Padre católico francês lança livros sobre heavy metal e frequenta festivais como o ‘Hellfest’
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Padre católico francês lança livros sobre heavy metal e frequenta festivais como o ‘Hellfest’

Igreja católica e heavy metal. Uma união inusitada aos olhos de qualquer cristão. Talvez estranha também para o maior dos hereges. Toda resistência ao encontro desses ditos opostos tem como única e exclusiva fonte o preconceito. Os dois lados podem se complementar, e a maior prova disso atende pelo nome de Robert Culat, um padre francês vegano de 51 anos que descobriu o gênero bem mais tarde do que o tradicional de "adolescentes rebeldes".

Robert já tinha 25 anos quando conheceu dois metaleiros na escola em que já atuava como padre, ensinando aos jovens estudantes. A vida de devoto na Igreja Católica já estava estruturada havia mais de uma década. Convertido aos 13 anos, ele viveu a juventude em rituais de fé e pouca música. Até notar, surpreso, a presença de dois irmãos inscritos para as aulas de religião no Liceu Orange, na diocese de Avignon, na França. "Eles tinham cabelos compridos, vestidos de preto, com camisetas de bandas", lembra. Um deles, integrava uma banda chamada Cortège. A curiosidade levou o padre a assistir a um dos ensaios do grupo. "Foi ali que tudo começou."

O padre Robert Culat no festival de metal Copenhell, na Dinamarca / Foto: Arquivo pessoal
O padre Robert Culat no festival de metal Copenhell, na Dinamarca / Foto: Arquivo pessoal

Em um primeiro momento, a aproximação veio como forma de objeto de estudo. "Eu era como um cientista em um laboratório. Aquilo não me atraía, eu só queria saber mais sobre", conta. Robert foi ajudado pelas dezenas de recomendações que ouviu dos meninos e, aos poucos, percebeu que a rotina de apreciação pela música extrapolou a curiosidade científica e se transformou em gosto pessoal.

O padre francês havia crescido em um lar inundado por referências de música clássica. Ao conhecer o "rock pesado", encontrou afinidade na melodia do metal sinfônico de bandas como Stratovarius, Sonata Arctica e Rhapsody. Dali para bandas mais "dark" foi um pulo.

Estou apenas colocando em prática, no plano cultural, a exortação do Papa Paulo VI aos católicos para que dialoguem com todos os homens e todas as culturas sem exceção.

Robert passou a procurar por referências bibliográficas que alinhassem a teologia cristã ao heavy metal. Segundo ele, havia poucos livros naquela época e a maioria condenava o metal. "Aquilo não correspondia com as minhas próprias experiências. Era justamente o contrário. Aqueles jovens eram normais e simpáticos."

O choque entre o que via e o que a literatura dizia a respeito motivou Robert a escrever o próprio livro. Ele montou uma pesquisa e conseguiu respostas de mais de 500 metaleiros franceses — mas sem revelar sua real identidade. O resultado rendeu um livro, “L'Âge du Metal” ( ou “A Era do Metal”, em tradução livre), lançado em 2007. Em seus estudos, o padre compara o rito processual de um fã do metal à liturgia do culto católico. As duas manifestações de "fé" se assemelham na forma como os fiéis de cada lado se relacionam com elas.

Padre Culat com seus amigos metaleiros em um bar / Foto: Arquivo pessoal
Padre Culat com seus amigos metaleiros em um bar / Foto: Arquivo pessoal

"Em uma passagem de 'A Era do Metal' dedicada a concertos, eu mostro como o vocabulário (do heavy metal) usado implica um culto, um aspecto sagrado em participar de um concerto. O vocabulário religioso usado pelos jornalistas não deixa dúvidas sobre isso. Ao que devemos acrescentar que os fãs são, muitas vezes, qualificados como fiéis e que a fidelidade, com paixão, é apresentada como um valor específico para o público de metal.

Algumas das respostas sobre o que mais atraía para esse gênero musical evocaram a atmosfera e o lado negro do metal, referindo-se em particular ao lado misterioso e ao aspecto místico. Todo esse vocabulário é de fato uma forma de espiritualidade", explicou Robert em entrevista ao site francês “Le Comptoir”.

“Estou apenas colocando em prática, no plano cultural, a exortação do Papa Paulo VI aos católicos para que dialoguem com todos os homens e todas as culturas sem exceção. Se, ao escrever A Era do Metal, eu favorecia a aproximação entre cristãos e metaleiros, sinto que faz parte de minha missão como sacerdote.”

Apesar da ligação próxima com o gênero musical, o padre evita bandas que abusem das provocações. "Eu não suportava ouvir ‘Mock The Cross’, do Bloodbath. O que grupos como o Mayhem ou o Gorgoroth fazem me enoja. Para mim, é realmente o esgoto da provocação, o mau gosto e a vulgaridade encarnada. Eu não tolero desrespeito a seres humanos ou animais através dessas encenações ridículas e indignas. E eu costumo pensar que quanto mais a música de uma banda é medíocre e sem gosto, mais ela precisa adicionar isso aos sets.”

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