Os originais do gangsta: conheça o neomelódico, gênero herdeiro das canções napolitanas sobre crime organizado
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Os originais do gangsta: conheça o neomelódico, gênero herdeiro das canções napolitanas sobre crime organizado

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Música e crime organizado. Essa parceria atravessa fronteiras há muito tempo se equilibrando na tênue linha entra a criatividade e ilegalidade. Gangsta rap americano, funk proibidão carioca e narcocorrridos mexicanos são exemplos de gêneros desenvolvidos por compositores e intérpretes que, de uma forma ou de outra, tiveram sua arte associada ao mundo do crime - mesmo que nunca tenham sequer segurado uma arma. 

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A história do neomelódico, gênero italiano, sempre esteve misturada à da Camorra, organização criminosa aliada da Máfia Siciliana. Os primórdios das canções-tributo ao crime surgiram no começo do século XX. Em "Guapparia", por exemplo, escrita em 1914 pelo poeta Libero Bovio, um chefe da máfia canta uma serenata à sua amada. Era a semente de uma narração urbana, de periferia e vidas do submundo, muitas décadas antes de alguém gaguejar hip-hop nas quebradas do Bronx.

Uma nova geração de cantores dessa cena musical ganhou força por conta das redes sociais, já que a indústria fonográfica e os direitos autorais quase não existem nessa área. A maioria se apresenta em festas e faz questão de dizer que não tem nada a ver com esse mundo, como Leo Ferrucci. Mas não esconde que seus contratantes podem ser apenas fãs, parentes de presos ou mesmo chefes dos clãs que quer ouví-lo cantar e enaltecer seus feitos.  

Daniele De Martino é um jovem talento que tem milhões de visualizações em vídeos no Youtube. Em "Comando Io", por exemplo, não disfarça a temática da disputa entre grupos rivais.

Um dos vídeos de Vincenzo Mosca, "Onore e Dignità",  mostra a condenação de um jovem a 17 anos de prisão, com um desfile de armas e reuniões entre traficantes - e tudo mais exibido sem rodeios.

Um ambiente que já inspirou também o livro "Gomorra", de Roberto Saviano - transformado em série de sucesso da HBO e num longa-metragem. O escritor napolitano é especialista na Camorra e em seus desdobramentos culturais. “A relação entre o neomelódico e a máfia é de dois tipos. Primeiro, produtiva. A família Prestieri, braço-direito do clã Di Lauro, sempre investiu em música. Tommaso Prestieri, por exemplo, organizava shows e era compositor. Havia um investimento técnico, em veículos de comunicação e logística, mas também uma participação e inspiração dos textos. A música neomelódica se ocupa do cotidiano e, em consequencia, de crimes, glorificando os feitos dos chefes e traduzindo seus símbolos", diz Saviano, perseguido pela Camorra há 13 anos.

O escritor Roberto Saviano: ameaçado pela Camorra. Crédito: Getty Images
O escritor Roberto Saviano: ameaçado pela Camorra. Crédito: Getty Images

A série e o filme 'Gomorra' tornaram-se uma importante forma de divulgação da carreira de muitos artistas neomelódicos. Franco Ricciardi fez canções para a trilha sonora, enquanto que Anthony, uma das mais conhecidas vozes do movimento, compôs uma para o filme e outra para a série de TV. “Cantamos o que as pessoas querem e esse é um dos temas. Se você faz uma boa música, ainda que fale do submundo, ela é escutada”, diz o artista. Ele já se envolveu com questões legais ao ser acusado de cantar a música "A’Libertà", que teria sido escrita por um chefão para seu filho preso. "Cantar essas músicas não quer dizer que você ande com essas pessoas. Quando me contratam para as cerimônias, não pergunto sobre os antecedentes das  pessoas. Se tivermos de esperar que os juízes nos deem trabalho, morreremos de fome”, reclama.

O vínculo com o crime é, por vezes, direto. A família Casalesi – responsável pela sentença de morte a Saviano – teve por décadas sua própria rede de músicos. Raffaello, também autor de um dos sucessos da série "Gomorra", foi preso por atirar com um revólver num bar, e Marco Marfé, ex-participante do programa XFactor, foi levado algemado por participar de uma rede de agiotagem e extorsão comandada por sua mãe, chefe de clã. 

A maioria, entretanto, nunca recebeu condenações pesadas. "Na Itália temos liberdade de expressão e pensamento. E o deles é inspirado na exaltação dos supostos valores de ser da Camorra - o homem honrado, de palavra, corajoso... É um pensamento equivocado e talvez o cantor neomelódico não devesse participar das comemorações dessas famílias. Mas são casos individuais, difíceis de se perseguir. Eu não vejo como algo grave, e sim como expressão social”, diz Franco Roberti, ex-promotor italiano. “Para que ocorra um delito desse tipo é preciso existir clareza absoluta, é  preciso ter apologia de um crime. Eles cantam uma condição social, um perfil humano, mas não de homicídios e extorsão. O problema, na verdade, é que os que não são mafiosos também gostam dos neomelódicos e pouco a pouco a cultura se retroalimenta”, explica Roberti.

A indústria neomelódica se expande cada vez mais na Itália. Seus representantes são artistas e grupos muito mais jovens do que há anos e ávidos por uma cultura sonora e visual que legitime sua arte.

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