Peter Frampton, doente, faz turnê de despedida e lembra histórias de Humble Pie a 'Black Hole Sun', passando por Bowie e aquele 'talk box'
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Peter Frampton, doente, faz turnê de despedida e lembra histórias de Humble Pie a 'Black Hole Sun', passando por Bowie e aquele 'talk box'

"Eu sinto o amor de vocês", disse Peter Frampton, já no final do bis. "Vocês vão me curar!", exclamou, depois de mais de duas horas de show, em Oakland, na quinta-feira (25). No começo do ano, o guitarrista inglês de 69 anos havia revelado, em entrevista ao programa "This Morning: Saturday", da emissora americana CBS, que sofre de uma doença autoimune chamada miosite por corpos de inclusão (IBM, na sigla em inglês), que atua na degeneração dos músculos do corpo. Ela é considerada rara em jovens e crianças, sendo mais comum entre adultos de mais de 50 anos. Por conta das dificuldades cada vem maiores para continuar tocando em alto nível — e também por conta da saúde, claro —, ele anunciou que a atual turnê, iniciada em junho e com fim previsto para outubro de 2019, será a última de sua carreira.

"O que vai acontecer, infelizmente, é afetar os flexores dos dedos", disse ele. "Para um guitarrista, isso é péssimo. Eu posso tocar muito bem agora, mas em um ano, posso piorar muito. Sou perfeccionista, e não quero ir lá e me sentir como 'isso não está tão bom'. Seria um pesadelo para mim."

O compositor de "Show Me The Way" e "Breaking All The Rules" foi diagnosticado com a doença há três anos e meio, após cair no palco durante uma apresentação. Mas lembra que há nove anos, durante um passeio com o filho pelas montanhas, sentiu os primeiros efeitos, a partir de uma "dureza" no tornozelo. A IBM não tem cura, mas Peter está servindo como "cobaia" em testes de medicamentos que possam diminuir os efeitos da síndrome.

Nesta semana, Peter deu uma longa entrevista à "Guitar World", lembrando com detalhes décadas de carreira: da influência dos discos de seu pai, que o expuseram à magia de Django Reinhardt (1910-1953), o guitarrista cigano nascido na Bélgica, até as escolhas do setlits da turnê, que vêm incluindo dois números de outro grande ídolo do inglês, o bluesman Freddie King (1934-1976), "Me and My Guitar" and "Same Old Blues."

O sucesso na música tirou Peter da escola muito cedo. Aos 17 anos já estava no grupo Herd, disputado por gravadoras e fazendo shows em lugares como o Marquee.

Peter com The Herd, princípio de tudo/ Getty/Mirrorpix
Peter com The Herd, princípio de tudo/ Getty/Mirrorpix

O capítulo dois da carreira inclui o encontro com outra lenda, Steve Marriott (1947-1991), no Humble Pie. Duas guitarras dialogando e criando clássicos como "Stone Cold Fever". "Nós dois éramos fãs um do outro: ele, mais bluesy, eu mais no jazz blues lírico. A gente nem conversava muito, tudo saía naturalmente. Mas a partir do terceiro álbum, o produtor Glyn Johns quis mudar a direção do grupo, achava que não estávamos usando plenamente nossas melhores habilidades. A ênfase passou a ser Steve cantor. Tenho que admitir, ele era uma das grandes vozes do rock", conta Peter, narrando o princípio do fim da banda.

Peter Frampton participou de sessões de estúdio incríveis com George Harrison e John Entwistle, do The Who, e recusou convites para entrar em boas bandas como Grand Funk. Mas preferiu seguir carreira solo, com ajuda de amigos de peso como Ringo Starr e Billy Preston, e construiu seu nome paulatinamente, em três álbuns. Não tardou a se dar bem até demais. Em 1975, chegou ao topo da cadeia alimentar dos astros de rock. Gravou o álbum duplo "Frampton Comes Alive!", 11 milhões de cópias vendidas, aliciando ouvidos de todo o mundo e conquistando fãs para uma engenhoca chamada talk box, que confere efeito similar ao da voz humana ao som de instrumentos — no caso, a guitarra.

Peter até hoje ri. "Não sei como inventei aquilo, estava brincando com dispositivo. Como eu toco guitarra comecei a mexer com o negócio ao mesmo tempo em que tocava. Era algo cômico, fazia as pessoas sorrir, e eu gostei desse efeito. Fiz experiências e achei o som, mais grave", lembra.

O som de "Frampton Comes Alive!", captado pelo renomado engenheiro Eddie Kramer em um caminhão Fedco e equipamento de ponta, é elogiado até hoje. Mas Peter confessa que gostaria de contar com algo que não havia naquela época. "Adoro os meus solos, especialmente em 'Lines On My Face' e 'Do You Feel Like We Do'. Mas tem algumas falhas ali, queria ter um Auto-Tune para passar ali."

O megaestrelato frustrou Peter. "Aconteceu algo parecido no tempo do Humble Pie, lembro bem, lá pelo terceiro disco. Steve Marriott e eu tínhamos estado em bandas pop antes, não queríamos aquele bando de meninas gritando na frente do palco. É lisonjeiro, mas a carreira de um ídolo pop dura 18 meses, a de um músico é pra vida toda. Com 'Frampton Comes Alive!' deixei de ser um guitarrista para cair nessa coisa pop de novo. E depois tive que lidar com a pressão de suceder um disco que vendia todos aqueles milhões."

Retraído, ele só se sentiria forte novamente em 1981, com o álbum e mega-hit "Breaking All The Rules", cujo êxito credita ao produtor David Kershenbaum. "Ele me apoiou muito e virou amigo pra vida toda. Naquele disco sou eu reivindicando meu espaço verdadeiro. Eu não seria um pop star. Iria ser um bom compositor, cantor e, acima de tudo, guitarrista."

Em 1987, um velho amigo, David Bowie, o convidou para um trabalho, na condição de músico... convidado. "Como eu disse, era tudo que eu queria, ser um guitarrista. Foi por isso que entrei nessa confusão (risos). Ele me ligou, disse que tinha gostado do meu disco 'Premonition' e me chamou para tocar no álbum 'Never Let Me Down'. Aceitei na hora, adiei meu disco e fui pra Suíça trabalhar com David."

Daí em diante, Peter Frampton acabou fazendo duas turnês mundiais com Bowie. Em várias ocasiões, disse que a experiência salvou sua carreira. David era um velho amigo que o fascinava nos tempos de moleque, na escola, em Bromley, subúrbio ao sul de Londres. "Aquele Jones (verdadeiro sobrenome de Bowie) era três anos mais velho, nem todo mundo o entendia, mas tinha muito estilo. Me apresentou a Buddy Holly e Eddie Cochrane", lembra. Até 1987, porém, os dois nunca tinham tocado juntos em público.

Ao vivo com Bowie, Peter Frampton tinha que tocar em cima de arranjos feitos por outros grandes guitarristas: Robert Fripp, Stevie Ray Vaughan, Adrian Belew. "Ele não me tolhia em nada. Foi um grande presente poder passar aquele tempo com ele. E ele ainda me deu aquele enorme solo para preencher no final de 'Loving The Alien'", indica.

A carreira de Peter Frampton ainda lhe traria surpresas, como o primeiro Grammy, conquistado em 2006 pelo álbum instrumental "Fingerprints". No repertório, uma versão incrível de uma das maiores canções da geração grunge, "Black Hole Sun", do Soundgarden. "Quando essa música saiu, achei que era a melhor coisa do mundo. E eu sabia que jamais poderia cantar tão bem quanto Chris Cornell. Então fui para 'grungesville', na sala de ensaio do Pearl Jam, em Seattle, e toquei com Mick McReady e Matt Cameron. Fizemos uma incrível batalha de guitarras. Depois recebi uma ligação do Chris Cornell para tocar com ele ao vivo. Fizemos juntos essa versão", conta Peter.

A música está no setlist da turnê de despedia, recheada de blues — já que o álbum de 2018, que colocou Peter Frampton novamente no topo de uma parada, se chama "All Blues". E vai ser tocada até a última data, 12 de outubro, em São Francisco, no mesmo local onde foi gravado "Frampton Comes Alive!", o Concord Pavillion. "Meus filhos vão lá me ver, vai ser maravilhoso", vibra Peter.

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