‘Para ser mulher preta na música, tem que ser a melhor’: três produtoras musicais negras contam sobre o dia a dia da profissão
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‘Para ser mulher preta na música, tem que ser a melhor’: três produtoras musicais negras contam sobre o dia a dia da profissão

A produção musical não está só nas mãos brancas de homens. O espaço técnico do mundo artístico também é — e deve ser — ocupado por mulheres negras que tentam transformar um mercado nichado e cheio de estereótipos. Por trás de espetáculos e de shows, elas são produtoras musicais que são chamadas todos os dias a responder a uma espécie de provocação social que tenta dificultar o grito de suas vozes. "É desafiador estar em um mercado dominado por homens, brancos, heterossexuais", diz Rach Araújo, compositora e produtora musical.

“Se você quer fazer música sendo uma mulher preta, saiba que você tem que ser sempre a melhor para ser respeitada. A sociedade em que a gente vive é racista, machista e homofóbica e isso é reproduzido da mesma forma no contexto da música”, denuncia Beà, de 24 anos, integrante do grupo Dembaia e indicada este ano na categoria Direção Musical do Prêmio Shell de Teatro.

Pedimos a três produtoras musicais negras que falassem sobre a sua profissão e o dia a dia de trabalho. Na semana da Consciência Negra, é preciso refletir sobre quais oportunidades a indústria da música — e a sociedade de forma geral — dão a elas.

‘A mulher — principalmente a mulher negra — tem que estar sempre munida de referências porque sempre alguém vai te indagar sobre a sua decisão’

Beà, 24 anos, compositora, arranjadora, sonoplasta e diretora musical

Se você quer fazer música sendo uma mulher preta, saiba que você tem que ser sempre a melhor para ser respeitada. A sociedade em que a gente vive é racista, machista e homofóbica e isso é reproduzido da mesma forma no contexto da música. Ser preto na sociedade já te obriga a ser o melhor em tudo para conseguir trabalhar. Na maioria das vezes, mesmo sendo o melhor, você ainda é tratado de forma medíocre. E ser mulher preta nesse cenário é ainda pior. Se você pensar da pirâmide social, nós estamos na base dela. Para sermos as melhores, temos que ser melhores que os homens brancos, que os homens pretos e que as mulheres brancas.

Desde a minha iniciação no estudo musical, todo esse processo foi muito doloroso. Eu tive um professor em uma escola de música que dizia para os meninos que estavam tocando mal que eles tocavam iguais a uma menininha. “Te falta pegada para tocar baixo”, ele dizia. Eu era a única mulher naquela sala e eu fui a única aluna que ficou até o fim do semestre com aquele professor. A única aprovada com excelência.

Hoje em dia, no dia a dia, a lógica se repete com os técnicos dos teatros em que eu trabalho. A maioria deles é homem e é difícil que eles entendam esse lugar que eu ocupo fazendo direção musical. Eu tenho conhecimentos técnicos, sei idealizar e realizar tudo e isso incomoda bastante. É sempre uma guerra para ser respeitada porque eles subestimam muito o saber feminino. Em um espaço onde tudo poderia ser bem mais direto, é sempre uma luta. Quando eu divido a direção ou a produção musical com um homem e existe um terceiro profissional também homem, o que ele fala vai ser muito mais acatado pelo outro do que o que eu falo. Nós, mulheres, somos facilmente colocadas como loucas quando damos nossa opinião sobre determinado assunto ou quando dizemos “não” a toda essa estrutura machista que existe.

Quando eu tinha cinco ou seis anos, eu pedi para minha mãe me dar uma guitarra. Eu via os Mamonas Assassinas na televisão e eu queria fazer aquilo. Eu queria ser como eles, mas ninguém nunca me deu de presente. Alguns anos depois, eu vi um homem preto tocando violão na rua. Eu tinha dez anos e fui conversar com ele, que me sugeriu pedir um violão para os meus pais, porque era mais barato e a técnica ia ser parecida. Esse conselho foi ótimo porque minha mãe logo me deu um violão.

No começo, eu fui autodidata, mas depois comecei a estudar com a professora, uma mulher negra chamada Regina Rocha. Ela dava aulas comunitárias em que ensinava dois acordes por vez. Assim, eu fui estudando e pouco depois descobri o baixo e encontrei o som que é o mais próximo do meu coração, do meu organismo e do meu espírito feminino. O grave conversa bem com a minha alma. Só que uma das coisas que eu mais ouvi na vida — e que eu escuto até hoje — é: “Nossa, você toca baixo? Não é um instrumento muito comum para mulheres, né?”. Na cabeça das pessoas, é um instrumento grave, pesado, portanto, mais masculino.

Eu tenho aprendido muito que fazer direção musical no teatro, por exemplo, é ter cuidado com seu elenco. É ter carinho, afeto, fé. Isso tudo cria um resultado que é diferente da escola que eu tive com homens. Quando eu comecei a ter essa percepção trabalhando com outras mulheres, eu comecei a pensar o que é ter uma boa liderança dentro do que eu sou, dentro do meu princípio feminino negro, dentro do meu lugar de fala e dentro da minha pesquisa musical. Isso tudo traz uma importância da gente contar a nossa própria história e não desistir das nossas missões. Estamos em um processo político em que temos que nos unir e discutir as nossas formas de fazer músicas e resistir. Mais do que resistir, existir.

Nós somos muitas e somos muito talentosas. Não somos pouco talentosas, somos muito e precisamos nos fortalecer. E como é esse lugar de fortalecimento? Trabalhar juntas, fazer projetos juntas, indicar uma a outra, criar processos, criar formas de fazer juntas e de renovar o ciclo porque a vida é um oroboros. É a serpente mordendo o próprio rabo. A gente está sempre se renovando para criar novas perspectivas para o amanhã.

Certa vez, eu fui tocar no Teatro Municipal de Niterói. Um grande baixista chegou, me viu tocando baixo e falou: “Nossa, que bonito, é muito raro ter mulheres tocando baixo e tocar bem é mais raro ainda." Logo depois, nós estávamos fazendo a passagem de som e esse músico ia fazer uma participação especial. Ele queria que eu fizesse algo diferente do que eu estava fazendo no baixo e eu não estava entendendo o que ele estava falando, até porque a gente estava longe um do outro. Ele veio até mim, pegou o baixo da minha mão e falou: "Você é legalzinha, mas peraí que eu vou te mostrar como é que é". E pegou meu baixo. Algo extremamente agressivo, mas super comum de acontecer.

Ocupar um espaço de liderança em produção musical é um problema. Se nós conversamos com outros músicos, não raro temos o nosso nível de conhecimento e a nossa intelectualidade musical subestimados. Em outro episódio, éramos quatro mulheres em um estúdio gravando com uma moringa, que é um instrumento de percussão caracterizado pelo grave que tem. Durante a equalização, pedimos que o técnico aumentasse o grave porque não estávamos ouvindo da forma que a gente gostaria. Ele então respondeu: “Não, vou colocar um agudo.” Nós pedimos de novo: “Coloca o grave, por favor.” E ele insistiu no agudo até o final. Não existe diálogo. Você é subestimada totalmente. E aí vem um homem e sugere a esse mesmo técnico que ele aumente o grave. Resultado? Ele aumenta.

Nós temos o tempo todo que explicar o porquê de estarmos fazendo algo. A mulher e, principalmente, a mulher negra têm que estar sempre munidas de referências porque sempre alguém vai te indagar sobre a sua decisão. Você tem que ter muitas referências o tempo todo para justificar e convencer todas as pessoas o porquê daquilo. Não existe respeito.

É tempo de contar as nossas histórias. As nossas próprias histórias. É tempo de desenvolver as nossas narrativas. O que cabe, nesse momento, é o nós por nós. Vamos nos organizar para fazer isso tudo acontecer. Vamos criar as nossas estratégias porque aí o buraco vai ficar muito mais embaixo. Vai ficando grave igual ao baixo.

Nós, mulheres pretas, não podemos deixar de denunciar o que nos agride. A nossa arte, ela é política. Ela também é direcionada. E a gente não pode não denunciar. Não podemos atuar só de forma subjetiva. Por isso a importância da organização, porque quando a gente se organiza, a gente começa a construir uma nova forma de produzir. A gente está totalmente impregnado por uma concepção branca, eurocêntrica e machista. Desconstruir isso e voltar para as nossas raízes, para as nossas origens e para quem nós somos é fundamental.

Na música, existem as chamadas escalas não temperadas, que são as escalas em que dentro do intervalo de um dó para o dó sustenido existem milhões de outras notas. A mulher tem algo parecido na sua natureza. Do dó para o dó sustenido há um milhão de possibilidades, de outras linhas e entrelinhas e milhões de observações. A gente precisa construir a nossa forma de colocar essa "música" para o mundo.

Se você tem uma menina que está começando a aprender um instrumento e ela logo se depara com uma lógica de ensino machista, ela pode trocar de professor para ter uma professora. Isso muda a forma de se relacionar e a cura é outra. Você tem para onde correr. Na verdade, correr, não. Se juntar.

‘Estamos cada vez mais ocupando os espaços que não existem, pois é isso que o povo preto vem fazendo’

Rach Araújo, 34 anos, musicista, compositora, produtora e diretora musical

A produtora Rach Araújo / Foto: Arquivo pessoal
A produtora Rach Araújo / Foto: Arquivo pessoal

Nasci em Niterói, mas cresci na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Morei durante a infância e adolescência ao lado da Lona Cultural Elza Osborne, no bairro de Campo Grande. Graças a esse espaço cultural, tive acesso aos mais variados tipos de música, teatro e filme. Assisti de Taiguara a Los Hermanos, Monobloco a Belchior, e o que eu mais gostava de ver em um show era a mágica acontecer. O que mais me encantava em um show ou uma peça era a capacidade dos artistas de tornar o mesmo espaço um lugar novo pra mim.

Comecei a tocar violão sozinha, mas vi muito rápido a necessidade de estudar em alguma instituição. Conciliei a escola de música com a faculdade de jornalismo e, depois de um tempo tocando violão e guitarra com grupos e acompanhando orquestras, fui convidada a tocar em uma peça de teatro. Foi naquele momento que a minha ficha caiu. Ao trabalhar com trilha sonora para cena, eu senti a música viva, mutável e permeável. É gratificante poder ajudar a contar uma história que vai além do que os olhos podem captar. Produzir música para cena, ambientar uma canção ou dar identidade para um podcast é incrível e desafiador. É desafiador estar em um mercado dominado por homens, brancos, heterossexuais. A gente percebe o quanto eles se protegem e partem do marco zero: esse é um ambiente masculino. Isso traz responsabilidade ao meu trabalho. Quando estou em cena, não estou só por mim. Estou por todas as mulher pretas que abriram esse caminho e para que outras possam caminhar.

Quem trabalha com arte sabe que nem sempre os projetos tem orçamento aprovado, cachê fechado ou salário certo e é aí que temos a chance de crescer. Enquanto mulher preta reconheço o privilégio de ter tido a chance de estudar música e investir em uma profissão que não tem como objetivo final o dinheiro. Estamos cada vez mais ocupando os espaços que não existem, pois é isso que o povo preto vem fazendo. Resistindo e encantando. Reconhecer o trabalho das mulheres pretas vai ser inevitável e falta pouco. Uma porta se abriu e nunca mais fecha.

‘A mulher negra vai marchar contra os racistas para acabar de vez com a história dos machistas’

Luana Hansen, 38 anos, sonoplasta, DJ, MC e produtora musical

“A mulher negra vai marchar contra os racistas para acabar de vez com a história dos machistas.” Eu escrevi isso há alguns anos para falar de luta e da realidade em que eu vivo. Esses versos fazem parte da letra de “Negras Em Marcha”, uma música que eu me orgulho que tenha se transformado em uma espécie de hino. A coisa mais maravilhosa da minha carreira é poder ter a liberdade de pensar, criar, falar e colocar na rua a expressão da minha verdade.

Eu estou há 20 anos dentro do movimento do hip-hop. Iniciei como produtora musical pela falta de oportunidades, e pela dificuldade que eu encontrava em gravar. Como eu já era DJ e MC, decidi aprender a produzir a princípio para ter minhas músicas gravadas. Tenho trabalhado através de parcerias, de forma totalmente independente, produzindo beats, mixando e masterizando. Até prensando o CD e colocando na rua.

A sabedoria do que eu faço está na prática, na teimosia, na insistência e eu acho isso o mais bonito dela. O artista tem que ser a primeira pessoa que acredita nele para que os outros também possam acreditar em sua ideia. O primeiro a crer tem que ser o próprio artista. Em todas as áreas, não só na música.

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