Os Mutantes seguem até hoje como uma das melhores e mais interessantes bandas de rock
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Os Mutantes seguem até hoje como uma das melhores e mais interessantes bandas de rock

O título de melhor e mais importante banda da década de 1960 é incontestável: ninguém se aproxima dos Beatles em popularidade, influência e inventividade. E para além da década de seu surgimento, a reunião de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr formou a melhor banda em todos os tempos. Muitos outros grupos, porém, tentam disputar tal título e, ao longo dos anos 1960, a concorrência contra os quatro cavaleiros de Liverpool era ferrenha.

O segundo lugar em tal ranking invisível costuma ser dado aos Rolling Stones que, com mais de cinco décadas de atividades contra os menos de dez anos em que os Beatles existiram e, apesar de sua suma importância, jamais se aproximaram dos Beatles em criatividade e influência. Os Beach Boys e sua obra-prima “Pet Sounds” ganharam fôlego em tal disputa com justiça, mas no conjunto da obra a goleada beatle é inclemente. E o mesmo se dá com Led Zeppelin, Pink Floyd, The Doors, The Who, Hendrix e tantos outros que ajudaram a transformar a década de 1960 na era de ouro do rock. Mas e se a única banda a de fato disputar o título de melhor e mais criativo grupo musical dessa era for um trio brasileiro? Quem tem coragem de afirmar que Os Mutantes são a segunda melhor banda dos anos 1960?

A tese evidentemente não se baseia em vendas nem em popularidade – medida deturpada pela barreira da língua e pelos vícios comerciais que regem o mercado – mas sim em talento, originalidade e inventividade. Nesse sentido, me parece possível afirmar que somente os Beatles são capazes de superar Os Mutantes no recorte de tal período. Naturalmente que falo aqui da fase clássica da banda, que trazia em sua formação Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, com as nobres presenças de Dinho Leme na bateria e Liminha no baixo, descartando a fase progressiva, já sem Rita, ou o retorno recente. A discografia que vai do álbum de estreia, “Os Mutantes”, de 1968, passando por “Mutantes”, de 1969, “A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado”, de 1970, “Tecnicolor”, gravado em 1970 e lançado em 2000, “Jardim Elétrico”, de 1971, até “Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets”, de 1972 é a que está aqui em questão – e que celebro como a melhor da história do rock brasileiro, e a segunda melhor em todo o mundo ao longo da década citada.

É claro que tais disputas não nos levam a lugar nenhum, e nem é possível objetivamente afirmar tais hierarquias artísticas, mas certo espírito vira-lata muitas vezes nos impede de reconhecer a grandeza da música produzida no Brasil em comparação aos artistas gringos que tanto admiramos. O fato é que a mistura de ritmos brasileiros com o melhor do rock internacional, a experimentação no uso de técnicas de gravação, sonoridades e efeitos, na fabricação dos próprios instrumentos, a imensa qualidade das canções e ainda o uso inigualável do humor com elegância e charme coloca sim Os Mutantes como uma das melhores bandas da década – e não só no Brasil: em todo o mundo.

Talvez o mesmo espírito vira-lata faça com que artistas como Os Mutantes acabem reconhecidos fora antes de serem devidamente celebrados em seu próprio país. E assim se deu: não é por acaso que Kurt Cobain quando esteve aqui não só comprou toda a discografia da banda como presenteou Arnaldo Baptista com um desenho, no qual ele se refere à banda como “gênios brilhantes”. Reconhecimento similar oferece Sean Lennon, ao afirmar que “não sabia que podia haver uma banda no mundo como Os Mutantes”, para ele dona de algumas das melhores gravações que ouviu na vida. Juntam-se à lista outros nomes como Beck, Flea, Kevin Barnes, David Byrne e mais.

Há um elemento essencial que muitas vezes, porém, acaba eclipsado em meio à cornucópia de cores, sons e canções que Os Mutantes nos ofereceram: a coragem. Debochar da ditadura militar na televisão, transformar em um circo psicodélico os sisudos festivais da canção de então exigia uma imensa dose de coragem e refinamento que poucos tiveram. E não só em suas próprias apresentações: pois eram eles no palco (e na gravação) com Gilberto Gil em “Domingo no Parque”, eram eles com Caetano quando do histórico (e radical) discurso em “É Proibido Proibir”, também no festival, e foi com eles o famigerado show tropicalista na boate Sucata, no Rio de Janeiro em 1969, que depois foi utilizado como justificativa para a prisão de Caetano e Gil.

Vale lembrar que tudo isso foi feito por três jovens recém saídos da adolescência: no primeiro disco da banda, em 1968, Arnaldo estava em vias de completar 20 anos, Rita tinha 2o e Sérgio Dias tinha somente 17 anos. Há, portanto, um vigor juvenil que formou o despojamento e mesmo essa coragem para enfrentar o regime militar da forma que a banda enfrentou, e que, quando refinado pelo talento de três artistas geniais, se transformou em força estética, ética, musical e artística atemporal – que segue até hoje como uma das melhores e mais interessantes obras de toda a história do rock. Sorte dos Beatles, que nem devem ter chegado a saber que sua maior concorrência criativa nos anos 1960 estava na verdade em um país da América do Sul, cantando em português, e inventando uma sonoridade absolutamente única.

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