Penelope Spheeris, precursora da onda de documentários musicais, lembra seus anos de 'Declínio da Civilização Ocidental'
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Penelope Spheeris, precursora da onda de documentários musicais, lembra seus anos de 'Declínio da Civilização Ocidental'

Penelope Spheeris, 72 ou 73 anos. Pouco importa a idade exata, que é desconhecida por nós, meros mortais. Interessa mesmo é lembrá-la como uma das roteiristas e diretoras de cinema mais relevantes de sua geração. Trabalhou num dos maiores sucessos ao estilo "Sessão da Tarde", "Os Batutinhas", de 1994 (refilmagem do seriado clássico feito entre 1922 e 1944), e em comédias pop, porém cults, adoradas pelo grande público, como "Quanto Mais Idiota Melhor" ("Wayne's Word"), de 1992.

Em sua outra face cinematográfica, ela foi capaz de oferecer filmes totalmente fora do mainstream e mais lado B, como a sequência de três documentários "The Decline of Western Civilization", lançados em 1981, 1988 e 1998, sobre o movimento punk rock de Los Angeles no início dos anos 1980 — que quase foram barrados pela polícia americana, mas hoje estão disponíveis no YouTube para quem quiser ver.

Ao site "Dazed", Penelope concedeu uma entrevista na qual revisitou sua longa carreira e falou da possibilidade de um novo documentário para trilogia. "Este será meu último, será sobre punk e metal. Vou trabalhar duro nele", anuncia. Esperamos que ele seja lançado logo mas, como lembrou Penelope, os documentários não deveriam seguir um roteiro: "É preciso deixar as coisas acontecerem." Num tempo em que os longa-metragens sobre música são tão populares, é interessante conhecer a história de pioneiros que já produziam conteúdo do tipo no começo dos anos 1980.

Penelope Spheeris, a diretora de cinema responsável por criar e desenvolver o documentário dividido em três partes 'The Decline of Western Civilization'/Reprodução
Penelope Spheeris, a diretora de cinema responsável por criar e desenvolver o documentário dividido em três partes 'The Decline of Western Civilization'/Reprodução

Nos primeiros dois filmes de "Decline of Western Civilization", Penelope destacou mais os artistas do punk e do heavy metal que surgiram em Los Angeles naquela época, como Ozzy Osbourne e o Black Flag, enquanto no terceiro filme ela se concentrou menos em quem faz a música, e focou naqueles que ajudaram a manter esse universo vivo e pulsante por tantos anos: os fãs.

Para a repórter Ivana Brehas, a diretora comentou em que momento se sentiu interessada a querer registrar a história desse movimento cultural."Eu tinha uma produtora de clipes em LA no começo dos anos 1970 e fazia vídeos para gravadoras (de grupos como Doobie Brothers, Funkadelic, Staple Singers). Tinha todos os equipamentos e, quando descobri o punk rock pensei: 'Isso é importante. Essa é uma mudança histórica na vida das pessoas'. E senti o desejo de documentá-la", disse ela, feliz pelo primeiro filme da trilogia ter entrado na Biblioteca do Congresso americano. "Estou muito orgulhosa desse feito. Espero oferecer aos jovens uma forma de entender como era a música durante essa época."

Penelope também explicou porque relutou tantos anos para lançar os três documentários em um box especial (o que ocorreu somente em 2015): "Achava que isso era contra a ética punk".

"Eu não conseguia conceber a ideia de explorar esse trabalho e fazer rios de dinheiro a partir dele. Mas minha filha disse que isso era ridículo, que as pessoas queriam assisti-lo. Mas, até hoje, sou incapaz de fazer certas coisas que ela tenta me convencer, como merchandising — sabe, camisetas ou até papel higiênico estampado com 'The Decline of Western Civilization', ou algo do tipo — mas não consigo. Por alguma razão, me sinto vendida", declarou, enquanto tentava descrever qual seria a "ética" do punk.

"Pode ser que minha ética do punk seja diferente de algumas pessoas", observou a cineasta. "Mas, para mim, significa ter profundo senso de valores, integridade e honestidade e tratar pessoas de forma igual. Ou também: não se vender, se comprometer ou dar a mínima para o que os outros pensam. É uma ética DYI (faça você mesmo)".

Ainda sobre a diferença dos três documentários, Penelope avaliou porque o segundo da saga é aquele da qual menos se orgulha.

"Estava recebendo financiamento de terceiros para realizar o segundo filme. Então, eu acabava recebendo instruções para fazê-lo", admitiu ela. "Os produtores do segundo documentário tinham ideias diferentes das minhas. Se fosse por mim, o filme teria menos glamour, menos 'cabelos' e bandas como Megadeth. Mas eu não tinha dinheiro naquela época, então precisei fazer o que me mandavam. Mesmo assim, tentei tirar o foco da busca por fama e fortuna. Minha ideia era mostrar como aquilo tudo era ridículo e decadente."

Já o terceiro filme é seu favorito, pois tinha uma "crítica social" bem feita. "Ele serve a um propósito maior do que os outros filme. Nos EUA, temos uma situação de desabrigados muito preocupante. Nos últimos 20 anos desde o lançamento, a população de rua cresceu muito. 'Decline III' é meu favorito pois penso que consegui captar alguma simpatia e compreensão em pessoas que vivem em situações muito infelizes", argumentou Penelope, que passou dois anos no processo de desenvolvimento do projeto, descritos como "os melhores dois anos da sua vida".

Penelope Spheeris enquanto gravava o terceiro documentário de "Decline of Western Civilization"/Reprodução
Penelope Spheeris enquanto gravava o terceiro documentário de "Decline of Western Civilization"/Reprodução

Mas, e nos dias de hoje? A vibe do punk rock dos anos 1980 continua a existir? A diretora não sabe responder ao certo, mas espera que sim. "A coisa mais legal do punk é que as pessoas que seguem esse estilo de vida não vivem se autopromovendo", afirmou. "As melhores coisas da vida são discretas. As pessoas apenas vivem livres e ponto. E isso é incrível."

Esta frase saiu da boca de uma mulher que se casou com um punk que tinha sido homeless, e que até hoje é seu companheiro de vida. Penelope conheceu seu marido enquanto gravava o terceiro filme da trilogia e, por esse motivo, já valeu todo o trabalho de rodá-lo. Não é?

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