Phillip Long, o ‘Bob Dylan paulista’ que vive da música com dinheiro que recebe do Spotify
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Phillip Long, o ‘Bob Dylan paulista’ que vive da música com dinheiro que recebe do Spotify

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Gratidão é a palavra de ordem na vida de Phillip Long. O sentimento é expresso com clareza na sua música mais reproduzida no Spotify, "Grace", reproduzida mais de 570 mil vezes. O nome de cantor estrangeiro e as letras em inglês enganam, mas ele é brasileiro do interior de São Paulo. Mora em Araras, mas já viveu alguns de seus dias na Bahia, onde aprendeu sozinho a língua anglo-saxônica e os acordes do violão, que toca com destreza em suas gravações. Em dez anos de carreira, Phillip não é nome conhecido entre os grandes da música brasileira. Vive na calma da privacidade que ainda tem por não promover tanto sua imagem. Apesar disso, seu sustento vem, surpreendentemente, do que ganha de direitos autorais do streaming, onde tem disponíveis os 12 álbuns que lançou em apenas 7 anos

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O número impressiona. Não é como se os trabalhos tivessem poucas faixas. A maioria tem mais de dez músicas. Em um tempo que artistas usam as redes sociais para promover o trabalho e a imagem, Phillip é o que podemos chamar de o verdadeiro artista da era do streaming: não tem assessoria de imprensa e nem contrata agências para lidar com a sua carreira. Ele vive de colocar suas músicas de folk e rock na plataforma de streaming e receber retorno financeiro em cima disso. 

Acho que sou um estudo de caso. Não sou independente, não frequento essa cena da música. Me considero uma espécie de franco atirador, pois corro por fora. Sou um outsider

“Acho que sou um estudo de caso. Não sou independente, não frequento essa cena da música. Me considero uma espécie de franco atirador, pois corro por fora. Sou um outsider. Quando lancei meu primeiro disco, em 2011, o país estava bem. Havia um boom no meio da música e era mais fácil para um artista ser descoberto. Hoje, passados seis anos, isso tudo acabou. Eu não faço muitos shows, mas o streaming foi retroalimentando meu trabalho. Eu tenho números no Spotify que são comparáveis aos de um artista bem sucedido da música independente. Eu sobrevivo bem de direitos autorais. Essa é uma lógica que o compositor brasileiro moderno ainda não se atentou: você não precisa mais ser o rei da imagem, você precisa ter trabalho para se dedicar e soltar essas coisas nas plataformas. Artista é obra”, reflete o cantor, em entrevista ao Reverb

Phillip tem em Bob Dylan sua maior inspiração. Ouvia o poeta americano em casa, por influência do pai. Ali buscou as principais referências musicais que tem e fincou as raízes de suas composições no folk, gênero que sustenta as músicas que ele produz. Acostumou-se a compor em inglês, porque achava que o idioma traduzia melhor o que sentia. Por insistência de quem ouvia suas músicas, o cantor decidiu se expressar pela primeira vez na língua materna apenas em seu quinto álbum, “Sobre Estar Vivo”. 

“As pessoas começaram a me cobrar de gravar em português. Foi quando eu lancei o 'Sobre Estar Vivo' que é um tipo de resposta a isso. Sou eu tentando entender como eu migraria desse som em inglês para o som em português e quais seriam as minhas novas referências dentro disso. Acabei tendendo para o lado de Almir Sater e da música caipira brasileira. Foi quando eu comecei a gostar de ‘ser entendido’”, conta. Ele agora tem se dedicado às composições em português. O próximo álbum, "Fake News”, será o terceiro na língua materna e terá a música e a figura de Raul Seixas como maior inspiração. 

“O Raul era um crítico social importantíssimo, que deságua um pouco no rock”, explica Phillip. “Cada disco meu tem uma história diferente. Eu gosto de me referenciar.”

Ao usar o Maluco Beleza como inspiração, Phillip transparece as mudanças que fez após refletir sobre sua própria música. Na maioria de seus álbuns, Phillip falava sobre o amor. Até “Manifesto”, seu último trabalho, lançado em 2017. A autocrítica o fez mudar de tema. Para ele, o conteúdo produzido pela música brasileira da atualidade não “traduz a urgência dos nossos tempos”. 

Você não precisa mais ser o rei da imagem, você precisa ter trabalho para se dedicar e soltar essas coisas nas plataformas. Artista é obra

“A música brasileira se tornou muito decorativa. Se você pega os grandes pilares da MPB — um Caetano, um Belchior, um Chico — as músicas deles falavam sobre o pensamento da sociedade. Temos feito muita coisa datada que daqui a 20 anos não vai dar caldo para os historiadores do futuro entenderem a nossa época. Eu comecei a pensar de uma forma muito crítica a música brasileira contemporânea e resolvi modificar o meu trabalho, porque eu percebi que eu não era um cronista do meu tempo”, reflete o cantor. A expressão ele tira de outra inspiração, Nina Simone, a quem chama de divindade. “Ela fala sobre isso, que a função de um artista é refletir o seu tempo”.

Phillip lamenta que a integridade de Nina a tenha levado para os caminhos tortuosos que a cantora americana enfrentou em sua vida. Para ele, ela “chegou a nível de miséria por ser extremamente íntegra, por ter um ponto de vista, segui-lo e defendê-lo até o fim.”

Guardadas as devidas proporções, Phillip e Nina se assemelham nesse aspecto. Nina resistiu em suas lutas até quando pode. Não se dobrou ao que exigiam dela para não frustrar seus valores e sua essência. O que, de alguma forma, o cantor paulistano faz ao se manter fora dos padrões na produção e na divulgação do seu trabalho.

“Nina era uma deusa, uma divindade, mas, guardadas as proporções, o que eu faço, de certa forma, também é um ponto de resistência. Eu não jogo o jogo (da indústria). Estou fazendo o que eu quero, essa é a maior resistência possível. Estou construindo um caminho para que os artistas que estão surgindo não pensem que nós temos que ser escravos desses meios. A gente pode inventar o nosso caminho sem se adequar a essas normas de divulgação moderna. Meu som é um ponto de resistência nesse sentido: ‘Faça o que você quer’. Devagar com paciência, você consegue abrir seu espaço e encontrar um caminho.” 

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