'O violão deve ser banido', provocam os Pet Shop Boys, no papel revolucionário de 'velhos' do pop eletrônico
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'O violão deve ser banido', provocam os Pet Shop Boys, no papel revolucionário de 'velhos' do pop eletrônico

O novo álbum dos Pet Shop Boys é, segundo eles, o terceiro de uma trilogia. "Hotspot" é a sequência de "Electric", de 2013 e "Super", de 2016, todos com o produtor Stuart Price. São trabalhos que marcam o retorno da dupla ao “purismo eletrônico” após uma sucessão de álbuns onde, como Neil Tennant diz, “fingiram ser uma banda de rock”.

É importante notar que, nos últimos anos, os Pet Shop Boys tiveram uma atuação, no mínimo, diversificada. Escreveram trilhas sonoras para o "O Encouraçado Potemkin", clássico filme mudo de Sergei Eisenstein (1898-1948), de 1925, e para o balé "The Most Incredible Thing", baseado em um conto de fadas de Hans Christian Andersen (1805-1875), em 2011. Estrearam "A Man From the Future", uma espécie de oratório pop baseado na vida de Alan Turing no The Proms, festival anual de música clássica da BBC, fizeram a música da adaptação teatral do filme "Minha Adorável Lavanderia", de Stephen Frears, além de seis canções para o musical "Musik", protagonizado por Billie Trix, personagem do musical "Closer To Heaven", de 2001.

Nesse cenário, a trilogia "Electric/Super/Hotspot" parece um retorno ao que se pode chamar de fundamentos do Pet Shop Boys. Eles começaram sua carreira em 1984, transformando o som predominante dos clubes gays da época em uma marca de música pop muito britânica e inteligente, repleta de referências sociais sutis. O curioso é que, mesmo após 30 anos da dupla explicando pacientemente que "Opportunities (Let's Make Lots of Money)" era uma sátira aos excessos dos anos 80, diretores de TV e cinema continuam incluindo a música em cenas de yuppies gritando em enormes telefones celulares ou tomando champanhe.

Muita coisa mudou desde 1984, no entanto. Por um lado, os Pet Shop Boys venderam 100 milhões de discos. Mas, enquanto a maioria de seus contemporâneos está há muito tempo ligada ao circuito da nostalgia ou desapareceu, os Pet Shop Boys se tornaram uma espécie de curiosa instituição nacional, com estrelas mais jovens querendo trabalhar com eles.

A dupla vai fazer uma turnê europeia de 25 datas com seus maiores sucessos a partir de maio. E pensar que Tennant já chegou a falar em aposentadoria: "Anunciei que iria me aposentar quando tocamos em um local meio vazio em Grimsby no meu aniversário em 2002", lembra ele, em entrevista ao "The Guardian".

E, no entanto, aqui estão eles, em 2020, mais ou menos onde estavam em 1984, residentes ocasionais de Berlim. Eles têm um apartamento na cidade com uma cozinha convertida em um estúdio de gravação. "Tem um equipamento completo, com um vocoder que nunca usamos porque não sei como conectá-lo”, diz Lowe. A música resultante dessas sessões são, pelo menos parcialmente, inspirada na vida noturna da cidade. Afinal, são frequentadores regulares do clube techno Berghain. "Vamos aos almoços de domingo, por volta das 12 horas. Nós subimos ao Panorama Bar e tomamos um copo de prosecco. Você percebe pessoas que estiveram lá a noite toda, elas estão absolutamente irritadas, mas também há novos frequentadores, e é uma atmosfera muito interessante. E é ótimo caminhar da luz do dia para a pista de dança completamente escura”, conta Tennant.

Se a tendência da dupla pela sátira parece menos presente em "Hotspot", diz Tennant, é porque foi "desviada" no EP "Agenda", de 2019, que tinha as músicas "Give Stupidity a Chance" e "What Are We Going to Do About the Rich?", de longe as mais críticas do grupo. “Qual foi a reação a elas? Provavelmente negativa”, ri Tennant.

Quando as conversas se voltam para a atual safra de cantores sérios pós-Ed Sheeran, Tennant, talvez de forma imprudente, sugere: “Acho que o violão deveria ser banido, na verdade.” Enquanto isso, Lowe, ao contrário de sua imagem pública - silencioso sob uma seleção de chapéus absurdos - é muito engraçado sobre tudo, desde a voz de seu parceiro ("Neil não é da tradição do evangelho, apesar de ter sido um coroinha"), à americanização da cultura britânica: “Não acredito que as escolas começaram a ter bailes de formatura. Como se a escola não fosse ruim o suficiente sem um baile de fim de ano. Eles nunca terminam bem em filmes, não é? Todos nós já vimos 'Carrie, a Estranha' (clássico filme de terror de 1976 dirigido por Brian de Palma)".

Em todo esse tempo de carreira, um elemento de mistério e distância permanece intacto: o que eles fazem quando não são os Pet Shop Boys? Suas vidas privadas permaneces em grande parte desconhecidas. Chegaram a participar de mídias sociais, mas logo desistiram porque se deram conta que envolvia "interação". “Fomos os primeiros a adotar o Twitter e os que abandonaram mais cedo. A única coisa que eu gostei foi bloquear as pessoas. Adorei bloquear!, diz Lowe.

Eles se sentem um pouco fora de lugar na obsessão por autenticidade do pop atual. “Estamos sempre procurando euforia e emoção na música, esse tipo de sentimento que tivemos na primeira vez em que ouvimos os discos de Bobby O, ou 'Helter Skelter' dos Beatles. Essa coisa eufórica voltou com a cena rave nos anos 80, mas atualmente não está no cerne da música pop", diz Tennant. O músico chama a atenção para a forte influência da mídia social na música atual. "As mídias sociais criaram e definiram a forma da música popular e, infelizmente, acho que isso leva à rota da miséria narcísica. Não tem a importância que tinha antes, tornou-se uma faceta das mídias sociais. Você sabe, para tudo o que fazemos, há pessoas trabalhando para editar em 10 segundos, literalmente tudo. Eu me pergunto o que aconteceria agora se você lançasse uma 'Bohemian Rhapsody'", questiona Tennant.

Pet Shop Boys: 'a música popular se tornou uma faceta das mídias sociais'. Foto: Getty Images
Pet Shop Boys: 'a música popular se tornou uma faceta das mídias sociais'. Foto: Getty Images

Por outro lado, Tennant reconhece que eles nunca se encaixaram no mercado. “Quando começamos, realmente pensávamos que criaríamos nosso próprio mundo. E quando fizemos colaborações, as julgamos com muito cuidado. Então, nossa primeira colaboração foi com Dusty Springfield ('What Have I Done To Deserve This?', de 1987). Nossa gravadora não queria que trabalhássemos com ela, queriam Tina Turner ou alguém assim. Lembro-me do diretor da EMI dizendo 'Posso pegar Streisand!'. Depois, trabalhamos com Liza Minnelli, que chocou, mas todos concordaram que funcionou, porque é o nosso mundo”, lembra.

Mas, é claro, eles ainda estão por aí. Seus álbuns e singles frequentaram o Top 10 através das décadas. O musical "Musik", que tem seis canções de Tennant e Lowe, está prestes a estrear em Londres, e há boatos de que eles vão tocar em Glastonbury este ano. "Ainda há uma mágica em entrar em um estúdio e encontrar esse tipo de euforia e emoção de algo novo", diz Tennant. "É uma carreira extremamente agradável e gratificante e, você sabe, não pode parar de trabalhar. Quero dizer, se você ficar sem ideias, é o momento de parar", opina. "Estou realmente ansioso por isso, ficar sem idéias. Porque é aí que você trabalha com Brian Eno", brinca Lowe.

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