Paul McCartney lembra o dia em que os Beatles se recusaram a tocar em esquema racista
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Paul McCartney lembra o dia em que os Beatles se recusaram a tocar em esquema racista

Ao apoiar o BlackLivesMatter, o ex-Beatle Paul McCartney lembrou um episódio histórico envolvendo sua banda: em 1964, o grupo peitou a segregação racial vigente em alguns estados dos EUA ao se recusar a fazer um show para um público separado por cor. Em um comunicado oficial, em 6 de setembro daquele ano, avisaram que não tocariam em Jacksonville, na Flórida, no Gator Bowl, que costumava confinar os negros às varandas ou níveis superiores: “Não vamos aparecer a não ser que seja permitido que negros sentem em qualquer lugar”. “Sentimos que estava errado. Dissemos: 'Não vamos fazer isso!'. E fizemos o que foi o primeiro show não segregado deles. A partir daí, exigimos que constasse em contrato. Para nós, era senso comum”, escreveu Paul McCartney, em sua conta no Twitter, na sexta-feira (5/6).

"Sei que muitos de nós querem saber exatamente o que podemos fazer para ajudar. Nenhum de nós tem todas as respostas e não há solução rápida, mas precisamos mudar. Todos nós precisamos trabalhar juntos para superar o racismo de qualquer forma. Precisamos aprender mais, ouvir mais, conversar mais, educar a nós mesmos e, acima de tudo, agir", postou Paul McCartney. Com a declaração, o cantor e compositor de 77 anos divulgou também links de várias instituições, como Black Lives Matter, Color of Change, Stand Up to Racism, Campaign Zero, Community Justice Exchange e a National Association for the Advancement of Coloured People.

Paul McCartney deixou clara sua frustração diante da situação de injustiça social e preconceito racial que persiste não só nos Estados Unidos mas no mundo. "Sinto-me enjoado e zangado por estarmos aqui quase 60 anos depois, e o mundo estar em choque com as horríveis cenas do assassinato sem sentido de George Floyd pelas mãos do racismo policial, junto com os inúmeros outros que vieram antes", twittou.

Os Beatles haviam feito seu primeiro show nos EUA em fevereiro de 1964, quando vieram, fizeram três apresentações para o "Ed Sullivan Show" (uma delas gravada para exibição posterior) e tocaram para o público em Nova York, no Carnegie Hall, e no Coliseum, em Washington. A turnê iniciada em 19 de agosto era, portanto, um desbravamento de território, a primeira excursão de fato dos Beatles pelos Estados Unidos.

Há indícios também de discordâncias com o Hotel George Washington, ambiente segregado onde ficariam hospedados em Jacksonville, e as reservas acabaram canceladas. Como o voo foi desviado para Key West para evitar cruzar com o furacão Doria, os Beatles acabaram ficando no motel Key Wester. Durante uma entrevista em Denver, George Harrison minimizou um pouco a situação, dizendo que não sabia nada sobre as acomodações. "Não organizamos isso. Mas, você sabe, não aparecemos em nenhum lugar onde haja segregação", disse.

O furacão devastou a cidade, mas não impediu, que após a chegada, de avião, no dia do show, 11 de setembro, cenas de beatlemania acompanhassem o grupo. Houve uma entrevista coletiva no Hotel George Washington, e depois dela, 500 fãs deram trabalho aos policiais que tentavam garantir que os Beatles saíssem ilesos dali para o Gator Bowl. O mau tempo impediu que 9 mil dos 32 mil que haviam comprado ingresso conseguissem chegar ao local. Ringo Starr teve que tocar com o kit de bateria pregado no palco, por causa dos ventos. Mas os Beatles ainda assim deram sua customeira meia hora de show, com 12 músicas, antes de se pirulitar para o aeroporto de Imeson, a caminho de Boston.

Os Beatles em 1964, durante a turnê nos estados Unidos. Foto: Getty Images
Os Beatles em 1964, durante a turnê nos estados Unidos. Foto: Getty Images

"Naquela época, ninguém que eu conhecia realmente tomou a iniciativa de abordar qualquer tipo de questão social. Posso ver os Beatles chegando aqui e sendo assaltados por essa política estranha e injusta de segregação. Eles não eram apenas bons músicos, eles tinham intelecto e se posicionaram", elogiou Mark Lindsay, vocalista do Paul Revere & The Raiders, em entrevista ao "Metal Floss" há alguns anos.

Kitty Oliver, nascida em Jacksonville, era uma das poucas pessoas negras que assistiram ao show no Gator Bowl. “Onde eu estava sentada havia mais duas crianças negras. Eu fui sozinha e me lembro que sentei nos assentos altos e menos caros, porque era o que minha família podia pagar. Era assustador no sentido de que eu não sabia o que esperar. Você desenvolve um sentido forte para o perigo, para estar atento a qualquer movimento repentino ou mudança de humor na multidão”, relata ela, que atualmente é historiadora e escritora. Toda a tensão desapareceu quando os Beatles começaram a tocar. "Havia muitas garotas gritando, e eu também gritava e cantava todas as músicas", disse ela, rindo.

No ano seguinte, conforme contou Paul McCartney em seu Twitter, para evitar uma nova situação dessa natureza, o grupo incluiu uma cláusula em seu contrato de shows. Um desses documentos, relativo a uma apresentação de 1965 no Cow Palace, na Califórnia, foi leiloado em 2011. Assinado pelo empresário Brian Epstein, especificava que os Beatles "não são obrigados a se apresentar diante de um público segregado".

Em 1966, em uma entrevista, Paul deixou a posição do grupo ainda mais clara: "Não tínhamos preconceito e sempre gostamos muito do público mestiço. Sendo essa a nossa atitude, compartilhada por todo o grupo, nunca quisemos tocar na África do Sul ou qualquer lugar onde os negros eram separados. Apenas pensamos: 'Por que você tem que separar negros de brancos? Isso é burro, né?'".

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