram pela música é muito grande. Mas fico satisfeito em contribuir com um tijolinho para a história do samba.

É como se achassem um registro inédito do Botafogo de Garrincha e Nilton Santos em campo, driblando os adversários e encantando a torcida no Maracanã

Gravado nos estúdios da Odeon, o disco oferece uma qualidade superior aos outros registros de escolas de samba da época, como o disco da Portela de 1957, cujos poucos exemplares hoje à venda ultrapassam R$ 1 mil. Sua audição pode dar aos ouvintes uma noção mais exata de como as agremiações carnavalescas soavam à época. Para os portelenses, a descoberta foi um bálsamo: sob o comando do bicheiro Natal, a maior campeã do carnaval carioca viveu uma de suas épocas de ouro nos anos 1940 e 1950 e chegou a celebrar um tetracampeonato de 1957 a 1960. É como se achassem um registro inédito do Botafogo de Garrincha e Nilton Santos em campo, driblando os adversários e encantando a torcida no Maracanã.

Além da inegável contribuição artística à cultura do carnaval, a descoberta do Instituto, fundação baseada na capital paulista que há dez anos pesquisa o assunto, tem valor histórico. A melodia do samba enredo campeão de 1958, por exemplo, havia sido esquecida até pelos maiores baluartes da Portela: apenas Tia Surica era capaz de cantá-lo com alguma exatidão. A gravação também foi a primeira a registrar uma canção de Manacéa, um dos maiores sambistas da azul e branco de Oswaldo Cruz e Madureira: "Manhãs Brasileiras". Num ambiente onde a tradição oral ainda permanece como principal fiadora da história, o achado foi celebrado por trazer luz a um período pouco documentado.

– Temos uma relação longa com a Portela – diz Mathias. – Já fomos diversas vezes à escola para gravar depoimento da Velha Guarda e a recepção é sempre muito boa. O presidente Luiz Carlos Magalhães sabe da nossa preocupação com a escola. Sou louco pela história da Portela.

Rolo com as gravações originais do álbum perdido da Portela / Divulgação
Rolo com as gravações originais do álbum perdido da Portela / Divulgação

Na fita de rolo descoberta na casa de Garcia, há também uma composição inédita de Walter Rosa e contribuições de Chatim e Jair do Cavaquinho. Ao todo, além de "Manhãs Brasileiras" e "Vultos e Efemérides Nacionais" (o samba de 1958), estão registradas “Bahia” (Chatim), “A Hora é Essa” (autor desconhecido), “Crepúsculo” (Walter Rosa), “Incrível Destino” (S. Costa e Beatriz) e “Mulher Ingrata” (Jair do Cavaquinho). O disco, no entanto, ainda guarda alguns segredos, que os pesquisadores tentam decifrar. A autoria de algumas canções é um deles. O paradeiro das outras cinco canções, que totalizam as 12 registradas na lista que motivou a busca, é outro.

– No Instituto Memória Musical, há a ficha técnica do disco. Consta como se ele tivesse sido lançado com 12 faixas. Na fita original, no entanto, só há sete. Quando esse disco passou por gravadoras, deve ter sido catalogado erroneamente. Há sambas na lista que são da década de 1960. Meu palpite é que pretendiam fazer um apanhado, uma coletânea.

Agora, os planos do Instituto são relançar o disco em vinil. Segundo o cronograma, o disco deve sair até o meio do ano, para deleite dos apaixonados pela história do samba. Mathias explica:

– Estamos correndo atrás – conta o pesquisador, que também é jornalista prepara uma biografia de Paulo da Portela. – Se fosse para lançar em CD, já teríamos feito. Agora, o disco está em fase final de captação de recursos. Tudo que se faz no Glória ao Samba é sem fins lucrativos. A gente vai se cotizando, juntando. Toda grana que entra vai para um fundo. Lançar em vinil é caro. A capa já está pronta, estamos finalizando a master para CD e LP. Está tudo engatilhado, só falta a grana mesmo.

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