Orquestra sueca transforma carta homofóbica em ópera
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Orquestra sueca transforma carta homofóbica em ópera

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 A orquestra sinfônica da cidade sueca de Helsingborg usou a própria música para rebater uma carta repleta de palavras de ódio contra gays. Após uma apresentação que tinha como solista Rickard Söderberg, tenor abertamente gay, o grupo recebeu um documento anônimo que afirmava que a camerata estava “entrando em um trem de bichas”. Os músicos, então, encontraram uma forma simples de revidar (ao menos para eles): criando uma ópera

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A carta estava endereçada a Frederik Österling, um dos músicos responsáveis pela criação da peça artística. O texto, a princípio, elogiava a carta de vinhos servidos durante a apresentação. Em seguida, porém, passou a criticar e ofender duramente a performance apresentada no palco. O remetente escreveu que teve "vontade de vomitar" e que a orquestra estava "embarcando em um trem de bichas". As palavras sem sentido terminaram com o autor afirmando que cancelaria sua assinatura para as apresentações da camerata.

Em vez de rebater tanto ódio com mais ódio, Frederik se uniu a Söderberg e os dois optaram por criar uma ópera a partir do conteúdo da carta. O nome? “Bögtåget”, que em sueco quer dizer... “trem de bichas”.

Nós decidimos parar de lidar com o ódio e a raiva com ainda mais ódio e raiva.

“Nós decidimos parar de lidar com o ódio e a raiva com ainda mais ódio e raiva. Decidi tentar algo diferente, e como ópera é o que eu faço no meu dia a dia, me pareceu o caminho mais óbvio a se tomar”, contou Rickard ao Reverb. O tenor foi o responsável pela ideia que originou o projeto. Mais do que responder à carta preconceituosa, o objetivo da peça era refletir sobre os paradigmas do mundo em que vivemos. 

Junto com Frederik Österling, o tenor criou 'Trem de Bichas', ópera resposta ao ataque homofóbico (Foto: Erik Lundback / Divulgação)
Junto com Frederik Österling, o tenor criou 'Trem de Bichas', ópera resposta ao ataque homofóbico (Foto: Erik Lundback / Divulgação)

A orquestra sinfônica de Helsingborg foi fundada em 1912 e é uma das mais antigas do país. A tradição que carrega parece levantar com ela alguns tabus que, na visão de seus atuais coordenadores, precisam ser quebrados e debatidos. “Esse tipo de carta é um motivo extremamente importante para que avancemos contra uma abordagem cada vez mais problemática. Deixar a música sair do fundo normativo e obsoleto deve ser uma das atribuições mais importantes para todos nós que trabalhamos com isso atualmente. A cultura deve ser um poder dinâmico, desafiador e impotente, com base na liberdade de expressão”, escreveu Frederik em carta aberta pouco depois de receber o documento anônimo. 

Para Rickard - que se apresenta nas redes sociais como @gaytenor -, foi “prazeroso” transformar palavras violentas em algo inspirador. Ele comemora que a ópera tenha sido recebida com entusiasmo pelo público. “Embora haja uma leveza em nossa abordagem, a peça levanta uma série de questões importantes. Que tipo de mundo nós queremos? Como nós podemos conversar uns com os outros neste mundo?”, reflete. 

O que ele deseja com isso tudo? Inspirar as pessoas a promoverem um mundo em que o amor seja sempre visto como algo bom, “não importa quem as pessoas apaixonadas sejam”. 

No dia da estreia de “Bögtåget”, duas cadeiras ficaram vazias na plateia. Os convites especiais foram enviados pelos jornais da cidade: estavam reservadas para o autor da carta e um convidado. Eles, obviamente, não apareceram. 

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