Os vírus musicais de Laurie Anderson e Diamanda Galas: dos mais coloridos aos assustadores
Na Trilha do LEÃO

Os vírus musicais de Laurie Anderson e Diamanda Galas: dos mais coloridos aos assustadores

Nestes tempos de vírus, viroses e virais, me veio à cabeça uma música chamada “Language Is A Virus” (na verdade, lembrei primeiro da Corona hehe). Quem a cantou foi Laurie Anderson, aquela artista americana de vanguarda, que foi a última companheira de Lou Reed. A música, baseada num conceito de William S. Burroughs (1914-1997), extraído de seu romance “The Ticket That Exploded” (publicado em 1962), diz a que “a linguagem é um vírus que veio do espaço sideral”. Era um dos momentos mais memoráveis de um formidável concerto que ela realizou, em 1986, chamado “Home Of The Brave”. Este show, era baseado numa série de apresentações, que ela tinha feito antes, como “United States Live”.

Esta apresentação, gravada em 1985 no Park Theater, em New Jersey, foi feita para virar filme. Depois dos cinemas, foi lançada no formato da época, o VHS. Aqui, chegou a ser exibida numa edição do FestRio. Além de ter resultado em seu terceiro álbum, o repertório também serviu de trilha sonora para “Home of The Brave”.

Laurie Anderson cantou um vírus a partir de conceito inventivo (Foto: Lynn Goldsmith/Getty)
Laurie Anderson cantou um vírus a partir de conceito inventivo (Foto: Lynn Goldsmith/Getty)

E foi de onde saiu também um dos únicos pop hits de Anderson (que, apareceu nas paradas, em 1982, com a hipnotizante faixa “O Superman”, que durava cerca de dez minutos!), a citada faixa “Language Is a Virus”. Produzida por Nile Rodgers (ele mesmo, o mister Chic), a música entrou nas paradas de sucesso de vários países. E virou clipe da MTV, claro.

Mas, se esse vírus propagado por Anderson chegava cheio de cores e visuais incríveis (para a época), não se pode dizer o mesmo de outra artista avant-garde e contemporânea de Anderson, a mezzo-soprano americana Diamanda Galás. Com toda a epidemia da Aids acontecendo, ao longo dos anos 1980, sobretudo nos Estados Unidos (e que vitimou seu irmão, o teatrólogo Philippe-Dimitri Galás), ela criou uma trilha sonora aterrorizante para ilustrar a situação: o álbum “Plague Mass” (a missa da peste), lançado em 1991.

O disco/trilha, foi gravado em outubro de 1990, durante três apresentações que ela fez na Catedral de São João, o Divino, em Nova York (apesar de criticar abertamente, a igreja católica, por chamar a Aids de “câncer gay”). Curiosamente, ele foi lançado pelo selo inglês Mute (especializado em eletrônica moderna, lar do Depeche Mode), e diferia bastante do restante do catálogo, que incluía também nomes como Erasure e Renegade Soundwave. O disco (cuja capa é assustadora) serviu de trilha sonora para estas apresentações da artista.

Numa mistura de teatro, performance e ópera, Diamanda falava sobre a praga — que se abatia então sobre a humanidade —, através de letras declamadas/gritadas, com títulos apavorantes. Como “There Are No More Tickets To The Funeral”, “This is The Law Of The Plague”, “I Wake Up And See The Face Of The Devil” e “Give Me Sodomy Or Give Me Death”. Confesso que, até hoje, dá medo de ouvir esse disco sozinho, no escuro. A voz de Galás é realmente aterrorizante. E o disco, muito bem gravado, devido a acústica maravilhosa da catedral.

Aliás, por conta de sua “voz de bruxa”, ela foi chamada para fazer as vozes das feiticeiras nos filmes “Conan, o Bárbaro” (1982) e “A Maldição dos Mortos-vivos” (The Serpent and The Rainbow”, 1988), de Wes Craven. E, também, para as vampiras do “Dracula” de Coppola.

Por um tempo, tentaram enquadrar Diamanda (nascida na ensolarada San Diego, na Califórnia) como uma artista gótica. Talvez por ela ter começado carreira na Europa. E ter feito um disco junto com Barry Adamson (integrante da banda de Nick Cave, The Bad Seeds), a trilha sonora para um imaginário film noir, nunca lançado, chamado “Moss Side Story” (1989). Ela também tem uma colaboração bacana com John Paul Jones (baixista do Led Zeppelin), “Skótoseme” (94). Mas, apesar do visual, ela sempre fugiu disso. Como o diabo foge da cruz.

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